teologia para leigos

15 de junho de 2011

ISABEL JONET - ESTE VOLUNTARIADO É OBSCENO

Alguém, por aí, que denuncie isto?
 
Isabel Jonet - «gente que conta»?

 A máscara caiu… A rainha (do ‘Banco Alimentar’) vai nua… certa Igreja não quer ver, reproduz como discurso oficial (caritativo) e vangloria-se
VIVA O ANO EUROPEU DESTE VOLUNTARIADO!!!

Isabel Jonet - «não elogieis até que fale...»

 Não há lugar no banquete da natureza…

Dostoiévski em «Crime e Castigo» fez um dos seus personagens dizer: “… o senhor Lebeziátnikov, que acompanha as ideias novas, explicou, há dias, que nos tempos que correm a compaixão até está proibida pela ciência e que assim se passa na Inglaterra onde existe economia política”.

De que Economia Política estava o personagem de Dostoiévski a falar? De Malthus, claro.

Quem, senão Thomas Robert Malthus, escreveu a inesquecível passagem que se segue:

“Se um homem nascido num mundo já apropriado não pode obter dos seus pais a subsistência que justamente lhes pode pedir, e se a sociedade não tem necessidade do seu trabalho, então ele não tem qualquer direito à mínima porção de comida e, e de facto está a mais no banquete da natureza; para ele não existem prato nem talheres. A natureza recomenda-lhe que se vá embora e ela própria prontamente executa as suas ordens a não ser que ele possa recorrer à compaixão de alguns dos convidados para o banquete. Se estes convivas, equivocados, se apertarem para lhe dar lugar, outros intrusos irão surgir imediatamente e pedir o mesmo favor. O rumor de que existem alimentos para todos irá encher a sala de numerosos recém-chegados que reclamam.

A ordem e a harmonia dos convidados é perturbada, a abundância que anteriormente reinava torna-se escassez e a felicidade dos convidados é destruída pelo espectáculo da miséria [...]. Os convivas reconhecem demasiado tarde o erro que cometeram ao violarem as ordens estritas a respeito dos intrusos que haviam sido dadas pela grande senhora do banquete.”


  Acontece porem que alguns dos “convivas” que insistem em violar as “ordens da natureza”, como por exemplo a dirigente do Banco Alimentar contra a Fome, Isabel Jonet, costumam combinar a defesa da sua meritória actividade com referências aos “efeitos perversos do Estado Social”. Não se dá conta que os argumentos que mobiliza contra o estado social se podem aplicar precisamente à actividade meritória que dá sentido à sua vida.

Os argumentos de que falo são os mesmos de sempre, Malthusianos: “Se os pobres forem apoiados na sua pobreza, tornam-se indolentes – recusam o salário e o trabalho assalariado”.


Sobreviverão, mas isto só fará que aumente o seu número. Mais cedo do que tarde alguém se irá lembrar que isto tanto se aplica ao RSI, ou ao subsídio de desemprego, como… às ajudas do Banco Alimentar. É sinistro o argumento de Malthus, não é? Pois é - por isso mesmo houve quem chamasse à Economia Política a “ciência lugrube” -, mas o argumento de Malthus em nada de fundamental difere dos que todos os dias ouvimos até a convivas que insistem em violar as “leis da natureza” como Isabel Jonet.

Alimentemos que ideia...? O fim do Estado Social e Solidário? Que grande embuste...


José M. Castro Caldas [08:VI:2011] in:

NOTA: Oiça estas afirmações públicas de Isabel Jonet, a 5:VI:2011, na TSF… 5 min e 24 seg chocantes!

12 de junho de 2011

ESPIRITUALIDADE INDIVIDUAL - AS 5 TENTAÇÕES

«sou novamente presa da ilusão» [Fausto, v.1526]


Fausto & Mefistófeles


AS MINHAS TENTAÇÕES
NO DESERTO DO HOJE



Primeira tentação - querer partir do ponto zero. Esqueço-me que a experiência e a tradição contam, pesam, ocupam e estruturam quem sou, mesmo que eu as rejeite ou as deseje rejeitar. Reagir por oposição ao passado em geral e ao meu passado em particular pode ser necessário, mas a minha postura face à tradição e à experiência é que é decisivo daquilo que quero construir. Viver lutando contra a tradição não será continuar a ser refém da tradição que se combate? Pelo menos, no que diz respeito à estratégia ou à metodologia, isso poderá ser pura perda de energia e perda de oportunidade para criar uma alternativa livre, verdadeiramente nova. Acho que avançarei mais leve se aceitar que o caminho se faça sobre a humilde aceitação dos tesouros do passado: o resto, são desvarios mais ou menos votados ao fracasso. Não querer ser uma igreja (católica, luterana, evangélica, etc) é já ser uma igreja, como Derridá o demonstra. Não querer ser um partido (pré ou pós 25 de Abril) é já ser um certo tipo de partido. Não querer ser é já ser um ‘não querer ser’ (o que é uma certa forma de ser).

Segunda tentação – “transformar uma contingência numa eternidade”. [‘Mitologias’, R. Barthes] O voluntarismo é uma forma de decadência. Quando a vontade de superação se torna cega fica às ordens das nossas forças interiores, que a nós, também nos cegam. Sim, Mefistófeles é o Outro, mas esse Outro habita dentro de nós; ele nos explica que, mesmo o que supúnhamos ultrapassado e morto de vez, volta a mexer [Fausto,  «e era ilusão, aquilo voltava a mexer!», v. 11635]. Não podemos parar de pensar. O «esforço do conceito», de que falava Hegel, é inevitável. Quem pretenda criar uma esperança (como dizem os castelhanos, «una ilusion») lavada de qualquer contextualização histórica e social sofrerá uma grande decepção: reconhecerá, à força, que embarcara numa ilusão. A realidade dos sonhos TAMBÉM exige uma certa dose de racionalidade lógica. Viver um momento de felicidade e de paz não nos permite generalizações generosas: tudo tem que passar pelo crivo da conceptualização; até o dom gratuito deve passar por esse crivo sob pena de, ao programatizar-se, se segregar e se constituir numa seita ou num exótico criado para me servir só a mim, no interior dos aposentos da minha cápsula egotista. Transformar uma contingência boa num programa geral é pura alienação adolescente.


Terceira tentação – querer ’resolver’ a dramaticidade e a tragédia. Há que lutar contra a(s) tragédia(s) hodierna(s). Quais são elas? Quantas tragédias existem? O drama do mundo ocidental em sofrimento por um sentido … A tragédia da Igreja cristã, cadáver em decomposição … Ou será que, para além das tragédias, ainda há, a sobrepor-se-lhe, ‘a leitura’ da tragédia, a qual ainda cava mais fundo a tragédia e o drama de existir?! A Igreja e o Mundo Ocidentais sempre foram trágicos, porque filhos do judeo-cristianismo. No Budismo não há tragédia; só no helenismo; só no cristianismo. A tentação que sinto, à minha volta, é a de se querer gerar, na inocência edénica, um espírito a partir dum ponto meio essénico – isso, pressinto-o como irresponsabilidade e cegueira. ‘Querer resolver’ a dramaticidade e a tragecidade da vida é coisificar o ideal e a utopia, e isso confirma-se quando há que programar essa resolução, essa ’solução’. Custa ver onde vai desaguar o rio da ‘leitura da tragédia’: ao mar do desânimo, onde os colectores da raiva e da empertigação despejam o vazio. E, como todos temos horror ao vazio, é inevitável que a tragédia e o drama sejam insuportáveis. Há, portanto, que os ‘resolver’. Há que os evacuar. Há que os esvaziar, enchendo. Enchendo de quê? É aqui que o desânimo se revela como ‘um outro modo de vazio’, quando, lamentavelmente, expressa apenas raiva, ódio, desespero, urticária, ‘botabaixismo’. Não é de admirar que tal desespero seja presa fácil de qualquer proposta quietista, de qualquer espiritualidade que se aproxime de nós a oferecer Paz, Amor, Felicidade, Harmonia, um Coração Novo e tudo de mão-beijada. Diante da oferta grátis (e gratuita…) de tais «realidades cume», quem não se sentirá esmagado por tanto fascínio junto?! Aparentemente, a tragédia abeira-se, assim, de ser resolvida… Diante da necessidade, por todos nós ansiada, do «divino prazer da glória», Mefistófeles diz a Fausto: «Tal incumbência fácil se me antolha, e não temo dar-te riqueza dessa. Mas há um tempo, amigo, vai por mim!, em que só queremos paz e boa mesa.» Fausto responde: «Se um dia a tua lisonja me cegar (…) se com gozos me puderes enganar, que seja esse o meu último dia!» (…) «Então, está dito! Se alguma vez ao momento disser: Fica, tu que és tão belo!, serás então livre de me prender (…)» [Fausto, v.1688-1701].
Aí está: face à nossa incapacidade de organizar o desânimo, não faltam mefistófeles… Eles sabem bem a hora e o momento, eles prenunciam o exacto «momento» [v.1699] do (des)ânimo e sabem que a exaustão é a melhor antecâmara para o desejo, para o  frágil e doente desejo. Porque desarmado, a atitude do desanimado será render-se: «Fica, tu que és tão belo!» [v.1700]. É assim que os mefistófeles agem, de modo a que nós aprisionemos e ‘solucionemos’ toda a tragédia e drama de existir que nos figuram demasiado insuportáveis. Fica momento belo, fica que és belo! – é o melhor grito do que, sem o saber, já está escravo. «Serei escravo no dia em que parar» [v.1710] No dia em que tudo se tornar insuportável, me sentir soçobrar e me surgir, diante do LCD, as miragens: Amor, Felicidade, Harmonia, Sucesso, Anti-qualquer-coisa, em suma, o meu momento zen, eu direi: arrebata-me, pois já não aguento mais tanto drama e tragédia. Desarmado, aceitarei todo o tipo de discurso que me soe a anti tudo o que já vivi.Anti’ funcionará como o irresistível isco. Deixará tudo na mesma, mas isso deve ficar para depois, pois, agora, o ‘momento’ [v.1699] é de ‘paz’ [v.1690] e ‘belo’ [v.1700].


Quarta tentação – separar os traços psicológicos dos traços histórico-sociais. Recordo o relato dos discípulos de Emaús [Lucas 24:13-35]. Aquilo que naquele momento, e hoje mais do que nunca, urgia/urge é organizar o desespero e o desânimo. Virámos as costas à utopia, deixamos de acreditar ser possível o que quer que seja, tudo que nos acena nos recorda o passado e, portanto, enraivece, decidimos ir ficar onde a vida não mexe – Emaús, lugar bucólico, símbolo da paz imediata, da paz e da felicidade JÁ HOJE, AGORA, PRONTA A SER SERVIDA, à mão de semear… Que grande tentação! «E, começando por Moisés e seguindo pelos Profetas, explicou-lhes…» (v.27). «Explicou-lhes»: Jesus, partindo dum facto pontual e integrando-o no seu correcto contexto («explicou»), oferece-lhes a leitura sistémica, a leitura global, a leitura ‘científica’ para o ‘facto pontual’ que acontecera. «Então, os seus olhos abriram-se» (v.31). «Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros» (v.33).
Jesus propõe uma alternativa aos refúgios, aos «aqui-tá-se-bem»: Jesus propõe-se organizar o desânimo, combate as respostas fragmentadas para problemáticas sistémicas e sugere respostas globais e científicas. Jesus recusa-se cavar ainda mais fundo o desânimo com discursos do bota-a-baixo ou do «comamos e bebamos que amanhã morreremos». Jesus não vai em purismos: isolados, não seremos diferentes daqueles que criticamos - e regressaram atrás, «a Jerusalém». Para Jesus, a crítica purista, essénica, só dá armas ao adversário. Aquela que verdadeiramente desarma o adversário, é a leitura correcta das causas do mal e a proposta dum espaço grupal que alimente a esperança num mundo outro. A primeira permitirá uma acção política não-ingénua, ridícula e evitará ser fomentadora de novas frustrações [ex.: movimento «15M» em Madrid e outros, Público, 08:VI:2011, p.15]. A segunda, permite-nos a robustez de quem já não quer ir atrás de ‘coros místicos’ ou poéticos e se meta a «drenar o charco», «a última e grande obra» [v. 11561], que é «Abrir o espaço e a esperança a muitos» [v.11563]. Jesus arma os desenganados e desarmados da vida madrasta, oferecendo-lhes uma ferramenta intelectual: «e seus olhos abriram-se» e eles recobraram a vontade e a força de lutar… Leituras individualistas e fragmentadas da realidade fragilizam-nos e aumentam a impotência (porque fragilizam os nossos argumentos). Leituras sistémicas aligeiram-nos de eventuais impotências e culpas e mobilizam-nos para os combates. Leituras que separem os traços históricos dos traços psicológicos das crises fazem o jogo do sistema. A partir de K. Marx, todos os enfoques absolutizadores dos traços espirituais e psicológicos são pura alienação (religiosa, psicológica, política, etc.): insistir que tudo passa pela conversão do coração e que as mudanças sociais e os movimentos político-partidários são secundários e menores é não perceber que o ser humano é um ser AO MESMO TEMPO social e individual. As transformações fazem-se em simultâneo, num vai-vém entre o Mundo e a Igreja, vai-vém, esse, animado pela Utopia do Reino, que tanto sopra no mundo como na igreja e em doses iguais.


Quinta tentação – Babel ou Pentecostes? A Igreja Católica permite-nos não morrermos, nem numa historicização de mármore gelado, nem numa psicologização introspectiva da nossa fé tão ao gosto de frustrados: estes dois grupos sempre acabam isolados e resignados. A Catolicidade é um tesouro! Mas, por favor, não confundam catolicidade com ’os católicos’, nem com ‘a igreja católica’. Porém, não tenhamos medo de molhar as mãos, pois Mefistófeles está por todos os lados… O limite de uma utopia é o limiar de outra! «Que nada ao homem de perfeito é dado, sinto-o agora!» [v.3240-3241] «e assim salto do desejo para o gozo e no gozo aspiro a novo desejo» [v.3249-3250] Porventura, eu desejaria uma «caverna segura» [v.3232], onde o olhar não fosse frio, mas de espanto. O relato da Transfiguração já há muito nos ‘desiludiu’ quanto a isso e os dois anónimos discípulos que residiam em Emaús se encarregaram de nos ensinar que o mesmo caminho que vai para lá também nos pode trazer de volta: verdadeiramente não há dois caminhos – há apenas um caminho! Colocar a questão ‘Babel ou Pentecostes?’ é uma falsa questão, hoje em dia, porque o limite de uma utopia é o limiar de outra! E nós somos apenas ‘vagabundos sem descanso nem ensejo, queda de água rugindo lá no fundo dos escarpados abismos do desejo’ [v. 3348-3351]. Quantas vezes nos dilaceramos em guerras com outros que não passam da 2ª via de uma guerra maior, a que nos faz arrancar penedos de dentro para os despedaçar fora de nós. No Fausto, de Goethe, na Primeira Parte da Tragédia, em Floresta e Caverna, Fausto diz: «Quiseste, Inferno, esta vítima ter! Vem, diabo, a esta angústia pôr fim. O que há-de ser, que seja agora mesmo! Que o seu destino desabe sobre mim e rolemos juntos para o abismo!» [v.3361]

Alto diante da afirmação: «só se é homem no delírio da acção.» [v.1759]
Porque, «serei escravo no dia em que parar.» [v.1750]

Nada do que nos acontece é novo. Faz-nos falta estudar História: história económico-política e história do cristianismo. Isso nos robustece e nos ensina que «a forma nunca existe sem conteúdo» [Goethe]. Viveremos sempre entre Babel e Pentecostes. Os que não fizerem as pazes com isto entrarão em desespero e o desespero é o caminho para o suicídio, tal como já o aprendemos de um discípulo de Jesus chamado Judas. Se formos capazes de saber organizar o desespero e a desilusão, se fizermos o trabalho de casa sem erros voluntaristas e cegos (fundamentalismo ou exclusivismo), se nos esforçarmos por pensar bem antes de nos metermos em aventuras emotivas e ‘a quente’, se desenharmos previamente os nossos projectos sem querermos [como nos ensina o Salmo 131(130)] ir além das nossas pernas, nem correr atrás de grandezas ou protagonismo, se desejarmos vivamente ser pobres, até nos nossos desejos, imprecações ou projectos [Tg 2:5], contemplaremos a misericórdia como num espelho. Sejamos «servos inúteis», visitadores dos desvalidos, amparo dos órfãos e das viúvas e isso será «a religião pura e sem mácula» [Tg 1:27]. Não compremos guerras inúteis… porque o limite de uma utopia é o limiar de outra!

[pb]

8 de junho de 2011

ISABEL STILWELL ENTREVISTA MICHEL RENAULD - QUE «VALORES» EM CRISE?

«A nossa crise política é uma crise essencialmente ética»



Michel Renaud - (foto de Rowan Harvey)



Isabel Stilwell (IS): A palavra Ética é usada a torto e a direito, mas o que quer realmente dizer?
Michel Renauld (MR): A palavra vem de um termo grego que acabou por designar a interioridade humana da qual brota o agir. Mas hoje podemos dizer que há pelo menos duas maneiras de ver a Ética: a ética como o Bem por oposição ao Mal. Ou a Ética como busca do melhor. E a busca do melhor significa que há atitudes boas, mas que umas são melhores do que outras. Penso que o ideal da Ética é a procura da vida boa, que não é necessariamente a ‘boa vida’ [risos], mas sim o facto de ter uma vida que realizou qualquer coisa.

IS: Por vezes usa-se ‘moral’ como sinónimo de ética...
MR: A ética, ao contrário da moral, não começa por falar de modo negativo. Não nos coloca no campo das obrigações. A moral diz ‘não faças isto’, fala dos deveres, do que não se deve e do que se deve fazer, ao passo que a ética diz como se age melhor, e como se vivem os grandes valores de vida.

IS: Se calhar educamos com demasiados ‘não faças’?
MR: Antes de falar muito em deveres, devíamos reflectir sobre os grandes valores. Aí os mais novos perceberiam por que é que vale a pena seguir determinadas regras. No contexto da educação, dever-se-ia sempre dizer o motivo pelo qual se proíbe um comportamento: é com efeito em nome de um valor positivo que se proíbe qualquer coisa. A proibição, a regra apenas se justificam pelo valor que promovem e não pelo facto de provir de uma autoridade arbitrária.

Mas de onde vêm os valores? Nasceram todos simultaneamente, são revelados, descobrem-se?

Primeiro é preciso ter consciência de que todos os valores foram descobertos numa cultura e numa época específica da história da humanidade. O valor é sempre inventado por alguém que o vive. São «agidos» antes de serem pensados. Mas se só os pensássemos e ninguém continuasse a vivê-los, então entrariam em crise e poderiam perder-se. É preciso acrescentar, contudo, que os valores não estão em pé de igualdade.

IS: Como num jogo de cartas, um valor pode ‘cortar’ os outros, agir como um trunfo?
MR: O filósofo alemão Max Scheller, que criou uma espécie de tabela de valores, mostra que os valores mais básicos são os valores vitais: precisamos de comer e de beber, de ser abrigados; estes são valores que mantêm a vida biológica. Depois há valores mais elevados, por exemplo os estéticos, que já são especificamente humanos. Os valores estéticos não são puro luxo, a beleza transfigura a nossa vida, mas não substituem os primeiros. Do mesmo modo, há valores espirituais, que também implicam todos os precedentes.

IS: E são universais, ‘servem’ para toda a humanidade, independentemente da sua cultura?
MR: Os valores mais altos são absolutos e universais. Mas isso não significa que sejam praticados por todo o lado e em todas as épocas. Portanto, não se trata de uma universalidade «de facto», como se estivessem presentes em todas as culturas. Tudo se passa como se houvesse uma exigência de «universalidade»: levaram muitos séculos a serem descobertos, vividos e depois proclamados. Significa então que se os perdermos – e podemos perdê-los – haverá um grave recuo em «humanidade» e na humanidade.

IS: Quer dar-me um exemplo de um desses valores absolutos?
MR: A dignidade do ser humano, por exemplo, e os valores ligados ao respeito por essa dignidade. Quando digo que um determinado valor é absoluto, quero dizer que o «valor» desse valor já não depende da cultura na qual foi descoberto, mas que vale por si próprio, sem que seja necessário recorrer à sua história para o compreender. Além disso, há outra coisa que merece reter a nossa atenção: os valores são sempre vividos em primeiro lugar por minorias activas.

IS: O contrário das maiorias políticas, portanto? [risos]
MR: A ética e a política não correm de modo simultâneo. Em democracia, a política faz-se com maiorias, mas a ética «progride» com minorias. Por exemplo, a justiça social parece-nos um valor adquirido, mas no século XIX não era fácil fazer uma greve no local de trabalho; houve gente que morreu por esse valor. O que mostra que são muitas vezes os heróis que conseguem promover um valor, até que este seja reconhecido pelas grandes maiorias políticas e sociais.

IS: E aí transformam-se em lei?
MR: As leis políticas incorporam valores éticos que se tornaram consensuais. Porque a nível ético não podemos impor a ninguém os nossos valores, de que resulta a sua fragilidade, mas também a sua nobreza.

IS: Mas acredita que a política pode ser ética?
MR: Devia, e podia ser! Uma prova lateral disso é que nenhum político democrático vai dizer que não acredita na ética ou pode prescindir dela; o que significa que todos reconhecem, pelo menos, a necessidade de ética no desempenho das funções políticas. Mesmo quando não a praticam.

IS: A confiança dos portugueses nos políticos está num ponto baixo...
MR: Isto acontece porque, se por um lado, a política não é capaz, por si mesma, de tornar as pessoas muito éticas, por outro, sem a ética a política entra em crise. A política apenas sanciona as infracções às normas, eventualmente éticas, codificadas nas leis. Não entra no âmago da consciência humana nem nos actos, eventualmente eticamente reprováveis, que não são conhecidos ou que não fazem parte das exigências legais. A política «obriga», com a presença de sanções. Na ética, não há sanções que provêm de fora (salvo no contexto educativo), mas há a auto degradação ética, quer ela seja conhecida dos outros, quer não. Por exemplo, para a lei portuguesa, o aborto legal até às dez semanas é considerado «politicamente» como neutro, aceitável, qualquer que seja a avaliação ética pessoal.

IS: Ou seja, para recuperar a credibilidade, os políticos têm de ser intrinsecamente éticos?
MR: A política não será capaz de voltar a encontrar a sua credibilidade se não houver ética. Penso que é importante entender que a crise política da sociedade portuguesa é uma crise primordialmente ética: há uma crise de credibilidade dos políticos, uma falta de confiança da sociedade civil no modo como os políticos desempenham as suas funções.

IS: Mas o que podemos fazer para garantir essa mudança?
MR: Se calhar temos de pensar no futuro, porque o grande motor de ética é a educação.

IS: A ética ensina-se, nomeadamente na escola?
MR: A ética não se ensina, nem se aprende apenas teoricamente, mas propõe-se e testemunha-se. Há modelos. A função dos modelos é fundamental em todos os níveis de ensino. Os professores de que nos lembramos não são, necessariamente, os mais inteligentes, mas antes aqueles que nos marcaram pela sua atitude para connosco, pela sua postura perante a vida.

IS: Estamos a perder valores, como tanto se repete, ou todas as gerações reagem perante a forma como os mais novos os recriam?
MR: Atenção, o modelo não existe para ser imitado a papel químico, mas, no meu entender, houve, de facto, um recuo da dimensão ética da gestão política e administrativa da sociedade. O interesse pessoal parece com efeito predominar, muitas vezes, sobre o serviço público. Mas um recuo ético não é necessariamente definitivo.

 IS: Precisamos, portanto, de melhores modelos, é isso?
MR: Sim, porque os valores que deixam de ser vividos esbatem-se progressivamente, até serem revividos por outras pessoas ou por outras gerações. Temos a esperança, e a esperança permite-nos pensar que nunca são definitivamente perdidos.


ISABEL STILWELL (entrevistou Michel Renauld)
DESTAK, 08:VI:2011


Nome: Michel (Marie Joseph Gabriel) Renaud. Nasceu: Em 1941, em Liège, na Bélgica. Casou com uma portuguesa e vive em Portugal desde 1980. Formação: Licenciatura e doutoramento em Filosofia, na Universidade Católica de Louvain. Profissão: Professor catedrático de Filosofia na UNL e colabora no curso de Doutoramento do Instituto de Bioética, UCP, é vice-presidente do CNECV.




Destaques da Entrevista:

Corremos o risco de politizar a ética. «A forma de pensar a ética é uma das coisas que mais me preocupa na actualidade. Por exemplo, estando no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) desde a sua fundação, verifico que a busca de consensos acaba, várias vezes, por fazer da ética a procura do mais pequeno denominador comum, aceitável por todos os membros, em vez de procurar e valorizar as respostas mais éticas e eventualmente mais exigentes. Muitas vezes, na discussão de uma Comissão de Ética qualquer, não se procura o ideal, a recomendação do melhor caminho, mas apenas o que a sociedade é capaz de aceitar. Considero que se corre assim o risco, bem real, de politizar a ética.»


«Em democracia a política faz-se com maiorias e a ética com minorias. Mas a política podia e devia ser ética»


«Houve um recuo da dimensão ética da gestão política e administrativa da sociedade. O pessoal parece dominar o público»


«Não temos a capacidade de viver todos os valores do mesmo modo, por isso temos de fazer escolhas. Por exemplo, quando um estudante na véspera de um exame se encontra face a dois comportamentos possíveis, ir para a praia (e descansar é um valor), ou estudar, tem de hierarquizar os valores. Isto gera um dever: dizer não à praia. É um valor superior que se torna dever quando é preciso superar um obstáculo, o que implica aparentemente um certo sacrifício. Mas as pessoas totalmente reconciliadas consigo próprias não vivem a vida ética a partir de deveres.»

6 de junho de 2011

O PENTECOSTES DA VIDA PROVOCA ESTRONDO

Pentecostes
Uma fotografia do passado projetada na tela do futuro





I - Partilhar nossas experiências e nossos sonhos de comunidade
Vamos meditar sobre a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Nos Atos, além do primeiro Pentecostes, há vários outros pentecostes e pentecostinhos: quando a comunidade está em oração durante a perseguição (At 4,31); quando Pedro acolhe o primeiro não judeu (At 10,44-46); quando se reúnem para enviar os primeiros missionários (At 13,22) etc. Além disso, muitas pessoas aparecem animadas pelo Espírito Santo: Pedro (At 4,8); Estevão (At 6,5); Barnabé (At11,24). O Espírito Santo atua em tudo, desde a redação do documento final da Assembléia de Jerusalém (At 15,28) até as coisas mais comuns da vida, como o planejamento do roteiro da viagem dos missionários (At 16,6.7).
Hoje também acontecem muitos Pentecostes, momentos fortes da caminhada, de tomada de consciência, de luta, de celebração, de descoberta, de testemunho. Tantos momentos! Sempre de novo, sem parar, o Espírito faz nascer e renascer a Igreja e as comunidades! Vejamos:
  • Houve algum fato na vida da sua comunidade, em que vocês reconheceram a presença e a ação do Espírito Santo? Conte.
  • Já aconteceu alguma vez algo assim na sua vida pessoal?
  • E na história das Igrejas do Brasil e da América Latina, houve algum Pentecostes? Qual?
 
II - Escutar a partilha da comunidade dos primeiros cristãos.
1 - Vamos ouvir como Pedro procura dar a explicação correta do acontecimento e como ele revela o apelo de Deus. Vamos prestar atenção no seguinte: quais as várias formas ou símbolos com que o Espírito Santo se manifesta?
2 - a leitura do texto: Atos 2:1-24 - pode ser dividida, partilhada.
3 - momento de silêncio.
4 - Perguntas para refletir e partilhar:
  • Qual o ponto desse texto que você mais gostou ou que mais chamou a sua atenção? Por quê?
  • Quais são, um depois do outro, os vários assuntos abordados neste texto? Sobretudo, quais os assuntos abordados por Pedro no seu discurso?
  • Quais as várias formas ou símbolos em que o Espírito Santo se manifesta? Qual o significado de cada símbolo?
  • Como o povo reage frente à ação do Espírito Santo? Como Pedro ajuda o povo a superar a interpretação errada que alguns deram ao fato?
  • Como este texto pode ajudar-nos hoje a perceber a verdadeira ação do Espírito Santo na vida e na história de nossas comunidades



III - Transformar em oração o que partilhamos entre nós.
Comentando: "no início do evangelho, Lucas descreve como Jesus nasce pela ação do Espírito Santo. No início dos Atos, como a Comunidade nasce pela ação do Espírito Santo. No dia de Pentecostes, o Espírito inaugurou a nova humanidade (At 2,4.33; 4,31). A partir deste momento, é o Espírito de Jesus que vai animar a vida e a história das comunidades. Ele dirige todos os seus passos, transformou os apóstolos... está presente nas comunidades... traz alegria, consolação, fortaleza, discernimento etc... Sua ação está encarnada em ações ordinárias, comuns da vida humana: falar, rezar, cantar, criticar, decidir, crescer, anunciar, servir etc. Manifesta-se nas iniciativas e testemunhos da comunidade, nas celebrações da Palavra e dos Sacramentos, nas lutas das pessoas pelo bem dos outros, nas reuniões, nos encontros, nos conflitos, nas descobertas..."   
  • Celebrar, se desejar, com canto e oração espontânea.
  • Agradecer, encerrar com o Pai-Nosso.
  • Cantos à vontade

Carlos Mesters e Francisco Orofino

«DOS HOMENS E DOS DEUSES», com o Actor

Encarnando o irmão Luc


  

Michael Lonsdale era, na sexta-feira, ao final do dia, na sala 3, dos Cinemas Cinemax do Braga-Shopping, o irmão Luc, assim dando corpo e espírito ao monge com o mesmo nome que foi assassinado na Argélia, em 1996. E é inesquecível a sua participação no filme Dos homens e dos deuses, que evoca a vida dos monges do mosteiro argelino de Tibhirine, sete dos quais (Bruno, Célestin, Christian, Cristophe, Michel, Paul, além de Luc) raptados e assassinados por um grupo de islamitas.

“Este filme toca o coração. Ele fala de coisas raras, como o sacrifício, a coragem ou o trabalho em favor do entendimento entre os povos. É perturbadora, esta história de vítimas inocentes, sacrificadas. Os monges de Tibhirine estavam completamente integrados na população. Cultivavam a terra, criavam ovelhas, cuidavam de colmeias… Os camponeses com quem trabalhavam, que curavam, eram como irmãos que eles não queriam abandonar”, diz Michael Lonsdale numa entrevista publicada num número especial da revista Pélerin, dedicado ao filme sobre estes monges que morreram por, apesar de ameaçados, não terem querido abandonar a pobre gente argelina da vizinhança.

Michael Lonsdale não será, com certeza, entre nós, um actor muito conhecido, mas isso não obsta a que seja, sem qualquer dúvida, um dos mais fascinantes actores franceses de teatro (um dos seus amigos foi Samuel Beckett) e de cinema. Os cinéfilos recordar-se-ão, talvez, de ele ter sido o vice-cônsul de Lahore no filme India Song, de Marguerite Duras, e outros, por não associarem o nome à pessoa ou, melhor dizendo, ao actor, não saberão que ele foi o abade obscurantista do filme O nome da rosa ou que já desempenhou o papel do vilão que se esforça para fazer a vida negra a James Bond. Não é, evidentemente, por acaso que se participa em filmes de Luis Buñuel, Louis Malle, Steven Spielberg ou François Truffaut.





 Encarnar o irmão Luc foi muito fácil para Michael Lonsdale. A razão, explica o actor, deve-se ao facto de compreender muito bem as motivações do monge. “É como um amigo, não tenho qualquer dúvida”. Luc é monge e médico. De manhã à noite, cuida das doenças dos camponeses argelinos que vêm ao mosteiro. Chega a receber cento e cinquenta pessoas por dia. Tem ainda tempo para escutar e ajudar a encontrar respostas, como sucede quando a filha do jardineiro lhe pergunta o que é o amor. O actor, tal como Luc, é católico.

Num pequeno livro de orações (Oraisons. Arles: Actes Sud, 2000), Michael Lonsdale escreve que Marguerite Duras lhe contou que o viu num sonho com o hábito de monge. “Não me tornei monge. Gostaria de o ter sido. Doce apelo, que a minha miserável natureza não escutou”. Dos homens e dos deuses permitiu-lhe ser, por algum tempo, bem mais do que um intérprete de um monge.





“Era um cristão algo ‘morno’, que vivia egoisticamente. A fé ensinou-me o perdão e a suprimir o julgamento. A religião tornou-se parte essencial da minha vida. Mas ela encontra-se intimamente ligada às duas outras componentes da minha existência, o cinema e a pintura. A expressão artística é um dom de Deus”, confessou numa entrevista concedida a Le Journal du Dimanche (19 de Fevereiro de 2011).

A fé que professa e a Igreja a que pertence foram temas incontornáveis dessa conversa. Michael Lonsdale julga que “há uma forma de Igreja que é demasiado arcaica – isso não pode continuar –, é preciso que as coisas mexam. A mediocridade beata reduz o Cristo a uma espécie de obrigação severa. Falava-se ainda, há não demasiado tempo, do tribunal de Deus. É um pavor”. A seguir, manifesta outro incómodo: “É preciso parar com os trajes de cardeais e de bispos, o fausto que impõe uma representação rica de Deus, que é contrária à sua mensagem. É preciso eliminar todos esses signos exteriores”.

O actor espera também que se autorize o casamento dos padres um dia. “O temperamento humano é demasiado forte para aceitar esta vida sem que isso seja problemático. Os apóstolos eram casados, os padres também o eram até ao século XI. Talvez isso ocorra com o próximo Papa, mais moderno, mais jovem”.

Questionado sobre se tem medo da morte, Michael Lonsdale diz que não, que ela é natural. “Nascemos, desaparecemos, permanece o grande mistério do depois. Mas acredito na palavra de Cristo: ‘Em verdade te digo, estarás comigo no paraíso.’ Sinto-me sereno, deposito as coisas nas mãos de Deus.”





 Entre o que necessita, o actor refere o silêncio. “O silêncio é de ouro neste mundo moderno barulhento, em que não se cessa de gesticular, falar, correr e para quê?” Uma útil pergunta para fazer neste Dia Mundial das Comunicações Sociais.


“Os dias da semana”
05:VI:2011

Eduardo Jorge Madureira Lopes

ASCENÇÃO AOS CÉUS - JESUS VAI VOLTAR?

 Será que Jesus vai voltar?
Sobre a festa da Ascenção





Por volta dos anos 80, muitas comunidades estavam cansadas e tinham uma certa impaciência. Elas se perguntavam: “Será que Jesus vai voltar?” Pois Jesus tinha prometido voltar logo, mas até aquele momento ainda não tinha vindo! Daí a pergunta: “Vem ou não vem?” É também a pergunta de muita gente hoje: quando vai ser o fim do mundo? Quando é que Jesus vai voltar?

 Atos 1,7-8: A resposta de Jesus que vale até hoje

 As últimas palavras de Jesus aqui na terra trazem a resposta que vai servir de rumo para os cristãos de todos os tempos. Também para nós! Jesus diz: Não cabe a vocês conhecer os tempos e as datas que o Pai reservou à sua própria autoridade! Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês e dele receberão força para serem as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os extremos da terra! Em vez de querer penetrar no segredo de Deus, os cristãos devem deixar-se penetrar pelo Espírito de Deus para que possam ser testemunhas de Jesus. Em vez de ficar olhando para a volta de Jesus no fim dos tempos, a pessoa cristã deve estar atento à volta de Jesus através do Espírito no dia-a-dia da sua vida. O resto, a gente deve deixar por conta do Pai que tem a história em suas mãos.

Em outras palavras, a resposta que Lucas dá às comunidades dos anos 80 é esta: Jesus já voltou no dia de Pentecostes e, agora, ele está presente na comunidade! A comunidade é o próprio Jesus continuando a missão que o Pai lhe deu: “Como o Pai me enviou, assim envio vocês!” (Jo 20,21). “Vocês são a carta de Cristo!” (2Cor 3,3). O que importa não é saber a hora da volta de Jesus no fim dos tempos, mas sim continuar anunciando a Boa Nova de Deus até que ele volte!

Nesta resposta de Jesus, Lucas dá também o esquema do livro dos Atos: dar testemunho de Jesus em Jerusalém (At 2 a 7), em toda a Judéia e Samaria (At 8 a 15), até os confins do mundo (At 16-28).


Atos 1,9: Descrição da ascensão

 Diz o texto: Jesus foi elevado à vista deles e uma nuvem o ocultou a seus olhos. Desta frase vem o que até hoje repetimos no Credo: “Subiu ao céu, onde está sentado à direita de Deus Pai”. A nuvem é um símbolo da presença de Deus. Ela acompanhava o povo no deserto, depois da saída do Egito (Ex 13,21-22; 40,36-38). E quando Salomão inaugurou o Templo, ela encheu o Santo dos Santos para significar que Deus tinha tomado posse (1Rs 8,10-13). Dizendo que uma nuvem ocultou Jesus aos olhos dos discípulos e das discípulas, Lucas afirma que Jesus entrou no mundo de Deus para poder estar sempre connosco. De junto de Deus, ele nos envia o dom do Espírito Santo, a cada momento. Por isso, podemos dizer e gritar durante as nossas celebrações: Ele está no meio de nós!


Atos 1,10-11: O recado dos mensageiros

 Depois que Jesus desapareceu, os discípulos e as discípulas ficaram aí, parados, olhando para o céu. Era o que, no tempo de Lucas, muita gente fazia. Ficavam olhando para o céu, esperando a volta de Jesus, e esqueciam de cumprir aqui na terra seu dever de serem testemu­nhas de Jesus (2Ts 3,11-12).

Neste momento, aparecem dois homens vestidos de branco. São mensageiros que transmitem ou esclarecem a mensagem de Deus que existe dentro dos fatos. Quando alguém faz isto, dizemos que ele ou ela é um anjo ou uma anja de Deus. A palavra anjo significa mensageiro. Os dois dão um recado que deve animar a caminhada das comunidades: “Tão certo como Jesus subiu para o céu e agora se encontra junto de Deus, tão certo ele voltará e se manifestará de novo, do mesmo modo como vocês o viram partir aqui”. Com esta certeza no coração, os cristãos devem continuar o anún­cio da Boa Nova, sem se preocupar com a data e a hora da volta de Jesus (At 1,7; Mc 13,32).

Assim, Lucas adverte as comunidades dos anos 80 (e também as nossas de hoje), para que a demasiada preocupação com a vinda gloriosa de Jesus no fim dos tempos não as impeça de perceber que Jesus já estava aí no meio delas. Esta nova volta invisível mas real de Jesus se deu no dia de Pentecostes e nos muitos outros pentecostes que seguiram depois, até hoje: na Palavra, na Eucaristia, na Comunidade, nos acontecimentos, de tantas maneiras! É preciso ter o olhar de fé para poder percebê-lo. Este olhar se adquire na comunidade.


Carlos Mesters e Francisco Orofino

03 Junho 2011