teologia para leigos

24 de maio de 2011

PADRES, SACERDOTES, PONTÍFICES, PRESBÍTEROS

Homilia
5º Domingo Páscoa, 22 Maio 2011





 «Não gosto da palavra Padre dita simplesmente com o artigo definido: o Padre: Vou falar co’Padre!, o padre isto, o padre aquilo… No plural, os padres!, pior ainda: não quero nada com os padres, os padres assim, os padres assado… Claro que Padre tem a ver com Pai (latim). Em espanhol, Padre quer dizer Pai. Mas Na terra, não chameis “Pai a ninguém”, porque um só é o vosso “Pai”, aquele que está no céu (Mt 23,9) - recomendou-nos Jesus.
Mas não é por isto que não gosto de o Padre. É que a palavra padre tem hoje, sobretudo na comunicação social, uma grande carga pejorativa e ainda anti-clerical. E depois há os padres que traficam armas, e os que vão atrás das virgens ou os que violam crianças. Coisas de padres, ou dos padres! Não gosto da palavra padre dita simplesmente com artigo definido, singular ou plural. De Sacerdote também não, mas aí é por uma questão de rigor histórico e teológico. A Carta aos Hebreus explica porquê: O filho de Deus é que é o sacerdote por antonomásia, único e para sempre (Hb 7,3). E de pontífice a mesma coisa.

Sacerdote e pontífice são palavras provenientes das antigas religiões. Sabendo distantes os mundos do divino e do humano, as religiões tentaram abater essa lonjura, criando figuras capazes de trazer o divino ao humano (é o que quer dizer a palavra sacerdote - sacer + doths -, o que dá o sagrado [ao homem]) ou o que faz pontes (pontífice) entre o mundo de Deus e o dos homens.

É que “Deus nunca ninguém o viu” (Jo 1,17-18 e 1 Jo 4,12). O homem não podia ver a Deus (Ex 33,20); morreria, se isso acontecesse: Tu não podes ver a minha face, não podes contemplar-me e continuar a viver, disse Deus a Moisés (Ex 33,20). Portanto, eram necessários os sacerdotes e os pontífices, escolhidos para revelarem aos homens o rosto de Deus. Sacerdotes e pontífices eram verdadeiros mediadores entre Deus e os homens. É neste sentido que a Carta aos Hebreus chama muitas vezes mediador a Jesus, o enviado do Pai: ele é mediador de uma nova Aliança (8,6 e 12,24, bem como de um Novo Testamento (9,15). Também o autor da 1ª Carta a Timóteo utiliza esta linguagem: mediador entre Deus e os homens (2,5).





No entanto, nós, os cristãos, já não precisamos nem de pontífices nem de sacerdotes nem de demiurgos pois que tanto o Pai como o seu enviado, Jesus, virão a cada um de nós e em cada um farão a sua morada (Jo 14,23). Mas só “os puros de coração verão a Deus”  (Mt 5,8).

Portanto, nem Padre, nem Sacerdote, nem Pontífice: presbítero, palavra da nossa melhor tradição que, desde os tempos apostólicos, refere o servidor ministerial que é fundamentalmente um colaborador do Bispo (PO 2) ao serviço do Povo de Deus (PO 4). Embora o vocábulo presbítero se tenha perdido com os séculos, o Vaticano II reencontrou-o.

Presbítero é uma palavra de origem judaica que quer dizer ancião. Nas sociedades antigas, os idosos, possuidores de uma sabedoria apreendida e aprendida ao longo da vida, gozavam de uma especial consideração e ocupavam com frequência altos lugares na escala social. Os anciãos do antigo Israel, por exemplo constituíam já como que a nobreza do povo ou da tribo (Ex 3,16; Nm 11,16; 1Sam 30.26). Como não possuíam nenhum poder executivo, a sua autoridade, mais que efectiva, era moral. Mas, depois do exílio, foram admitidos no Conselho Supremo, juntamente com os Príncipes dos Sacerdotes e os Escribas (Mt 27,41; Mc 11,27; 14, 43-53; Lc 22,66). Por isso, ao Conselho se chamava presbitérion (Lc 22,26; Act 22,5: 1 Tim 4,14). Foram estes presbíteros que, de passo em passo, deram pelo menos nome aos presbíteros cristãos.

Digamos que, ao mesmo tempo que nas comunidades cristãs de origem judaica, se impunham os presbíteros, nas gregas, afirmavam-se os epíscopoi, palavra que deu as nossas episcopado ou episcopal. A palavra epíscopos, à letra vigilante, designava o detentor de um cargo que, nas sociedades gregas, se podia de algum modo comparar ao nosso governador civil. A palavra aparece por quatro vezes no Novo Testamento (Act 20,28; Flp 1,1; 1Tim 3,2; Tit 1,7), mas sempre com significação indeterminada.

De todo não sabemos da evolução destes presbíteros e epíscopos até chegarmos ao que hoje entendemos por presbíteros e bispos, até porque não foi uma evolução uniforme. Vamos de qualquer modo visitar esta história.

Os discípulos de Jesus não receberam dele qualquer norma concreta de como deveriam organizar as comunidades dos seus seguidores. Atenderam foi aos ensinamentos que dele receberam - entre vós, o que quiser fazer-se grande seja como aquele que serve (Mt 23,29), o ministério presbiteral não é poder é serviço às comunidades -, e [atenderam também] ao que o Espírito ia dizendo às igrejas (Ap 2 e 3), o que muitas vezes acontecia no meio de muita confusão e controvérsia bastante viva (Act 15,2). Apesar disso, era tudo muito simples: Sempre que dois ou três se reunirem em meu nome, estarei no meio deles (Mt 18,20). Não consta, por exemplo, que, para que Ele estivesse no meio deles, um haveria de ser presbítero! Pouco a pouco, porém, conforme os distintos modelos culturais em que as comunidades cristãs se configuravam e atendendo às necessidades da missão, começaram a surgir funções e figuras distintas na organização das comunidades.

Ao longo da História, porém, e sobretudo depois do Concílio de Trento, séc. XVI, entendeu-se que um sacerdote era aquele que tinha o poder de fazer a Eucaristia. Mas o Vaticano II entendeu que a tarefa principal do presbítero não é essa mas sim a de fazer a missão, a pregação e ensino do Evangelho. Só os que o receberem e nele forem iniciados chegarão à Eucaristia, centro e cume da vida da Igreja. Claro que a missão de Cristo compete a todos os baptizados mas, de modo especialíssimo aos apóstolos e seus sucessores, os bispos; esta tarefa que, antes de mais, é dos bispos é depois compartilhada por presbíteros, seus colaboradores. Ou seja: na perspectiva de Trento, havia sacerdotes que cuidavam especialmente da Missa e dos outros sacramentos; destes sacerdotes, alguns eram escolhidos para bispos e para tal sagrados, assim se dizia; no Vaticano II há bispos e há presbíteros, estes são colaboradores daqueles, numa missão que aos mesmos bispos impende primeiramente. E uns e outros são sacramentalmente ordenados para tal.

As consequências desta teologia são claras. Enquanto que, na linha Trento, se entendeu a tarefa dos Doze a de “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19) ou seja a de fazerem o corpo eucarístico; com o Vaticano II passou-se a um presbiterado-servidor do Corpo de Cristo que é a Igreja. O sacerdote não é mais [nem apenas nem sobretudo] o homem do culto e do altar, mas - bispos e presbíteros - são os que, na Igreja, assumem na Igreja uma tríplice missão: a profética, a cultual e a pastoral.

Finalmente, segundo o Vaticano II - e isto é fundamental -, tanto o bispo, como o presbítero, como até o diácono, não são mais o centro da Igreja; no centro da Igreja está o Povo de Deus na sua totalidade. De uma eclesiologia piramidal a uma outra em que se desenha prioritariamente o Povo de Deus. Isto foi uma verdadeira revolução copernicana!»


Comunidade Cristã da Serra do Pilar

23 de maio de 2011

CAPITALISMO, NEOLIBERALISMO E MERCADOS

O que é neoliberalismo




O neoliberalismo é o novo caráter do velho capitalismo. Este adquiriu força hegemônica no mundo a partir da Revolução Industrial do século 19. O aprimoramento de máquinas capazes de reproduzir em grande escala o mesmo produto e a descoberta da eletricidade possibilitaram à indústria produzir, não em função de necessidades humanas, mas sobretudo visando ao aumento do lucro das empresas.


O excedente da produção e a mercadoria supérflua obtiveram na publicidade a alavanca de que necessitavam para induzir o homem a consumir, a comprar mais do que precisa e a necessitar do que, a rigor, é supérfluo e até mesmo prejudicial à saúde, como alimentos ricos em açúcares e gordura saturada.


O capitalismo é uma religião laica fundada em dogmas que, historicamente, merecem pouca credibilidade. Um deles reza que a economia é regida pela mão "invisible" do mercado. Ora, em muitos períodos o sistema entrou em colapso, obrigando o governo a intervir na economia para regular o mercado.


O fortalecimento do movimento sindical e do socialismo real, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial (1940-1945), ameaçou o capitalismo liberal, que tratou de disciplinar o mercado através dos chamados Estados de Bem-Estar Social (previdência, leis trabalhistas, subsídios à saúde e educação etc.).


Esse caráter "social" do capitalismo durou até fins da década de 1970 e início da década seguinte, quando os EUA se deram conta de que era insustentável a conversibilidade do dólar em ouro. Durante a guerra do Vietnã, os EUA emitiram dólares em excesso e isso fez aumentar o preço do petróleo. Tornou-se imperioso para o sistema recuperar a rentabilidade do capital. Em função deste objetivo várias medidas foram adotadas: golpes de Estado para estancar o avanço de conquistas sociais (caso do Brasil em 1964, quando foi derrubado o governo João Goulart), eleições de governantes conservadores (Reagan), cooptação dos social-democratas (Europa ocidental), fim dos Estado de Bem-Estar Social, utilização da dívida externa como forma de controle dos países periféricos pelos chamados organismos multilaterais (FMI, OMC etc.) e o processo de erosão do socialismo real no Leste europeu.


O socialismo ruiu naquela região por edificar um governo para o povo e não do povo e com o povo. À democracia econômica (socialização dos bens e serviços, e distribuição de renda) não se adicionou a democracia política; não nos moldes do Ocidente capitalista, mas fundada na participação ativa dos trabalhadores nos rumos da nação.
Nasceu, assim, o neoliberalismo, tendo como parteiro o Consenso de Washington ¬ a globalização do mercado "livre" e, segundo conveniências, do modelo norte-americano de democracia (jamais exigido aos países árabes fornecedores de petróleo e governados por oligarquias favoráveis aos interesses da Casa Branca).


O capitalismo transforma tudo em mercadoria, bens e serviços, incluindo a força de trabalho. O neoliberalismo o reforça, mercantilizando serviços essenciais, como os sistemas de saúde e educação, fornecimento de água e energia, sem poupar os bens simbólicos ¬ a cultura é reduzida a mero entretenimento; a arte passa a valer, não pelo valor estético da obra, mas pela fama do artista; a religião pulverizada em modismos; as singularidades étnicas encaradas como folclore; o controle da dieta alimentar; a manipulação de desejos inconfessáveis; as relações afetivas condicionadas pela glamourização das formas; a busca do elixir da eterna juventude e da imortalidade através de sofisticados recursos tecnocientíficos que prometem saúde perene e beleza exuberante.


Tudo isso restrito a um único espaço: o mercado, equivocadamente adjetivado de "livre". Nem o Estado escapa, reduzido a mero instrumento dos interesses dos setores dominantes, como tão bem analisou Marx. Sim, certas concessões são feitas às classes média e popular, desde que não afetem as estruturas do sistema e nem reduzam a acumulação da riqueza em mãos de uma minoria. No caso brasileiro, hoje os 10% mais ricos da população ¬ cerca de 18 milhões de pessoas ¬ têm em mãos 44% da riqueza nacional. Na outra ponta, os 10% mais pobres sobrevivem dividindo entre si 1% da renda nacional.


Milhares de pessoas consideram o neoliberalismo estágio avançado de civilização, assim como os contemporâneos de Aristóteles encaravam a escravidão um direito natural e os teólogos medievais consideravam a mulher um ser ontologicamente inferior ao homem. Se houve mudanças, não foi jamais por benevolência do poder.

Frei Betto, Dominicano [Brasil]
Quarta-feira, 18 de maio de 2011




NEOLIBERALISMO E SOFRIMENTO HUMANO - L. BOFF + VÍDEO

RTP-1 «LINHA DA FRENTE»-R.S.I.


Vídeo RTP, 17:V:2011






Crise neoliberal e sofrimento humano


Leonardo Boff


O balanço que faço de 2010 vai ser diferente. Enfatizo um dado pouco referido nas análises: o imenso sofrimento humano, a desestruturação subjetiva especialmente dos assalariados, devido à reorganização econômico-financeira mundial.


Há muito que se operou a “grande transformação”(Polaniy), colocando a economia como o eixo articulador de toda a vida social, subordinando a política e anulando a ética. Quando a economia entra em crise, como sucede atualmente, tudo é sacrificado para salvá-la. Penalisa-se toda a sociedade como na Grécia, na Irlanda, em Portugal, na Espanha e mesmo dos USA em nome do saneamento da economia. O que deveria ser meio, transforma-se num fim em si mesmo.


Colocado em situação de crise, o sistema neoliberal tende a radicalizar sua lógica e a explorar mais ainda a força de trabalho. Ao invés de mudar de rumo, faz mais do mesmo, colocando pesada cruz sobre as costas dos trabalhadores. Não se trata daquilo relativamente já estudado do “assédio moral”, vale dizer, das humilhações persistentes e prolongadas de trabalhadores e trabalhadoras para subordiná-los, amedrontá-los e, por fim, levá-los a deixar o trabalho. O sofrimento agora é mais generalizado e difuso afetando, ora mais ora menos, o conjunto dos países centrais. Trata-se de uma espécie de “mal-estar da globalização” em processo de erosão humanística.


Ele se expressa por grave depressão coletiva, destruição do horizonte da esperança, perda da alegria de viver, vontade de sumir do mapa e até, em muitos, de tirar a própria vida. Por causa da crise, as empresas e seus gestores levam a competitividade até a um limite extremo, estipulam metas quase inalcançáveis, infundindo nos trabalhadores, angústias, medo e, não raro, síndrome de pânico. Cobra-se tudo deles: entrega incondicional e plena disponibilidade, dilacerando sua subjetividade e destruindo as relações familiares. Estima-se que no Brasil cerca de 15 milhões de pessoas sofram este tipo de depressão, ligada às sobrecargas do trabalho.


A pesquisadora Margarida Barreto, médica especialista em saúde do trabalho, observou que no ano passado, numa pequisa ouvindo 400 pessoas, que cerca de um quarto delas teve idéias suicidas por causa da excessiva cobrança no trabalho. Continua ela: “é preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande denúncia às condições de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas décadas”. Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente especulativo e orientado para a maximalização dos lucros. Uma pesquisa de 2009 feita pelo professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de Brasília, apurou que entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do desemprego. Os gestores atuais mostram-se insensíveis ao sofrimento de seus funcionários, acrescentando-lhes ainda mais sofrimento.

A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de três mil pessoas se suicidam diariamente, muitas delas por causa da abusiva pressão do trabalho. O Le Monde Diplomatique de novembro do corrente ano, denunciou que entre os motivos das greves de Outubro na França, se achava também o protesto contra o acelerado ritmo de trabalho imposto pelas fábricas causando nervosismo, irritabilidade e ansiedade. Relançou-se a frase de 1968 que rezava: ”metrô, trabalho, cama”, atualizando-a agora como “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer, doenças letais ou o suicídio como efeito da superexploração capitalista.


Nas análises que se fazem da atual crise, importa incorporar este dado perverso que é o oceano de sofrimento que está sendo imposto à população, sobretudo, aos pobres, no propósito de salvar o sistema econômico, controlado por poucas forças, extremamente fortes, mas desumanas e sem piedade. Uma razão a mais para superá-lo historicamente, além de condená-lo moralmente. Nessa direção caminha a consciência ética da humanidade, bem representada nas várias realizações do Fórum Social Mundial entre outras.


* Leonardo Boff é autor de «Proteger a Terra-Cuidar da vida:como evitar o fim do mundo», Record 2010.

Quarta-feira, 18 de maio de 2011


19 de maio de 2011

DISCURSOS GENERALISTAS E XENOFOBIA - POR UM DISCURSO NÃO-INSULAR

O impasse





Em tempo de Crise, ouvem-se, frequentemente por aí, dois discursos, aparentemente opostos. (1) Os políticos metem asco, governam-se e não governam; aquando das eleições, prometem mundos e fundos, depois conluiem-se para tomar conta das cadeiras do poder e distribuir benesses, esquecendo o país real, esquecendo os eleitores: são sempre os mesmos… (2) O povo tem o que merece, pois gastou acima das suas posses; o povo é egoísta, alimenta os interesses do sistema capitalista, adora o consumo e, por isso, é cúmplice com a estratégia do marketing e com os interesses financeiros dos ‘mercados’ – mesmo não tendo, contraem créditos...

Noutros momentos, ouvem-se comentários do género: (1) a crise vai ser boa porque vai obrigar o povo a mudar a sua mentalidade e os seus comportamentos; (2) a crise vai ser boa porque vai obrigar o povo a re-erguer-se como Nação, enfrentando os desafios que tem pela frente – isso o fará crescer e desenvolver-se; (3) já nada vale a pena, porque o povo é selvagem, incapaz de se unir e ser solidário; (4) já nada vale a pena porque os políticos (estes e os que vierem depois destes) são todos “farinha do mesmo saco”…

O que é que o Evangelho tem a dizer a isto?

Em primeiro lugar, importa verificar que só muito raramente é que os adversários de Jesus são nomeados pelo seu nome próprio. Isto quer dizer o seguinte: Jesus denuncia o sistema opressor e nunca condena o povo. Jesus aproxima-se do povo para entender melhor as suas queixas. Jesus coloca-se na senda dos profetas de Israel: veio para salvar as pessoas, denunciar o sistema gerador de pecado e anunciar uma saída colectiva para a crise do seu tempo – o Reino de Deus para todos, bons e maus! Se lermos o pequeno livro do profeta Amós, verificamos aquilo que Jesus também fazia: para problemas nacionais leituras globais e globalizadoras! Tal como os profetas de Isarel, Jesus não cai em julgamentos não-estruturais. O uso do plural, aquando de acusações, é a demonstração disso mesmo: «Mas vós fizestes dela um covil de ladrões. Os sacerdotes e os doutores da Lei ouviram isto e procuravam maneira de o matar» [Marcos 11:17-18]. «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.» [Mateus 25:40].


Leituras insulares não contêm saídas!

Para os profetas como Amós, o pecado é estrutural. Reparemos nas expressões empregues: ‘vós’, ‘os desvalidos’, ‘o reino que peca’, ‘a casa de Israel’ - «Vós que esmagais o pobre e fazeis perecer os desvalidos da terra» (Am 8:4). «Os olhos do Senhor Deus estão abertos sobre o reino que peca» (Am 9:8). «Vou sacudir a casa de Israel» (Am 9:9). O Mal é histórico e estrutural. As responsabilidades são nacionais. E quando há que sonhar com uma saída esperançosa para a crise nacional, damo-nos conta que as saídas são globais e colectivas: ‘os montes’, ‘as colinas’, ‘o meu povo’, ‘as cidades desvastadas’, ‘a sua terra’, ‘lhes dei’. Digamos: ou tudo, ou nada.

«Naquele dia, levantarei a cabana arruinada de David. (…) «Eis que vêm dias - oráculo do Senhor - em que o lavrador seguirá de perto o ceifeiro e o que pisa os cachos, seguirá o semeador. Os montes destilarão mosto; todas as colinas se derreterão. Restaurarei o meu povo de Israel. Hão-de reconstruir e habitar as cidades devastadas. Plantarão vinhas e beberão do seu vinho, cultivarão pomares e comerão dos seus frutos. Hei-de plantá-los na sua terra, e nunca mais serão arrancados da terra que lhes dei!» - diz o Senhor, teu Deus.» (Am 9:11.13-15)

Digamos, ou nos salvamos todos como Povo, ou nos perdemos todos e será o fim do Povo - ou todos, ou ninguém. Não há espaço para ‘salvações individuais’, nem à custa de ladainhas ou peregrinações individuais, até porque o próprio Santuário (do Monte Carmelo) virá abaixo: «Vi o Senhor de pé, sobre o altar. Ele disse-me: “Bate no capitel e tremerão os umbrais. Fá-los cair sobre a cabeça de todos; os que restarem hei-de matá-los à espada. Ninguém poderá fugir, nem um só deles escapará.  Ainda que desçam à morada dos mortos, a minha mão os tirará de lá; ainda que subam aos céus, de lá os farei descer;  se se esconderem no cimo do Carmelo, Eu os irei buscar e de lá os tirarei”» (Am 9:1-3).

Só há pecado histórico: deste deriva o pecado pessoal (e não o contrário). O pecado individual é a recusa em aceitar que ‘só há pecado histórico’.

A dimensão ‘oikos’ pertence ao universo ‘pecado’!

Donde é muito difícil aceitar que se apele apenas à dimensão individual ou à escala cordial do pecado. Apelos à conversão do coração devem deixar bem clara a dimensão ‘Povo’ dessa mesma conversão – ninguém se salva sozinho. É por isso que, a Missa, é «uma multidão de gente a caminho, respondendo a uma voz que convoca a uma assembleia», e não mero exercício pessoal.

Ficam, aqui, três regras, que podem re-situar-nos em matéria de leitura crítica dos envolvidos na crise. Uma nova Regra dos 3 P’s.

1.   PREPARAÇÃO – Ir ao deserto, Marcos 1:13. Jesus foi 40 dias ao deserto, atravessou sua ‘prova de vida’ não se deixando levar pelo discurso reinante que se ofereça de bandeja ou pela via do facilitismo. ‘Deserto’, aqui, quer significar que, mesmo que seja custoso, temos que procurar ir às fontes; quanto às causas e soluções da crise, temos que ler as duas versões; procurar uma leitura sistémica para configurar uma opinião global sobre um mal global. Estudar, trabalhar, fazer os deveres de casa e ter uma opinião pessoal devidamente fundamentada. Expressões gerais não chegam. É preciso saber-se bem o que é verdadeiro e separá-lo daquilo que é ilusório, propaganda ou falácia. Jesus foi ao deserto fazer a revisão à situação toda, fez a análise completa. Nos relatos das tentações, estão lá as questões magnas estruturantes (e não as de pormenor, de consciência, de vizinhança de rua ou as místicas).
2.   PROXIMIDADE – não discursar de longe, mas Ver e Ouvir (Marcos 1:10). Não leva a nada o discurso do dedo em riste, a análise classificativa, a pose de carimbador. Se, sinceramente, procuramos saídas temos que nos abeirar de todos: bater a todas as portas de todas as forças sociais e políticas, não para discursar, mas para ‘ver e ouvir’ a todos. Se não o fizermos, não só não teremos autoridade, como, sobretudo, perderemos muitas oportunidades para ajudar. Ficaremos com a nossa consciência tranquila e enterrada no sofá, e tudo continuará a ser a mesma coisa.
3.   PACIÊNCIA humildade, equidade; importa enfrentar os interesses da maldade sem se descompor, sem ódio ruminante, sem se deixar afectar na própria paz e liberdade interior. O mal existe, a realidade é dura. A sua dureza impõe-se como desafio, mas não como infecção. Ser justo no julgamento evitando ser justiceiro. Lucas 6:42: «Como podes dizer ao teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o argueiro da tua vista’, tu que não vês a trave que está na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás para tirar o argueiro da vista do teu irmão». Lucas 9:49-50: «João tomou a palavra e disse: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome e impedimo-lo, porque ele não te segue juntamente connosco.» Jesus disse-lhe: «Não o impeçais, pois quem não é contra vós é por vós.» Lucas 9:54: «Estes [os discípulos] puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de lhe prepararem hospedagem. Mas não o receberam, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os.» Esta última referência, o «fogo que desce dos céus» para arrasar quem não pertence à mesma igreja e fé, remete-nos para uma visão imediatista das soluções para a Crise. Trata-se de uma postura fácil, própria de desesperados (se não vai a bem, vai a mal), como eventualmente terá sido a postura de João Baptista: «O machado já está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo» (Mateus 3:10). Esta versão do estilo do movimento Baptista nunca poderia ser sancionada por Jesus. O Espírito do Pai de Jesus não se reveste de «fogo», mas de mansidão, acolhimento, misericórdia, e também de equidade e justeza (aquela versão é exclusiva de Mateus e, claro, tinha que terminar com a expressão «fogo inextinguível»…; cf. v.12b).

Em jeito de conclusão, digamos.
Os discursos insulares, em que a delimitação analítica roça a culpabilização daquilo que se delimita, mais não faz do que alimentar discursos ameaçadores que apenas preparam o ambiente para a guerra de acusações mútuas.

Face à dificuldade do momento (a intoxicação dos discursos televisivos sobre a ‘pseudo-ajuda’ da EU/FMI, sobre as causas da gravíssima degradação social, das elevadíssimas taxas de juro, da ameaça de banca rota, da aparente ausência de saída face às medidas de austeridade selvagem que nos impuseram sem nos consultarem, etc) há que recusar todo o tipo de xenofobia. E a ignorância ou a incapacidade de «leitura da realidade» pode originar formas mentais de xenofobia: tendemos sempre por expulsar, menosprezar e odiar aquilo que não dominamos.

Saber explicar o que se passa sem o recurso ao jargão, ao slogan, à fala do carrejão ou ao estigma, dá-nos paz, arruma a casa (cá por dentro), pois nos liberta a nós próprios dos sentimentos acusatórios face a grupos específicos e apaga, em nós, a atitude de desespero. O desespero é fonte de voluntarismo (querer pela simples razão que se quer e já não se suporta mais…). O voluntarismo cega-nos e constitui-se em terreno para a auto-suficiência e outros sentimentos corrompidos que nele crescem. Os discursos generalistas não podem ser admitidos. Nenhuma destas atitudes é criadora de saídas não-emocionais, de saídas em que todos nos salvemos em conjunto. Nenhuma é útil.

A natureza do impasse do discurso em que caímos reflecte a nossa própria natureza. A nossa condição cristã deveria levar-nos a ser reflectores de quem acredita, lúcida e esclarecidamente, na democracia, no povo e na solidariedade e não sermos mera caixa de ressonância do medo ou correias de transmissão do bota-abaixo. A nossa condição cristã é um «Espírito de sabedoria e fortaleza» [Is 11:2], que não deve temer o contraditório. Preparação, Proximidade, Paciência, Humildade e Equidade bem que poderiam ser acrescentados à lista do frutos e dons do Espírito, que Gálatas 5 e Isaías 11 nos oferecem já.

17 de maio de 2011

JESUS É MAIOR QUE A IGREJA

Não esqueçais Jesus






Após a ‘última ceia’, Jesus começa a despedir-se dos seus: já não estará muito mais tempo com eles. Os discípulos ficam desconcertados e impressionados. Ainda que não lhes diga claramente, todos intuem que em breve a morte o arrebatará da sua companhia.

Que será deles sem Ele?

Jesus sente-os abatidos. É o momento de fortalecer-lhes a fé ensinando-os a crer num Deus de maneira diferente: «Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus; crede também em mim.» [Jo 14] (…) Jesus desvela-lhes um horizonte novo. A Sua morte não irá fazer naufragar a sua fé. (…) Ele não os esquecerá. Seguirá pensando neles. Preparará um lugar na casa do Pai e um dia virá para os levar consigo. Então, ficarão, finalmente, juntos para sempre!

Aos discípulos, é-lhes difícil acreditar em algo tão grandioso.

(…) São, hoje, muitos os homens e as mulheres que ficaram sem vias de cesso a Deus. Não são ateus. De modo consciente, nunca expulsaram Deus das suas vidas. Nem eles mesmos sabem, verdadeiramente, se acreditam ou não. Simplesmente, deixaram a Igreja porque não encontraram nela um caminho atraente que os levasse, com prazer, até ao mistério último a que os crentes chamam “Deus”.

Ao abandonar a Igreja, alguns abandonaram, ao mesmo tempo, Jesus.
A partir destas modestas linhas, quero-lhes dizer algo que muitos de vós entendeis perfeitamente. Jesus é bem maior que a Igreja. Nunca confundais Cristo com os cristãos. Não confundais o seu Evangelho com os nossos sermões. Ainda que abandoneis tudo, não fiqueis sem Jesus. N’Ele encontrareis o caminho, a verdade e a vida que nós não soubemos mostrar. Jesus pode surpreender-vos!

J A PAGOLA
[Jo 14:1-12]
IN: blog de JAP: ‘BUENAS NOTICIAS’

PAULO FREIRE - EDUCAÇÃO LIBERTADORA, ANIMAÇÃO CULTURAL

Valorizar as pequenas vitórias é já celebrar a vinda do Reino de Deus.




Há um Espírito e um Anti-Espírito.
O Anti-Espírito fabrica “desespero”, o desespero fabrica “negativismo” e, este, engravida a vida de cegueira (fundamentalismo),
e todos juntos sufocam a esperança.


É assim que nascem as pessoas zangadas (dito doutro modo: assim nascem os ‘zangões’…). Apetece sacudir!
Os ‘zangões’ repulsam, Jesus atrai!



E há tanta coisa para fazer. Coisas que juntam, que dão dignidade, que alegram e dão prazer, que florescem ‘flores sem porquê’… que alargam horizontes! Que escavam dentro de nós. Coisas que nos engrandecem… e nos fazem orgulhosos de ser e saber.

Em tempos de Crise, importa descobrir como podemos ajudar o povo que sofre, como ajudar a: «Superar o obstáculo» & «Resgatar a vida».




Ressurge, então, o trabalho de Animação Cultural (animação e não, apenas, diversão). A Cultura e a Educação como uma arma ao serviço da devolução da dignidade, da luta ética contra a selvajaria nas relações humanas, da dádiva de esperança e de vontade de viver, do regresso ao bom uso (zelo) do planeta, do campo, da casa e da rua. A Animação Cultural: uma certa face de uma humanidade nova.




Há mil formas de começar!
O que importa é que se comece – com velhos analfabetos, com crianças, com adolescentes, com ilustrados, com desempregados, por bairro, aldeia, profissão ou género… tudo serve. Desde que se cresça…
«Superar o obstáculo» & «Resgatar a vida».
!!!No fim, sorrir!!!





Aqui ficam 8 pontas de um novelo infinito

1.Filme feito com a terceira série da escola Darwin Marosin que buscava discutir a violência . O filme foi feito de forma coletiva, as imagens são colagens com revistas velhas.

2.Projecto «Criança e Consumo» - Instituto Alana, Brasil

3.Os 7 saberes necessários à Educação do Futuro

4.Pedagogia da Autonomia - Paulo Freire – post by Coimbra Jones

5.Paulo Freire em 1 min
[Cartum do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr expõe em um minuto o "método Paulo Freire"]

6.Poema «A Escola», de Paulo Freire

7.Reflexões (antropológicas, sobre cultura indígena) de Paulo Freire

8.Método ‘Paulo Freire’ - «para que o Povo não desanime e não caia na desesperança…»


[fotos: Vilar de Arca - Animação Cultural em ambiente rural]

16 de maio de 2011

A FORÇA E A EFICÁCIA DO MARKETING CAPITALISTA


999,99




Novecentos e noventa e nove


Conhecemos bem a voz e as imagens estridentes da propaganda. Basta ligar a televisão, o rádio, abrir qualquer revista ou jornal, e lá está ela: novecentos e noventa e nove reais e noventa e nove centavos! Tudo em doze meses sem juros! Ou à vista com desconto de quarenta por cento. A avalanche de apelos dessa natureza que diariamente invadem a casa e a intimidade da família representa a força e a eficácia do marketing. Às centenas ou aos milhares, são despejados sobre nossas cabeças luzes e sons, truques e artifícios que nos atordoam. Atordoam e impelem muitas vezes a um consumo frenético, desenfreado e até desnecessário.


A marca da publicidade – novecentos e noventa e nove – é notória e por todos conhecida. Freando o preço no limiar de uma nova dezena (39,99), de uma nova centena (399,99) ou de um novo milhar (2999,99), ela traduz a impressão falsa, menos consciente e mais inconsciente, de que estamos economizando dez, cem ou mil reais. Ameniza desse modo a ânsia de comprar e a culpa de um consumo ilimitado. Compre, compre sem medo de ser feliz! E as vitrines, profusamente iluminadas, exercem um fascínio sem igual. Convite às compras, para uns; sedução que faz brilhar o olhar e alimenta uma possibilidade, para outros.


Primeiro faz desfilar diante de nossos olhos as novidades da última moda, os artefatos da tecnologia de ponta, os objetos mais cobiçados e mais vendidos, além de tantas outras bijuterias e bugigangas. Em não poucos casos, parece até nos ajudar na escolha, mostrando o que cada um deve vestir, comer, ter, consumir, usar. Caso contrário, alertam os anúncios, "você está na contramão”! E insistem em alto e bom som que, sem eles, "você não será feliz”! Pior ainda quando tudo isso é feito não de forma declarada, mas implícita. É o que chamamos de propaganda subliminar ou sub-reptícia. Na medida em que não temos plena consciência da agressão externa, tampouco teremos condições de nos defender.





Depois, o volume e a quantidade de novos produtos, além de atordoar, acarretam confusão. O que fazer? Mas aí o socorro chega prontamente: siga nossos conselhos, imite as celebridades, veja o que acaba de ser lançado e "sinta o prazer de viver!”. E este prazer se confunde facilmente com a marca do carro ou do combustível; com o rótulo do uísque e da cerveja; com a operadora da telefonia e da Internet; com a etiqueta da roupa; com a loja onde adquirimos os móveis e eletrodomésticos; com a marca do sabonete ou shampoo, e assim por diante. Mais grave ainda: quanto mais veloz o ritmo entre a compra, o uso e o descarte, "mais você estará será feliz!” Quanto mais rápido você se adapta à moda, "mais você será um cidadão diferente, antenado com o que existe de melhor”, insiste a publicidade. Vejam como fazem Fulano, Sicrano ou Beltrano – a celebridade da novela, do mundo do esporte ou da grife e da moda. A sofisticação da publicidade dita as regras e o comportamento.






Com não pouca frequência, entramos nessa maratona. O próprio desejo de ser diferente acaba por nos uniformizar a todos. Para superar o vizinho, adquirimos algo mais vistoso e brilhante, coisa que, em seguida, será por sua vez superado por ele. E assim entramos numa disputa sem fim. Pretextando nos trazer o conforto e a felicidade, a propaganda cria desejos artificiais, acende o pavio da cobiça, acirra a concorrência e nos coloca a todos numa pista de corrida virtual. Entupimos nossas gavetas e nossas casas com bens absolutamente desnecessários ou com prazo de validade mínimo. Alguns jamais serão usados, outros se tornam descartáveis antes mesmo de desembalados. A própria posse de determinado objeto o banaliza, tira-lhe o mistério. E o desejo, sempre insatisfeito, salta para outro produto mais fino, mais atual, com maior fulgor. Fecha-se o círculo vicioso do consumo compulsivo.


De produto em produto, vamos acumulando uma série de bens supérfluos. Mas a matemática aqui não funciona. Quanto mais acumulamos coisas que aparentemente nos trazem a felicidade, mais fundo e amargo parece ser o vazio de nossa existência. Ao banalizar as mercadorias que vamos adquirindo, banalizamos a nós mesmos. E o coração humano, finito mas projetado para o infinito, revela-se sempre insatisfeito, irrequieto, infeliz. Bem diz Guimarães Rosa que "coração de gente é terra selvagem”. De nada adianta tentar aplacar e domesticar seus desejos. Estes, a cada degrau que subimos, parecem brotar de entranhas mais profundas e desconhecidas. Deste modo, torna-se vã a busca desenfreada da felicidade!


O império do marketing pesa sobre a existência. A roda gigante do produzir-vender-consumir-descartar nos alcança e nos atropela. Uma grande maioria, às vezes sem mesmo o saber, se deixa levar pelas leis férreas do mercado. Mercado que, a exemplo de um gigantesco polvo, tem em seu DNA o crescimento a qualquer custo. Daí a dupla face da globalização, que leva o polvo a estender seus tentáculos a todo planeta: cresce extensivamente, buscando novos territórios, novos povos e novos consumidores; e cresce intensivamente, recriando necessidades artificiais naqueles que já estão integrados ao sistema. Sempre existe um produto novo, inédito, que preciso adquirir. Não posso ficar para trás!






O aperfeiçoamento da tecnologia, particularmente com a revolução da informática, apresenta como única solução a idéia de crescimento constante. Este é visto como uma espécie de panacéia para todos os males. A economia capitalista está em crise? Qual a solução? Mais crescimento! Pouco importa que este esteja viciado por profundas assimetrias e injustiças sociais. Não se pergunta, como fez a crítica lúcida do Papa Paulo VI na Populorum Progressio, se ele traz ou não um "desenvolvimento integral de todo o homem e do homem todo”. Crescer ao invés de distribuir equitativamente, eis a solução mágica! Hoje torna-se claro que semelhante forma de crescimento traz embutido o vírus da desigualdade socioeconômica, aprofundado cada vez mais o abismo entre ricos e pobres. Numa palavra, o remédio tende a matar o doente!


Nem precisa lembrar as implicações disso para a progressiva poluição, devastação e desertificação do meio ambiente. Essa matemática fria e calculista do mercado explora ao máximo todas as potencialidades da natureza e todo o suor do trabalho humano, além de realizar investimentos lucrativos com o patrimônio cultural da humanidade. Tudo se vende e se compra, tudo se mercantiliza, tudo pode ser objeto de acúmulo de capital, especialmente a partir do ritmo e da capacidade de produção desencadeada pela Revolução Industrial. A tal ponto que a lei férrea do mercado, tendo por motor o lucro, pouco a pouco vai invadindo todos os espaços, até mesmo o sacrário da vida, seja esta vegetal, animal ou humana. É o que se constata na manipulação das células e na engenharia genética.


A estridência do marketing é tão apelativa e permissiva que cabe a pergunta: até que ponto nos deixamos envolver nessa embriaguez do consumo, das coisas efêmeras, da febre do descartável? Efêmeras e descartáveis tornam-se igualmente as próprias relações humanas, no que Zygmunt Baquman chama de "modernidade líquida”, "amor líquido”, "tempos líquidos” e "vida líquida” – todos títulos de obras suas. "Tudo o que é sólido se desmancha no ar” alertava Marx e Engels já em meados do século XIX.


A verdade é que, por mais que estejamos conscientes diante da telinha (TV), por mais que nos defendamos da torrente de produtos que nos oferecem e da estridência com que o fazem, resta a questão: como administramos nossas compra e nosso orçamento? Daí a importância de, frente a tantos apelos, ater-se não às expectativas, e sim às necessidades. Do ponto de vista político, as promessas focalizam muito mais as expectativas populares do que a precariedade das condições básicas de vida de grande parte da população. Focalizar as necessidades é estabelecer planejamento, programas e metas; é repensar o que se produz, como e para quem; enfim, é visar o bem-estar da maioria. Chegamos assim à política e à democracia em seu sentido primordial, desde a antiga Grécia.


Pe. Alfredo J. Gonçalves
por Adital