teologia para leigos

25 de maio de 2011

«REPENSAR O MAL», por A. TORRES QUEIRUGA (VÍDEO)

Andrés Torres Queiruga

«REPENSAR EL MAL» -vídeo



«Deus não castiga ninguém… nem Hitler!»



«Deus só sabe estar amando»
«o pecado não faz Mal a Deus, só faz Mal aos humanos como nós»







BAPTISMO - UMA MUDANÇA DESCONCERTANTE

Jesus
um judeu que mudou de vida








O baptismo como mudança de vida para Jesus

Para os evangelhos, o baptismo, que Jesus recebeu das mãos de João Baptista, é o ponto de partida da vida de Jesus. Como é bem sabido, de facto os evangelhos de Marcos [Mc 1:9] e de João [Jo 1:31] começam directamente com o baptismo de Jesus por João [Baptista]. A vida de Jesus prévia ao seu baptismo não lhes interessa para nada. (…) O baptismo representou, de facto, para Jesus, uma mudança radical de vida. (…) Para a Igreja nascente, o que lhe interessava de Jesus era o que havia sucedido depois do baptismo que recebera das mãos de João. (…) Ou seja, depois que fora baptizado por João, Jesus começou a ser outro homem e pôs-se a viver de uma maneira tão nova e surpreendente, que nem a sua própria família entendia o que se estava a passar. Por isso, o evangelho de Marcos começa o seu relato com estas palavras: «Princípio [Archê] da boa nova de Jesus, o Messias Filho de Deus» [Mc 1:1]. E estas palavras conectam-se estreitamente com o baptismo que João administra e que Jesus recebe [Mc 1:2-11].

Em que mudou a vida de Jesus?

(…) Será que se pode afirmar que o baptismo, para Jesus, foi a passagem de uma vida «profana» a uma vida «sagrada» ou «con-sagrada»? Terá consistido nisso, realmente, a mudança que se produziu na vida de Jesus, a partir do baptismo? A resposta parece bastante clara e não oferece muitas dúvidas.

A partir do momento em que Jesus foi baptizado por João, Jesus não se dirigiu para o templo, não se dirigiu para o lugar sagrado por excelência. Nem muito menos passou a viver num convento do género dos que então já existiam no deserto do Mar Morto. Nem organizou um grupo de sacerdotes, com um templo específico e rituais próprios, com cerimónias, leis sagradas e observâncias particulares. E, claro está, ele não se tornou num «sacerdote», no sentido que essa palavra tinha de óbvio naquele tempo, e que ainda agora continua a ter para o comum dos mortais: ‘sacerdote’ como homem consagrado ao culto do altar.

Nada disso surge nos evangelhos. Jesus viveu como vivia toda a gente, vestia-se como o resto dos homens do seu povo, ia a casamentos e banquetes, comia e bebia como qualquer um, era amigo de pecadores e de pessoas de conduta duvidosa, ensinava coisas que punham nervosas as pessoas e os grupos mais observantes e os religiosos do seu tempo, foi mal visto pelos sacerdotes e, em geral, pelos funcionários do templo. Além do mais, era motivo de escândalo para alguns com aquilo que fazia e dizia [Mt 11:6; 13:57; 26:31].

É óbvio que a vida de Jesus não mudou no sentido de ter passado de uma vida «profana» a uma vida «sagrada» ou «con-sagrada».

Então, em que consistiu essa mudança?
Pelo que contam os evangelhos, está claro que a vida de Jesus mudou na medida em que deixou a sua casa e o seu povoado, abandonou a sua família e o seu trabalho, reuniu um grupo de pessoas que o acompanhavam, às quais chamava «discípulos» [Mc 3:7; Mt 5:1; Lc 6:20; etc] ou «apóstolos» [Mt 10:2]. Nesse grupo iam também «muitas» mulheres, algumas delas vinculadas a enfermidades e demónios [Lc 8:2-3], aspectos que naquela sociedade tinham conotação muito negativa. Com este tipo de gente, Jesus ia de lugar em lugar e de cidade em cidade anunciando a chegada do Reino de Deus [Mt 4:23-25; Lc 8:1]. Curava os enfermos, desencadeava uma intensa atracção por parte do povo simples o qual o seguia entusiasmado, interessava-se pelos pobres e gente marginal e, regra geral, as suas palavras eram bem recebidas pelos pobres, pelos ignorantes e pelas pessoas mal vistas por parte da sociedade daquele tempo.

Pelo contrário, o seu ensino irritava os mais religiosos e os ricos, sobretudo quando se tratava de pessoas revestidas de autoridade. (…) Não há dúvida que, a partir do baptismo, a mudança de vida foi evidente, quer para Jesus, quer para todos os que o conheciam.

Uma mudança desconcertante.

(…) Como é lógico, a pergunta que ocorre a qualquer um é muito clara: que se passou, naqueles que melhor conheciam e que mais amavam a Jesus, para que eles pensassem que ele estava louco? Seguramente, a resposta está no tipo de gente que se apinhava na sua casa. Do relato conclui-se que não era gente importante, nem pessoas religiosas e educadas, nem gente de boas famílias e com cultura. Nada disso. Marcos, para referir-se àquela massa de gente, utiliza o termo óchlos [Mc 3:20]. Esta palavra indica que se tratava dos últimos daquela sociedade, não apenas pela sua ínfima condição socioeconómica, mas também pela sua situação cultural e, inclusivamente, religiosa, já que, dessa classe de pessoas, os dirigentes religiosos pensavam que «não conheciam a Lei e eram malditos» [Jo 7:49]. (…) Só um indivíduo que perdeu a sanidade mental pode actuar de modo que entusiasme semelhante chusma de gente, pois a palavra óchlos, tal como a utilizavam os gregos, designava gente que não estava capacitada nem sequer para emitir opinião que merecesse ser escutada. Ouvir esse tipo de gente seria ridículo… [Platão, Leg. 2, 670b] (…)

Sem dúvida que esse tipo de gente percebeu que ele se interessava pela sua situação e pelos seus problemas e, além do mais, ele curava as suas penas e desgraças. (…) Naquele tempo, fazer o que Jesus fazia, era, antes de mais, dar mostras evidentes de que quem entusiasmava e atraía tanto aquelas pessoas tinha que ter ideias religiosas e sociais que não encaixavam no que era considerado «normal». Era como se agora víssemos um pregador a quem acorressem, a ouvi-lo, loucos, mendigos, imigrantes, aqueles que nunca vão à missa, nem sabem nada de religião, etc. Um indivíduo assim levantaria inúmeras e «razoáveis» suspeitas. Naquele tempo, teria sido tomado por louco. Compreende-se que os seus familiares procurassem deitar-lhe a mão e retirá-lo de circulação. (…) Sem dúvida, porque, naquele tempo, tal como ainda agora, as pessoas estão convencidas de que o facto de se abandonar um trabalho que permite ganhar a vida e dedicar-se a uma tarefa em prol dos outros, é uma «cagada», uma «trampa» [sentido literal do termo grego skándalon – cf. J. Guhrt, Escândalo, em DTNT, II, 97] ou «motivo de ruína», em sentido figurado.

Enfim, há demasiada gente que se sente mal, que estranha e se escandaliza por haver outros que, em vez de cumprirem com as suas obrigações costumeiras, se dedicam a fazer feliz outras vidas. Provavelmente por isso, após ter dito aos emissários de João Baptista que ele se dedicava a aliviar o sofrimento alheio [Mt 11:2-5], Jesus concluiu: «Ditosos os que não se escandalizam de mim» [Mt 11:6]. O cumprimento mudo das tarefas de todos os dias é sinal de gente cumpridora e honrada. A dedicação a fazer outros felizes ou, pelo menos, a aligeirar-lhes a vida, isso (por estranho que pareça) é, com frequência, motivo de escândalo. A sociedade está montada de tal maneira que isto se passa com demasiada frequência. (…) O mais normal é cada um dedicar-se às suas coisas e aos seus próprios interesses. (…) O facto é que o regresso de Jesus à sua terra natal resultou num desastre [Lc 4:28; Mc 6:4-6].


José Maria Castillo
“Víctimas del pecado”, Ed. Trotta 2007, pp. 19-27

Nota: ex-professor convidado de teologia na Universidade Gregoriana de Roma, ex-professor na Faculdade de Teologia de Granada, membro da Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII; doutor honoris causa da Universidade de Granada (2011).

24 de maio de 2011

«CONVERGÊNCIA E ALTERNATIVA» - MANIFESTO

Resistir ao medo do escuro…

As duas Regras do sistema: 1º assustar as pessoas; depois, desmoralizá-las…

Puerta del Sol – Madrid [Fundação Lauro Campos]


Puerta del sol - Madrid


Manifesto
  
Em plena crise financeira, somos chamados a eleger um novo governo. O que fazer? Votamos “como de costume” e esperamos resignadamente por um governo de coligação PS-PSD-CDS que virá aplicar a austeridade selvagem imposta pela UE/FMI?

Ao contrário do que nos dizem a toda a hora na televisão, o programa de austeridade imposto pela EU/FMI não vai retirar o País da crise. Quem está atento sabe que a Grécia e a Irlanda viram agravar o desemprego e as suas dívidas. Mais ainda, se quisessem vender hoje títulos de dívida pública, teriam de pagar taxas de juro tão ou mais elevadas que as do momento em que pediram “ajuda”.

Políticos e comentadores de economia insistem que é inevitável, que temos de acalmar os mercados, mesmo que nos afundemos numa espiral de cortes na despesa pública, recessão, mais desemprego, mais dívida, novos cortes na despesa pública, até não se sabe quando. Outros explicam que, por já não termos moeda própria para desvalorizar, teremos de reduzir os salários, as pensões de reforma e os preços em vinte ou trinta por cento para que a economia seja competitiva e possa crescer. Estranhamente, nunca apresentam os exemplos de aplicação bem sucedida de tal política.

Os problemas económicos, financeiros e sociais que vivemos têm causas externas e internas que se entrelaçam. Por um lado, a UE recusa criar um orçamento federal e um tesouro que emita dívida europeia, criando assim as condições perfeitas para que os especuladores ponham em causa a sustentabilidade da zona euro. Por outro lado, os partidos que têm governado o País são também responsáveis pela presente crise através das políticas erradas que executaram e da gestão ineficiente ou pouco transparente dos recursos públicos, por vezes em suspeita convergência com poderosos interesses privados.

Portugal não pode continuar a ser adiado. Um grupo de cidadãos, com e sem filiação partidária, após uma ponderada reflexão sobre a gravidade da presente situação e os bloqueamentos políticos que impedem a sua superação, tomou a decisão de levantar a voz e dizer bem alto que podemos seguir outro caminho. Acreditamos que é possível construir uma «Convergência e Alternativa» de ideias, pessoas, organizações, movimentos sociais e partidos da esquerda que seja capaz de oferecer ao País um governo de ruptura com a austeridade selvagem que a UE vai impor. Urge lançar um debate público sobre os valores, princípios e linhas de força de uma política económica alternativa.

Para apoiar esse debate, está em preparação um texto programático que constituirá uma referência para todos os que queiram empenhar-se na construção dessa «Convergência e Alternativa». No entanto, face à importância que, no debate eleitoral que se avizinha, deve assumir a apresentação de verdadeiras alternativas, decidimos avançar de imediato com a publicação das nossas opções sobre quatro problemas cruciais: Portugal e a zona euro; o problema da dívida; desemprego; desigualdade e pobreza.
      
      1. Portugal e a zona euro
      
Após a adopção do euro, o crescimento da nossa economia foi anémico e em larga medida financiado por crédito externo. Taxas de juro baixas estimularam na periferia da zona euro os negócios a crédito, alimentaram a especulação do imobiliário e produziram uma inflação superior à dos países mais desenvolvidos. Entretanto, a UE abriu o mercado interno aos produtos dos países com salários muito mais baixos como contrapartida da abertura desses países às importações dos produtos europeus mais sofisticados.

Hoje o País não dispõe da desvalorização cambial, o principal instrumento de política usado para superar as anteriores crises. Como se tal não bastasse, a UE consagrou uma política orçamental perversa porque impõe a redução da despesa pública nos períodos em que é necessário aumentá-la para reanimar a economia. O pacote legislativo sobre a Governação Económica da UE reforça esta orientação e aplicará multas aos países que não cumpram a nova versão do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

A deficiente arquitectura institucional da zona euro e uma especialização produtiva do País que não evoluiu o suficiente para evitar o impacto da abertura desregulada da UE ao comércio internacional, constituem, no seu conjunto, um enorme obstáculo à superação da presente crise.

É preciso dizer a verdade aos portugueses. O nosso endividamento não fica resolvido com o acesso ao financiamento da UE/FMI, já que este vem associado a uma política de austeridade brutal e a reformas que se propõem desmantelar a legislação que ainda confere alguma protecção ao trabalho. Com esta política pretende-se consolidar um modelo de competitividade baseado em baixos salários, em absoluta contradição com o objectivo estratégico que motivou a entrada do País na zona euro, passar a competir pela inovação com base em trabalho qualificado.

O primeiro passo para enfrentar a presente crise é reconhecer a sua principal causa interna, uma persistente fragilidade competitiva que se confronta com poderosos concorrentes num espaço de moeda forte gerida por um Banco Central preocupado apenas com o nível de preços nos países mais ricos. Após uma década de moeda única, Portugal entrou em divergência relativamente aos seus parceiros, liquidou capacidade produtiva na agricultura, nas pescas e na indústria, e passou a ter um nível de desemprego muito elevado.

Os promotores da «Convergência e Alternativa» são europeístas e entendem que apenas a via federal pode tirar a União Europeia da crise em que se encontra. Infelizmente, nas últimas décadas a UE incorporou nos Tratados alguns princípios de inspiração neoliberal que enquadram a política económica dos Estados-Membros e da própria União. Esta orientação ideológica, conjugada com uma configuração institucional que não fez acompanhar a moeda única de um verdadeiro orçamento, e de um tesouro responsável pela dívida europeia,induziram uma fortíssima especulação nos mercados da dívida soberana dos Estados-membros com economias menos competitivas.

Por isso, entendemos que Portugal deve propor à Espanha, Grécia e Irlanda a criação de uma frente diplomática comum tendo em vista renegociar as respectivas dívidas e obter da UE derrogações ao Tratado que permitam a estes países adoptar políticas económicas favoráveis ao seu desenvolvimento, com destaque para uma forte política industrial e medidas de discriminação positiva para o sector exportador.

Caso não seja possível concretizar a cooperação entre os países da periferia da zona euro, ou no caso de rejeição das negociações por parte da UE, o País deve dizer à Comissão Europeia e ao Conselho Europeu que, para defender o interesse nacional, será obrigado a escolher uma via de ruptura com as normas de natureza neoliberal inscritas no Tratado da União. Nesse caso, o País teria de:
a) procurar apoios financeiros fora da UE; b) lançar uma política económica integrada tendo como objectivo alcançar o pleno emprego; c) suspender o pagamento da dívida pública e realizar uma auditoria no sentido de preparar decisões sobre a sua reestruturação.

A concretizar-se esta ruptura, Portugal estaria em melhores condições de voltar ao crescimento económico, o que permitiria reduzir mais facilmente o peso da dívida pública. Nessa hipótese, produzir-se-ia um grave conflito político com a UE. Embora desenvolvendo uma política económica autónoma, Portugal poderia manter-se na zona euro dado não existir no Tratado uma cláusula de expulsão. Um choque político desta magnitude mudaria a atitude dos restantes países da periferia da UE levando-os também a questionar uma arquitectura institucional que apenas admite políticas económicas neoliberais. Formular esta possibilidade
de ruptura é parte integrante da estratégia negocial que defendemos para que o País obtenha as derrogações de que precisa para se desenvolver.
      
      2. O problema da dívida
      
O problema da dívida em Portugal reside no facto de ela ser sobretudo externa e muito mais privada que pública. Há um défice permanente na balança de transacções correntes com o exterior que tem sido financiado através de entradas de capitais vindos dos países mais ricos da zona euro. Os bancos alemães, franceses, holandeses e outros converteram os excedentes dos seus países em aplicações financeiras que canalizaram para os nossos bancos a fim de estimularem Estado, famílias e empresas a viverem do crédito. A pressão dos bancos comerciais sobre o governo para este requerer o financiamento da UE/FMI compreende-se bem. Com o financiamento de Bruxelas, os bancos têm garantido o reembolso dos seus créditos ao Estado. Mais ainda, se a subida do crédito mal-parado vier a ameaçar a viabilidade de um ou mais bancos, eles sabem que terão um resgate assegurado à custa dos impostos dos cidadãos.

Assim, no caso de voltar a ser necessária a intervenção do Estado para salvar algum banco, os promotores da «Convergência e Alternativa» defendem o seguinte: imediata nacionalização do banco; garantia dos depósitos bancários até ao limite legalmente definido; conversão das obrigações e outros títulos de dívida do banco em acções do próprio banco; redimensionamento e reconversão do banco fazendo dele um instrumento de apoio às políticas de inovação empresarial e de apoio à exportação.

Quanto à dívida pública, o seu peso em percentagem do Produto, e a dinâmica insustentável que adquiriu nos últimos anos através dos défices primários, das exorbitantes taxas de juro em emissões de dívida nova, e da recessão ou estagnação da economia, obrigam-nos a dizer com clareza: o Estado português não tem condições para pagar toda a dívida registada nas contas do Eurostat, a que acrescem avultados compromissos vindouros decorrentes dos ruinosos contratos de Parcerias Público-Privadas.

No quadro de um processo negocial mais amplo para obter derrogações ao Tratado, Portugal deve abrir um processo de reestruturação da dívida pública. O primeiro passo será fazer uma auditoria para apurar os mecanismos que a originaram e quem são os seus detentores. Depois, deve abrir negociações com os credores externos tendo em vista substituir os actuais títulos de dívida por novos títulos com valor, prazo e juro mais favoráveis.

A orientação aqui defendida é a de uma negociação agressiva porque é a única que salvaguarda o interesse nacional e cria condições para o início de um processo de desenvolvimento do País. Os bancos espanhóis e os da Europa rica acabarão por aceitar negociar porque têm muito a perder se nos empurrarem para uma reestruturação unilateral. Ao contrário do que se diz na comunicação social, a ruptura com os mercados financeiros será breve se o País voltar ao crescimento económico. Os mercados financeiros têm memória curta pois estão sob a imperiosa necessidade de encontrar aplicações para os avultados recursos que gerem.

      
      3. Desemprego
      
Desde há muito tempo que Portugal mantém uma elevada taxa de desemprego, em grande parte de longa duração. Mas importa notar que há também milhares de desempregados, sem subsídio de desemprego ou outro apoio ao rendimento, que perderam motivação e não encontram fontes alternativas de subsistência. Estes são registados estatisticamente como inactivos, o que significa que, na realidade, o número de portugueses desempregados é muito superior ao revelado pela taxa de desemprego oficial.

O pleno emprego deve ser o objectivo central da política económica de um governo das esquerdas. No passado, para o alcançar o Estado adoptava uma política orçamental expansionista. O seu uso foi perdendo eficácia no que toca à criação de emprego e, por força da hegemonia do pensamento neoliberal, na UE a política orçamental está fortemente limitada pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento. Hoje, num contexto de forte especulação sobre a dívida pública, um aumento da despesa pública para relançar a economia e criar empregos enfrenta sérias limitações: as fugas do circuito económico através da aquisição de bens importados; expectativas pessimistas dos agentes económicos relativamente ao futuro levando-os a reter uma parte do rendimento em liquidez ou em activos reais; agravamento do défice público e sua repercussão na dinâmica da dívida.

Contudo, recorrendo a uma política de emprego de matriz Keynesiana, é possível contornar estas limitações através da criação directa de empregos públicos que satisfaçam necessidades sociais. Trata-se de lançar um programa de criação de empregos, dignos e socialmente úteis, através de uma agência pública que trabalhe em parceria com o sector empresarial, privado e público, e as organizações do sector social e solidário. Grande parte destes empregos extinguir-se-ão quando o sector privado recomeçar a criar empregos melhor remunerados.

O financiamento desta política de pleno emprego proviria da segurança social e de parte dos recursos habitualmente atribuídos ao investimento público. Dado que este tem um efeito incerto sobre o emprego, é preferível canalizar despesa pública para o financiamento de empregos socialmente úteis, a identificar com as autarquias, empresas locais e organizações sem fins lucrativos. Esta intervenção directa seria complementar de uma política de investimento público em projectos que garantidamente tenham um elevado conteúdo em
emprego, aumentem a eficiência energética do País, e promovam a competitividade da indústria.

Com esta estratégia de promoção do pleno emprego o País pode adiar, e reavaliar com o maior cuidado, os grandes projectos de investimento público em infraestruturas dado que são financeiramente onerosos, têm elevado conteúdo em importações, e o emprego que criam é sobretudo temporário.
      
      4. Desigualdade e pobreza
      
Antes da crise, Portugal já era um dos países da UE com maior desigualdade na distribuição do rendimento e com uma elevada taxa de pobreza. As políticas de austeridade inevitavelmente agravam esta situação de partida. O número de pobres, empregados ou desempregados, aumentará nos próximos anos. A despesa pública de natureza social será vítima da vaga de austeridade que se avizinha. O País será confrontado com políticas económica e socialmente devastadoras que, paradoxalmente, não travarão o aumento do endividamento público.

Antes de mais, queremos assumir com clareza que as prestações sociais concedidas aos cidadãos não devem ser entendidas como uma esmola do Estado que é dada quando a família mais próxima não tem recursos. Segundo a Constituição da República Portuguesa, os cidadãos têm direitos sociais e, pelo menos desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, os direitos sociais são, tal como os direitos civis e políticos, direitos humanos fundamentais.

Em Portugal, as esquerdas estão convocadas a reduzir substancialmente a desigualdade na repartição do rendimento e a percentagem da população que é pobre. Num contexto de escassez de recursos, entendemos como tarefa prioritária realizar uma reforma fiscal que introduza elevada progressividade na tributação do rendimento e da riqueza – a quem mais tem aplicam-se taxas mais elevadas. Nesta reforma inclui-se um imposto especial sobre transacções financeiras e a normalização da tributação sobre os lucros dos bancos. Sabendo-se que a gestão focada no lucro de curto prazo prejudica a competitividade das empresas, propõe-se uma tributação fortemente progressiva das remunerações variáveis dos seus administradores. Tendo em conta que é preciso aumentar a eficiência fiscal, defende-se também uma alteração legislativa que permita o acesso ágil e transparente a contas bancárias sob investigação. Por outro lado, sendo necessário reduzir rapidamente a dívida pública, defendemos a proposta avançada por Miguel Cadilhe (Público, 16-04-2011) de um imposto sobre a riqueza, “uma colecta única, instantânea, toda ela consignada ao pagamento extraordinário de dívida pública.”

Também não esquecemos que a redução da desigualdade na distribuição do rendimento não se faz apenas através das prestações sociais. Ela tem de ser promovida desde logo na distribuição primária do rendimento nas empresas e outras organizações. Por isso, defendemos a alteração do Código de Trabalho para instaurar como regra a contratação colectiva de salários e condições de trabalho e para proteger a actividade sindical.
      
      E agora?
      
Os signatários do presente documento lamentam que o PCP e o BE não tenham ousado avançar para as próximas eleições com uma grande coligação das esquerdas através da mobilização de activistas dos movimentos sociais e de personalidades diversas representativas de sectores progressistas da sociedade portuguesa. Esta falta de visão política é, do nosso ponto de vista, causadora de grande desânimo no eleitorado, e não apenas no que tradicionalmente vota à esquerda.

Entendemos também que não basta denunciar a submissão da actual direcção do PS às políticas de austeridade exigidas pelos mercados financeiros e pela UE. Sobretudo, é preciso que as restantes esquerdas aceitem iniciar um processo de convergência tendo em vista produzir uma alternativa política suficientemente credível para que, no futuro e sob pressão do eleitorado, o PS reconheça que tem um interlocutor com quem pode fazer um acordo político para tirar o País da crise.

Neste sentido, submetemos à consideração do PCP, do BE, e do PS, dos respectivos responsáveis mas também dos seus eleitores, as propostas acima enunciadas. Gostaríamos que elas fossem recebidas como sinal de uma genuína vontade de promover um diálogo franco e respeitador das diferenças entre as várias esquerdas. Com um único objectivo: através do diálogo e do debate alcançar uma convergência política que possa oferecer aos Portugueses uma forte alternativa de esquerda. Uma alternativa que mobilize as capacidades dos Portugueses e que lhes devolva a esperança de poder viver numa sociedade mais digna e mais justa. Da nossa parte, assumimos o compromisso de um empenhamento sem reservas para que esse objectivo seja alcançado.

Manifesto «Convergência e Alternativa»


JOSÉ COMBLIN - «O QUE DIZ O EVANGELHO?»

«É preciso sonhar»








"Boa tarde a todas e todos.


Não é a primeira vez que falo neste lugar, mas agradeço muito a amizade de Jon Sobrino. Nós nos conhecemos há muito tempo e eu o estimo como uma das cabeças mais lúcidas deste tempo que renovou completamente a Cristologia.


Bom... As perguntas de ontem me deram a impressão de que em muitas pessoas há certo desconcerto em relação à situação atual da Igreja. Ou seja, uma sensação de insegurança. Como dizia Santa Teresa, por "não saber nada a respeito, que nada provoque temor". Quando era jovem eu conheci algo semelhante e, talvez, pior. Era o pontificado de Pio XII. Ele havia condenado todos os teólogos importantes, havia condenado todos os movimentos sociais importantes, por exemplo, a experiência dos padres operários na França, Bélgica e outros países. Aí nós, jovens seminaristas e depois jovens sacerdotes, estávamos mais que desconcertados, perguntando-nos: mas, ainda há futuro? Eu me lembro que naquela época tinha lido uma biografia de um autor austríaco do papa Pio XII. E aí contava algumas palavras que havia escrito o Pe. Liber, jesuíta, professor de História da Igreja na Gregoriana. O Pe. Liber era confessor do Papa. Sabia tudo o que passava na cabeça de Pio XII e então dizia: "Hoje a situação da Igreja católica é igual a um castelo medieval, cercado de água, levantaram a ponte e jogaram as chaves na água. Já não há como sair (risos). Ou seja, a Igreja está cortada do mundo, não tem mais nenhuma possibilidade de entrar". Isso foi dito pelo confessor do Papa, que tinha motivos para saber essas coisas. Depois disso veio João XXIII e aí, todos os que haviam sido perseguidos, de repente são as luzes no Concílio e de repente todas as proibições são levantadas. Aí renasceu a esperança. Digo isto para que não se perturbem. Algo virá. Algo virá que não se sabe o que, mas algo sempre acontece.


Como explicar essas situações que ainda podem recomeçar? Porque estamos nos aproximando da fase final da cristandade. Já faz muitos séculos que anunciaram a morte da cristandade... que está agonizando já faz cerca de 200 anos, mas ainda pode continuar sua agonia durante algumas décadas ou alguns anos. Ou seja, deixou de ser a consciência do mundo ocidental. Deixou de ser a força que anima, estimula, esclarece, explica a fonte da cultura, da economia, de tudo o que foi durante o tempo da cristandade. Tudo isso foi sendo destruído progressivamente desde a Revolução Francesa e aqui desde a independência, desde a separação do império espanhol. Então, pouco a pouco, apareceram muitos profetas que disseram que a cristandade morreu... já faz 200 anos. Mas agora creio que a cristandade está entrando em suas fases finais. Querem um sinal? A Encíclica Caritas in Veritate. Não sei quantas pessoas aqui leram a Encíclica. Se se vê a repercussão que teve no mundo: impressionante silêncio... Talvez silêncio respeitoso, mas mais provavelmente silêncio de indiferença. A doutrina social da Igreja não importa mais a ninguém, que também deixou de se interessar pelo que acontece na realidade concreta.


Há alguns anos, um sociólogo jesuíta muito importante, o Pe. Calvez, que teve um papel importantíssimo na criação e manutenção da Doutrina Social da Igreja, publicou um livro intitulado: "Os silêncios da Doutrina Social da Igreja". Ainda está em silêncio. Deixa de entrar com força nos problemas do mundo atual. Fica com teorias tão vagas, tão abstratas, tão genéricas... A carta Caritas in Veritate poderia ser assinada pelo Fundo Monetário Internacional (risos), pelo Banco Mundial... sem nenhum problema. Não há absolutamente nada que incomode esse pessoal. Então, para quê? Esse é o sinal.


Querem outro sinal? A «Conferência de Aparecida» disse muitíssimas coisas boas. Quer transformar a Igreja em uma missão, passar de uma Igreja de "conservação" a uma Igreja de "missão". Só que pensa que isso será feito pelas mesmas instituições que não são de missão, mas de conservação. Isso será feito pelas dioceses, pela paróquia, pelos seminários, pelas Congregações Religiosas. Estes aqui, de repente e por milagre, vão se transformar em missionários. Já se passaram três anos e o que aconteceu em sua diocese? Como se aplicou a opção pelos pobres? Não sei como é aqui, mas no Brasil não vejo muita transformação. Ou seja, a cristandade está se dissolvendo progressivamente, mas o problema é o depois. O que vem depois? Como? Daí a insegurança porque não sabemos o que vem depois. Isto aconteceu muitas vezes na história e ainda vai acontecer provavelmente muitas vezes. É preciso aprender a resistir, a suportar, a não se deixar desanimar ou perder a esperança pelo que vem acontecendo.


O que acontece é que em Roma não estão convencidos de que a cristandade está morta. Acreditam que as Encíclicas iluminam o mundo, que as instituições eclesiásticas iluminam e conduzem o mundo. Ou seja, é um mundo fechado, que de fato vive em um castelo medieval, cercado de água. E então, o que acontece? Vamos ver como interpretar, como ver o que está acontecendo. E então ver qual é o "método teológico" que convém para isso.


O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo


1.É preciso partir de uma distinção básica que agora vários teólogos já propuseram entre o Evangelho e a religião. O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou nenhuma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Nada disso. Ele se dedicou a anunciar, a promover o Reino de Deus. Ou seja, uma mudança radical de toda a humanidade em todos os seus aspectos. Uma mudança, e uma mudança cujos autores serão os pobres. Dirige-se aos pobres pensando que somente eles são capazes de agir com essa sinceridade, com essa autenticidade para promover um mundo novo. Seria essa uma mensagem política? Não é política no sentido de que propõe um plano, uma maneira... não, para isso a inteligência humana é suficiente; mas como meta política, porque isto é uma orientação dada a toda a humanidade.


E a religião? Aah! Jesus não fundou uma religião, mas seus discípulos criaram uma religião a partir dEle. Por quê? Porque a religião é algo indispensável aos seres humanos. Não se pode viver sem religião. Se a religião atual aqui se desintegra... Há 38.000 religiões registradas nos Estados Unidos! Ou seja, não faltam religiões, elas aparecem constantemente. O ser humano não pode viver sem religião, mesmo que se afaste das grandes religiões tradicionais. Então, a religião é uma criação humana. Entre a religião cristã e as demais religiões, a estrutura é igual. É uma mitologia. Assim como há uma mitologia cristã, há uma mitologia hinduísta, xintoísta, confucionista. Isso é parte indispensável para a humanidade. Ou seja, como interpretar todo o incompreensível da humanidade pela intervenção de seres com entidades sobrenaturais, fora deste mundo, que estão dirigindo esta realidade.


2.Em segundo lugar, uma religião é feita de ritos. Ritos para afastar as ameaças e para acercar-se dos benefícios. Todas as religiões têm ritos. E todas têm pessoas separadas, preparadas, para administrar os ritos, para ensinar a mitologia. Isto é comum a todas. Então, isto devia acontecer com os cristãos também. Devia acontecer. Como poderiam viver sem religião?


3.Como começou essa religião? Deve ter começado quando Jesus se transformou em objeto de culto. O que aconteceu bastante cedo, sobretudo entre os discípulos que não o conheceram, que não haviam vivido com ele, que não haviam estado próximos dele. Então, a geração seguinte ou aqueles que viviam mais distantes, mais afastados, para eles Jesus se transformou em objeto de culto. Com isso se desumanizou progressivamente. O culto de Jesus vai substituindo o seguimento de Jesus. Jesus nunca havia pedido aos discípulos um ato de culto. Nunca havia pedido que lhe oferecessem um rito... nunca. Mas queria o seguimento, seu seguimento. Essa dualidade começa a aparecer cedo. 30 anos, 40 anos depois da morte de Jesus, já aparece com força suficiente para que Marcos escrevesse em seu Evangelho precisamente para protestar contra essas tendências de desumanização, ou seja, de fazer de Jesus um objeto de culto. Este Evangelho é precisamente para recordar uma palavra de profeta: ‘Não! Jesus era isso. Jesus fez isso, viveu aqui neste mundo! Viveu aqui nesta terra’. [atender à oralidade do texto…]


4.Com o desenvolvimento da religião cristã que se fez – !aqui surge um problema para os teólogos! -, progressivamente essa tentação reapareceu. Nasceu um começo de doutrina, o Símbolo dos Apóstolos. E o que diz o Símbolo dos Apóstolos sobre Jesus? Aah... diz que nasceu e morreu. Nada mais. Como se as outras coisas não tivessem importância, como se a revelação de Deus não fosse justamente a própria vida de Jesus, seus atos, seus projetos, todo o seu destino terrestre. Essa é a revelação, mas isso já vai se perdendo de vista. Os Símbolos de Niceia e Constantinopla, da mesma maneira: Cristo nasceu e morreu. O Concílio de Calcedônia define que Jesus tem uma natureza divina e uma natureza humana. Mas, o que é uma natureza? Um ser humano não é uma natureza. Um ser humano é uma vida, é um projeto, é um desafio, é uma luta, é uma convivência em meio a muitos outros. Isso é o fundamental se queremos fazer o seguimento de Jesus.


A religião: distinção entre o sagrado e o profano


Progressivamente, aparece a partir dos primeiros Concílios um distanciamento entre a religião que se forma. Com Niceia e Constantinopla já há um núcleo de ensinamento e de teologia e a Igreja vai se dedicar a defender, promover, aumentar essa teologia. Já se organizaram as grandes liturgias de Basílio e outros, e já se organizou um clero. O clero como classe separada é uma invenção de Constantino. Até Constantino não havia distinção entre pessoas sagradas e pessoas profanas. Eram todos leigos. Porque Jesus apartou a classe sacerdotal e não tinha previsto nenhuma maneira que aparecesse outra classe sacerdotal, porque todos são iguais. E não há pessoas sagradas e pessoas não sagradas, porque para Jesus não há diferença entre sagrado e profano. Tudo é sagrado ou tudo é profano.


Agora, na religião há uma distinção básica entre sagrado e profano. Em todas as religiões. E há um clero que se dedica ao que é sagrado. E os outros que estão no profano, na religião são receptores, não são atores. Não têm nenhum papel ativo. Para ter um papel ativo é preciso ser realmente consagrado. Isso começa no tempo de Constantino.


E a partir daquilo vão aparecer duas linhas na história cristã. Os que, como o Evangelho de Marcos quer recordar: ‘Não, Jesus veio para mostrar o caminho, para que o sigamos’. Isso é o básico, o fundamental. Uma linha que vai renovar, aplicar em diversas épocas históricas o que foi a vida de Jesus e como ele o ensinou. E em toda a história podemos seguir. Claro que não sabemos tudo, porque a grande maioria dos que seguiram o caminho de Jesus foram pobres, dos quais nunca se falou nos livros de história e, portanto, não deixaram nenhum documento. Mas há pessoas que deixaram documentos e com isso podemos acompanhar onde, na história da Igreja cristã, aparece o Evangelho, onde se buscou primeiramente a vivência do Evangelho. Os que buscaram radicalmente o caminho do Evangelho foram sempre minorias, como dizia Helder Câmara, "minorias abraâmicas".


A maioria está no outro pólo, na religião. Ou seja, dedicando-se à doutrina. Ensinando a doutrina, defendendo a doutrina contra os hereges e as heresias... Essa foi uma das grandes tarefas, praticar os ritos e formar a classe sagrada, a classe sacerdotal. Isso nos leva a uma distinção que vai se manifestar em toda a história. O pólo "Evangelho" está em luta com o pólo "religião" e "religião" com o pólo "Evangelho". Em toda a história. Toda a história cristã é uma contradição permanente e constante entre aqueles que se dedicam à religião e aqueles que se dedicam ao Evangelho. Claro que há intermediários e assim não há pólos totais. Mas na história há visivelmente duas histórias, dois grupos que se manifestam. A história oficial: quando eu era jovem davam-nos aulas de História da Igreja que era "história da instituição eclesiástica" e ali só se falava da religião, supondo que a religião era a introdução ao Evangelho. Mas isso é uma suposição: que tudo o que nasceu no sistema católico vem de Jesus, como se dizia na teologia tradicional em tempos da cristandade, que tudo o que existe na Igreja Católica Romana, ao final, vem de Jesus. Com muitos malabarismos teológicos se consegue mostrar que tudo tem finalmente sua raiz em Jesus. Não têm sua raiz em outras religiões, em outras culturas. Como se os cristãos que se convertem à Igreja fossem totalmente puros de toda cultura e toda religião. Todos trazem sua cultura e sua religião, e introduzem em sua vida cristã elementos que são de sua religião e cultura anterior e por isso resulta uma religião que é sempre ambígua, complexa. É inevitável, porque os seres humanos que entram na Igreja não são anjos. Eles estão carregados de séculos e séculos de história e de transmissão cultural e tudo isso entra, naturalmente, na Igreja. Daí uma oposição que em matéria política, por exemplo, se mostra claramente. Se diz: o Evangelho procede de Deus e, portanto, não pode mudar. A religião é criação humana, portanto, pode e deve mudar segundo a evolução da cultura, das condições de vida dos povos em geral. Se a religião fica apegada ao seu passado, ela é pouco a pouco abandonada a favor de outra religião mais adaptada. O que é muito compreensível.


O Evangelho é vivido na vida concreta, material, social. A religião vive em um mundo simbólico. Tudo é simbólico - doutrina, ritos, sacerdotes... -, todos são entidades simbólicas, que não entram na realidade material. O Evangelho é universal, porque não traz nenhuma cultura e não está associado a nenhuma cultura, a nenhuma religião. As religiões estão sempre associadas a uma cultura. Por exemplo, a religião católica atual está ligada à subcultura clerical romana que a modernidade marginalizou, que está em plena decadência porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. O Evangelho é renúncia ao poder e a todos os poderes que existem na sociedade. A religião busca o poder e o apoio do poder em todas as formas de poder. E são tão visíveis!


O poder... Lembro que, na época da prisão dos bispos em Riobamba, o núncio dizia: "se a Igreja não tem o apoio dos governantes, não pode evangelizar" (risos). Pode-se pensar o contrário: que caso se tenha o apoio dos poderes será difícil evangelizar. Mas essa é uma mentalidade que ainda é remanescente na cristandade entre a Igreja fundida em uma realidade político-religiosa e então naturalmente estavam unidas todas as autoridades: o clero e o governo; o clero e o Exército - tudo unido. Renunciar a isso é muito difícil. Renunciar à associação com o poder é muito difícil. Vou dar um exemplo. Meu atual bispo na Bahia é um franciscano, se chama Luis Flavio Cappio. Ficou famoso no Brasil por duas greves de fome que fez para protestar contra um projeto faraônico do governo, baseado em uma imensa mentira. Não há tempo para contar toda a história, mas se tornou conhecido e foi convidado para o Kirchentag da Igreja alemã. Depois do convite falou em várias cidades da Alemanha. Um grupo se aproximou dizendo que vinham para entregar-lhe uma doação, uma ajuda para as suas obras. E era bastante: cerca de 100 mil dólares. Ele perguntou: "De onde vem esse dinheiro?" Disseram-lhe que são algumas empresas, alguns executivos que o recolheram. Então disse: "Não aceito. Não quero aceitar o dinheiro que foi roubado dos trabalhadores, dos compradores de material". Não aceitou nenhuma aliança com o poder econômico. Eu não sei quantos no clero não aceitariam (aplausos). Esse bispo é um franciscano igual a São Francisco. Toda a sua vida foi assim. Por isso fui morar ali para santificar-me um pouquinho em contato com uma pessoa tão evangélica...


Então, como nasceu a Igreja?, a Igreja de que se fala, essa realidade histórica, concreta de que temos experiência. Para o povo em geral a Igreja é o Papa, os bispos, os padres, as religiosas, religiosos... esse conjunto institucional de que se fala e que provoca também tanta incerteza, como vimos. Como nasceu a Igreja? Jesus não fundou nenhuma igreja. O próprio Jesus se considerava um judeu. Era o povo de Israel renovado e os primeiros discípulos também. Os doze apóstolos são os patriarcas da Igreja do Israel renovado. A primeira consciência era da continuação de Israel, a perfeição, a correção de Israel. Mas uma vez que o Evangelho penetrou no mundo grego, aí Israel não significava muitas coisas para eles e então Paulo inventa outro nome. Dá às comunidades que funda nas cidades o nome de "ekklesia", o que se traduziu por "igreja". O que é a ekklesia? O único sentido que tem no grego é "a assembleia do povo reunido que governa a cidade". Na prática eram as pessoas mais poderosas, mas enfim é que na cidade grega o povo se governa a si mesmo e o faz em reuniões que são "ecclesias". Paulo não dá nenhum nome religioso às comunidades; os vê como um grupo destinado a ser a animação. A mensagem de transformação de todas as cidades, de tal maneira que estão constituindo o começo de uma humanidade nova. E é uma humanidade onde todos são iguais, todos governam a todos. Depois vem a Carta aos Efésios em que se fala da Igreja como tradução de "kahal" dos judeus, ou seja, é o novo Israel. E a ecclesia é aí também o novo Israel. Ou seja, todos os discípulos de Jesus unidos em muitas comunidades, mas não unidos institucionalmente, mas unidos pela mesma fé. Todos constituem a "ecclesia", a grande Igreja que é o corpo de Cristo. Ainda não existem instituições.


Mas, naturalmente, não podia continuar assim. Os judeus que aceitaram o cristianismo não abandonaram todos o judaísmo. E, quando o número de cristãos cresceu, quando o número de comunidades cresceu, ali começaram a penetrar algumas estruturas. No tempo de Paulo ainda não há presbíteros, mesmo que São Lucas diga o contrário. Mas São Lucas não tem nenhum valor histórico; isso todo o mundo já sabe. Atribui a Paulo o que se fazia em seu tempo. Então imagina que Paulo fundou presbíteros, conselhos presbiterais. Como se justificaria um bispo sem ordenar sacerdotes? Então, parece evidente um começo de separação ainda muito simples, porque ainda não há sacralidade, não há nada sagrado. Os presbíteros não são sagrados, assim como os presbíteros das sinagogas não eram sagrados. Eles tinham uma função, uma missão de governo, de administração, mas não uma função ritual, ou uma função de ensino de uma doutrina.



Depois apareceram os bispos. No final do século II se estima que o esquema episcopal esteja generalizado, mas demorou bastante. Clemente de Roma, quando publica e escreve sua Carta aos Coríntios, diz "presbíteros", o que não é bispo. Ainda em Roma não há bispo, só presbíteros. Mas se organizou o esquema episcopal. É provável que para as lutas contra as heresias, contra o gnosticismo, se necessitasse de uma autoridade mais forte, para poder enfrentar o gnosticismo e todas as novas religiões sincréticas que aparecem naquele tempo.


E a Igreja como instituição universal, quando aparece? Houve, no século III, Concílios regionais: bispos de várias cidades que se reuniam. Mas uma entidade para institucionalizar tudo não existia. Quem inventou esta Igreja universal foi o imperador Constantino. Ele reuniu todos os bispos que havia no mundo com viagens pagas por ele, alimentação também paga por ele, e toda a organização do Concílio foi dirigida pelo imperador e os delegados do imperador. Isto constitui um precedente histórico. Até hoje não estamos livres disso: que a Igreja universal, como instituição, tenha nascido com o imperador.


Depois, na história ocidental, caiu o imperador romano e então progressivamente o papa conseguiu chegar à função imperial. Houve muitas lutas na Idade Média entre o papa e o imperador, mas sempre o papa se estimava superior ao imperador. Nas cruzadas, o papa era 'generalíssimo' de todos os exércitos cristãos. Era uma personalidade militar - 'comandante em chefe' do exército cristão. E dentro da linha dos Estados pontifícios, isto ainda se mantém.


Quando o papa perdeu o poder temporal, reforçou seu poder sobre as Igrejas: e governa as igrejas como um imperador, ou seja, todos os poderes são centralizados em uma única mão e com todas as vantagens de uma corte. Por que se não há nada de democracia na Igreja, quem são aqueles que orientam o papa? A corte! Os cortesãos, os que estão ali próximos. Claro que ele não pode fazer tudo, mas enfim uma corte separada do povo cristão. Ainda estamos sofrendo as consequências daquilo. O Papa Paulo VI disse em alguns momentos que realmente teria que mudar a função atual do Papa, ou seja, o que o Papa faz. João Paulo II na "Unum sint" disse também que é preciso dar-se conta de que o grande obstáculo no mundo de hoje é essa concentração de todos os poderes no Papa. Seria preciso encontrar outra maneira de exercer isso. Isto para dizer que tudo isto pertence à religião.


Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião


A partir disso, qual é a tarefa da teologia? É complexa, justamente porque tem uma tarefa no Evangelho e uma tarefa na religião. A teologia foi durante séculos a ideologia oficial da Igreja. Seu papel era justificar tudo o que a Igreja diz e faz com argumentos bíblicos, com argumentos da tradição, liturgia, e um monte de coisas que eu aprendi quando estava no seminário. Claro que não acreditava nisso (risos), mas a maioria ainda crê nisso. Então, o que acontece?


Primeira tarefa: o que diz o Evangelho?


1.Primeira tarefa: o que diz o Evangelho? O que é de Jesus? O que é penetração do judaísmo, de outra cultura, de outro tipo de religião? O que vem de Jesus segundo o Novo Testamento? Todo o Novo Testamento não vem de Jesus? Não, as Epístolas pastorais que falam, por exemplo, dos presbíteros, isso não vem de Jesus. Então, a tarefa da teologia consistirá em dizer o que é de Jesus, o que realmente Ele quis, o que realmente Ele fez e em que consiste realmente o seguimento de Jesus.


Vendo a história, vendo quais foram as manifestações históricas em modos diversos - porque as situações culturais eram diferentes -, onde podemos reconhecer a continuidade dessa linha Evangélica? Porque se quisermos penetrar no mundo de hoje e apresentar o cristianismo ao mundo de hoje, tudo o que é religioso não interessa. O que pode interessar é justamente o Evangelho e o testemunho evangélico. Ninguém vai se converter pela teologia. Você pode dar as melhores aulas, mas ninguém se vai  fazer cristão por causa da teologia. Por isso, me pergunto: por que nos seminários se crê que a formação sacerdotal é ensinar a teologia? Eu não entendo, não entendo. Não há outra coisa necessária para evangelizar? Evangelizar não é muito mais complexo? Por isso faz 30 anos que decidi, na presença de Deus, nunca mais trabalhar em seminários (risos).


Então, a linha evangélica é esta - São Francisco. São Francisco era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros: nada de livros. Com o Evangelho basta, não se necessita nada mais. Ele próprio dizia: "Eu, o que ensino, não aprendi de ninguém, nem do papa; o aprendi de Jesus diretamente, por seu Evangelho". Bom, isso é o que pode convencer o mundo de hoje que está em uma perturbação completa e que se afasta sempre mais das Igrejas institucionais antigas, tradicionais. Quase todas as grandes religiões nasceram entre os anos 1.000 e 500 antes de Cristo, salvo o Islã que apareceu depois, mas que é um ramo da tradição judeu-cristã.


O que fazer com a religião?


2.Segundo, a religião. O que fazer com a religião? É preciso examinar em todo o sistema de religião, o que ajuda, o que realmente ajuda a entender, a compreender, a agir segundo o Evangelho. Isso terá nascido por inspiração do Espírito em monges, por exemplo? Se você olha a vida dos monges do deserto no Egito, isso não é uma mensagem. Não é uma mensagem e também não vem do Evangelho. Ou seja, muitas coisas vêm não se sabe de que tradição, talvez pode ter sido do budismo ou outras coisas assim. Então, examinar o que é o que ainda vale hoje, e com sinceridade.


Jesus não instituiu 7 sacramentos. Até o século XII se discutia se eram 10, 7, 5, 9, 4. Não havia acordo. Finalmente, decidiram que havia 7. Bom, por motivos dos 7 dias do Gênesis, 7 planetas, o número 7... mas há coisas que visivelmente já não falam para as pessoas de hoje. Por exemplo, o sacramento da penitência com confissão a um sacerdote. Quantos se confessam atualmente? Há 20 anos, eu atendia na Semana Santa, em uma paróquia popular, 2.000 confissões, e o pároco outras tantas. Atualmente, 20, 30, ou seja, as pessoas já não respondem mais. Isso foi definido no século XII, XIII. Para quê manter algo que já não tem nenhum significado e, ao contrário, provoca muita recusa? Ou seja, que alguém necessite falar com alguém, que o pecador goste de falar com alguém, mas não justamente ao sacerdote... Há muitas pessoas, muitas mulheres, que podem exercer esse ofício muito melhor, com mais equilíbrio, sem atemorizar como fazem os sacerdotes. Isso é uma coisa.


Mas há um monte de coisas que é necessário revisar porque não têm futuro. É inútil querer defender ou manter algo que já é obstáculo para a evangelização e que não ajuda absolutamente em nada. Nas liturgias há muitas coisas que mudar. A teoria do sacrifício foi introduzida pelos judeus, naturalmente. No templo se oferece sacrifícios, os sacerdotes são pessoas sagradas que oferecem o sacrifício. Toda essa teoria, atualmente não significa absolutamente nada. Que o padre seja dedicado ao sagrado para oferecer o sacrifício e que a Eucaristia seja um sacrifício, tudo isto vem de Jesus? Ah, não vem de Jesus. Então, é preciso ver se isso vale ou não vale. Para que manter algo que não vale?


E depois há também a outra parte: o que não ajuda, o que tem sido infiltração de outras tendências, outras correntes. Por exemplo, a vida ascética dos monges irlandeses. A Irlanda foi a ilha dos monges. Ali os bispos não tinham autoridade. Serviam apenas para ordenar sacerdotes, mas para as outras coisas podiam descansar. Quem mandava eram os monges. Os mosteiros eram os centros, o que é a diocese atualmente. Esses monges irlandeses viviam uma vida ascética, mas tão extraordinariamente desumana para nós que isso é impossível que venha de Jesus, é impossível que isso ajude, porque esses homens ali eram super-homens, mas não existem mais homens assim, hoje. Um exercício de penitência que faziam, por exemplo, era entrar no rio - na Irlanda os rios são frios - e ficar nu para rezar todos os salmos (risos)... Essa maneira de entender a vida, não!, não devemos considerar que isso seja cristão. Também não é marca de santidade. Não é assim que a santidade se manifesta. Examinar tudo o que vem de lá.

Todas as congregações femininas sabem o quanto é preciso lutar para mudar costumes, tradições que não são evangélicos. Quantos debates! Eu conheço uma série de congregações femininas e quanto tempo se gasta em discussões, disputas entre aquelas que querem conservar tudo e aquelas que querem abandonar o que não serve mais e encontrar outro modo de viver mais adaptado à situação atual! Então, a tarefa da teologia, claro que é mudar, isso muda a tradição, deixa de ser a ideologia de todo o sistema romano, mas essa não tem futuro. Esse tipo de teologia já faz tempo que foi progressivamente abandonado.


Na América Latina apareceu algo. Conhecemos um novo franciscanismo, ou seja, uma nova etapa, mas radical, de vida evangélica. Quando nasceu? Falei dos bispos que participaram disso e que animaram Medellín e da opção pelos pobres, dos santos padres da América Latina. E vocês os conhecem. Se for preciso marcar a origem do novo evangelismo da Igreja latino-americana, eu diria - não se esqueçam - dia 16 de novembro de 1965. Nesse dia, em uma catacumba de Roma, 40 bispos, a maioria latino-americanos, incitados por Helder Câmara, se juntaram e assinaram o que se chamou de "Pacto das Catacumbas". Ali se comprometeram a viver pobres, na alimentação. Se comprometeram e, de fato o fizeram depois, uma vez que chegaram às suas dioceses. E depois, priorizar em todas as suas atividades o que é dos pobres, ou seja, deixando muitas coisas para se dedicar prioritariamente aos pobres e uma série de coisas que vão no mesmo sentido. Foram eles que animaram a Conferência de Medellín. Ou seja, nasceu aqui.


E tiveram um contexto favorável. O Espírito Santo já naquele tempo havia suscitado uma série de pessoas evangélicas. As Comunidades Eclesiais de Base já tinham nascido. Já havia religiosas inseridas nas comunidades populares. Mas, eram poucos e se sentiam um pouco marginalizados no meio dos outros. Medellín lhes deu como que legitimidade e ao mesmo tempo uma animação muito grande, e se expandiu. Foi toda a Igreja latino-americana? Claro que não. Sempre é uma minoria. Um dia, me lembro, um jornalista perguntou ao cardeal Arns - um santo, com quem vivemos muito boas relações de amizade: "você, senhor cardeal, aqui em São Paulo tem muita sorte, toda a Igreja se fez Igreja dos pobres, as monjas todas a serviço dos pobres, que coisa magnífica!". Aí, Dom Paulo disse: "Sim, pois, aqui em São Paulo 20% das religiosas foram às comunidades pobres; 80% ficaram com os ricos". Era muito. Atualmente, não há 20%.


Isto foi uma época de criação, uma dessas épocas em que há, às vezes, na história com uma efusão muito grande do Espírito. Mas temos que viver essa herança. É uma herança que é preciso manter, conservar preciosamente porque isso não vai reaparecer. Às vezes me perguntam: Por que hoje os bispos não são como naquele tempo? Porque aquele tempo foi uma exceção, ou seja, na história da Igreja é exceção. De vez em quando o Espírito Santo manda exceções.


E quem vai evangelizar o mundo de hoje? Para mim, são os leigos. E já aparecem muitos grupinhos de jovens que justamente praticam uma vida muito mais pobre, livre de toda organização exterior, vivendo em contato permanente com o mundo dos pobres. Já existem. Haveria mais se se falasse mais, se fossem mais conhecidos. Pode ser uma tarefa também auxiliar da teologia: divulgar o que está realmente acontecendo, onde o Evangelho está sendo vivido neste momento, para dá-lo a conhecer, para que se conheçam mutuamente, porque do contrário podem perder ânimo ou não ter muitas perspectivas. Uma vez que se unam, formem associações, cada qual com sua tendência, seu modo de espiritualidade. Não espero muito do clero. Então é uma situação histórica nova.


Mas acontece que os leigos deixaram de ser analfabetos; isso já faz tempo. Eles têm uma formação humana, uma formação cultural, uma formação de sua personalidade que é muito superior ao que se ensina nos seminários. Ou seja, têm mais preparação para agir no mundo, mesmo que não tenham muita teologia. Se poderia dar mais teologia, mas isso é outro assunto. Agora, não vamos pensar que amanhã quem vai colocar em prática o programa de Aparecida serão os sacerdotes. Eu não conheço tudo, mas levando em conta os seminários que eu conheço, as dioceses que eu conheço, seriam necessários 30 anos para formar um clero novo. E quem vai formá-lo? Para os leigos é diferente. Há muitíssimas pessoas dispostas, e pessoas com formação humana, com capacidade de pensar, de refletir, de entrar em relação e contatos, de dirigir grupos, comunidades... Mas muitos ainda não se atrevem, não se atrevem. Mas aí está o futuro.



Para terminar, uma anedota: me chamaram para ir a Fortaleza, no nordeste do Brasil. Atualmente, Fortaleza é uma cidade muito grande - um milhão de habitantes (sic!). A Santa Sé havia afastado, marginalizado o cardeal Aloísio Lorscheider, mandando-o ao exílio em Aparecida, que é um lugar de castigo para os bispos que não agradam. Então, veio um sucessor, Dom Cláudio Hummes, que agora é cardeal em Roma. Cláudio Hummes suprimiu tudo o que havia de social na diocese, despediu todos: 300 pessoas com a longa trajetória de serviço, com capacidade humana. Um dia me chamaram: eram 300, chorando, lamentando: "e agora não podemos fazer nada. E agora, o que vai acontecer?". Eu lhes disse: "mas, vocês são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas, com uma personalidade forte. Tiveram êxito em sua família, tiveram êxito em suas carreiras, em seus trabalhos profissionais. Do que agora se preocupam se o bispo quer ou não quer? Por que se preocupam se o pároco quer ou não quer? Vocês têm formação suficiente e a capacidade. Por que não agem, não formam uma associação, um grupo, de forma independente? Porque o Direito Canônico - o que muitos católicos não sabem - permite a formação de associações independentes do bispo, independentes do pároco. Isso não se ensina muito nas paróquias, mas é justamente algo que é importante. Então, vocês podem muito bem reunir 4, 5 pessoas para organizar um sistema de comunicação, um sistema de espiritualidade, um sistema de organização de presença na vida pública, na vida política, na vida social: 300 pessoas com esse valor. Se paga, tem que pagar a 5, cada um vai gastar nem sequer 2% do que ganha, ou seja, podem muito bem manter 5 pessoas dedicadas a isso. E vão escolhê-los entre 25 e 30 anos porque essa é a época criativa. Até os 25 o ser humano se busca. A partir deste momento termina seus estudos e já conseguiu um trabalho. Então já quer definir sua vida: estes são os que têm capacidade de inventar. Todas as grandes invenções se deram por gente com essa idade". Mas não o fizeram. Por quê? O que acontece? Por que tanta timidez? "Vocês que são tão capazes no mundo, na Igreja nada!" Não se sentiam capazes, necessitavam do bispo que lhes dissesse o que fazer, necessitam de sacerdotes que lhes digam o que fazer. Como é possível? Certamente, não se lhes ensinou. Podem ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa.


Mas nós podemos! Nós podemos fazê-lo e multiplicá-lo em todas as regiões que vamos conhecer. Então, o futuro depende de grupos de leigos semelhantes, que já existem mesmo que ainda estejam muito dispersos. O futuro está aí, é tarefa de todos, começando pelos jovens. No Brasil há neste momento seis milhões de estudantes universitários. Dois milhões, são de famílias pobres - são pobres os que ganham menos de três salários mínimos, porque com menos disso não se pode viver decentemente. Dois milhões. E qual é a presença do clero? Pouquíssima. Alguns religiosos. Das dioceses? Nada. E ali está o futuro. São jovens que estão descobrindo o mundo. Claro, há alguns que entram no mundo das drogas, que se corrompem, mas é uma minoria. Ou seja, o conjunto são pessoas que querem fazer algo na vida. Se não conhecem o Evangelho não vão viver como cristãos. É preciso explicar, mas não explicar com cursos de teologia, mas explicar fazendo, participando de atividades que de fato são realmente serviços aos pobres. Isso é possível fazer.


Tarefa da teologia. Então será preciso mudar um pouquinho: menos acadêmico, mais orientado para o mundo exterior... com todos os que não estão mais na rede de influxo da Igreja, que não recebem. Mas, presença nisso. E uma teologia que se possa ler, sem ter formação escolástica, porque anteriormente se não se tinha formação aristotélica não se podia entender nada dessa teologia tradicional. Bom, a filosofia aristotélica morreu, ou seja, os filósofos do século XX a enterraram. Agora temos liberdade para ver no mundo como nos abrimos.


Obrigado pela atenção de vocês!"

José Comblin†


[O texto acima é a transcrição da conferência proferida na Universidade Centro-Americana em San Salvador, em 14/11/2010]
[Conferência transcrita por Enrique A. Orellanae no dia 14-11-2010.]


Domingo, 6 de Março de 2011