teologia para leigos

21 de abril de 2011

ORAR A PÁSCOA, MEDITAR


Porque Jesus de Nazaré morreu como morreu? [«e morte de cruz», Fl 2:8b]




E para quê?






A Cruz,
amuleto ou símbolo de esperança?
Mas, esperança como?



NOTA: Crucifixo africano do meu quarto de dormir.
pb\

20 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 6/6


6.«agora vemos como…» [1Cor 13:12]


Taizé

 Entre a «utopia» e o «desespero»

E, colada ao apelo ao compromisso, a esperança.
Uma esperança com características muito específicas, que importa focar, por um lado, a partir da sua capacidade para preservar a dignidade das vítimas e, por outro, a partir do seu carácter realista.

Permite, com efeito, proclamar a dignidade das vítimas e o seu triunfo definitivo. E fazê-lo sem cair no cinismo. O destino de Jesus, iluminado pela ressurreição, impede que a esperança se reduza à caricatura apologética dum «prémio» perto do final da vida. Muito pelo contrário, mostra que a sua vida – a da vítima – desde já e agora vale a pena, como a de Jesus valeu.



«Dada a importância do tema e a sua hipotética sujeição a equívocos, vale a pena citar extensamente as lúcidas reflexões de E. Schillebeeckx: “ A minha tese é a de que se o itinerário vital de Jesus não evidencia nenhum sinal antecipatório da ressurreição, a sua morte não passa de um fracasso e, em tal caso (como pretende J. Pohier, ‘Quand je dis Dieu’, Paris 1977), realmente a fé na ressurreição é unicamente fruto do desejo humano. Sem antecipações efectivas da ressurreição na vida terrena de Jesus, a Páscoa é uma ideologia. Pois bem, o sujeito da afirmação de fé «ressuscitou» é o Jesus de Nazaré histórico, aquele que acreditou na promessa dando-lhe forma na sua mensagem e, sobretudo, na praxis da sua vida. A fé de Jesus na promessa como fonte de uma praxis original antecipa historicamente o sentido da ressurreição e, através dela, o poder de Deus sobre o mal. Jesus, segundo o itinerário da sua vida, é um «já»; seguramente, todavia, dentro do horizonte da morte, mas de uma morte desde já vencida na esperança. A força de Deus estava já a actuar na própria vida de Jesus, participando, a sua morte, dela também. Só assim, sob este pressuposto, a fé na ressurreição não é uma ideologia. Se a morte de Jesus antecipa apenas historicamente a sua ressurreição (como sucede em Bultmann, mas também de alguma forma no apóstolo Paulo), a ressurreição, inevitavelmente, é a negação de uma história na qual o pecado é o acicate e, a morte, a sua sequela”. [Los hombres relato de Dios’, Salamanca 1994, p.200


É por isso que Ele foi capaz de chamar “bem-aventurados” aos pobres e aos perseguidos, por ser certo Deus estar a seu lado e, pelo menos, a sua vida – em toda a sua fundura e integridade – estar a salvo nas mãos de Deus: deles é/será o Reino. A esperança apoiada em Deus ilumina o presente sombreado pelos homens. Algo decisivo, pois «onde o futuro vira desespero, aí o presente vira desgraça» [H. Müller-Fahrenholz].

A mais profunda nostalgia da Escola de Frankfurt – que o verdugo não triunfe sobre a vítima – aparece assim cumprida, sem que por isso se negue a justeza da sua «negação» diante de qualquer utopia totalitária, pois a ressurreição diz que a realização plena só pode ser transcendente. Ao mesmo tempo, a cruz livra da heteronomia, pois manifestando a inevitabilidade do mal não remete para um Deus cuja presença por si suprima a nossa responsabilidade histórica. Ou, apoiada na sua transcendência, a funda sem a substituir e a convoca sem a alienar: chama e torna possível socorrer o ferido à beira do caminho; mas a sua acção só se torna eficaz na responsabilidade livre do samaritano que a acolhe e prolonga.

Por isso, e em segundo lugar, a fé na ressurreição funda e promove o realismo duma esperança práxica, aquela que se movimenta entre dois dos maiores escolhos que ameaçam a verdadeira eficácia de todo o compromisso histórico: a utopia e o desespero.





A ressurreição não cai na utopia, porque conta com a cruz e porque não assegura a vitória histórica sobre ela, a cruz. A ressurreição não promete, como ainda sonhavam muitos apocalípticos, o paraíso na terra, nem agora nem em nenhum ‘milénio’, seja sociedade sem classes comunistas, seja “final da história” capitalista [F. Fukuyama, El fin de la historia y el último hombre, Barcelona 1995; cf. J. M. Esquirol, La frivolidade política del final de la historia, Caparrós 1998]. As ilusões de uma vitória total dentro da história – nos últimos tempos, saboreamo-lo até à saciedade e ao horror – acabam por levar a Auschwitz ou ao Gulag, e, como assinala Metz, a própria ”comunidade ideal” de Apel e Habermas passa com demasiada facilidade por cima da dor das vítimas [J. B. Metz – E. Wiesel, Esperar a pesar de todo, Madrid 1996, 41-43].




E, por outro lado, a ressurreição não cai no desespero, porque, ao mostrar que a realidade está, em todo o seu destino, envolvida por um Amor absoluto mais poderoso que o mal, a ressurreição rouba ao mal a palavra última. Não nega, porém, a sua terrível força histórica, mas não o reconhece como um absoluto. Mais ainda: sabe que, no fim de tudo, o mal já está vencido, pois o poder da própria morte foi quebrado. Por isso, é sempre possível a esperança: “A teimosia da esperança é o que a ressurreição comunica, em última análise, aos crucificados”.


«(…) e comunica-o porque não  é manifestação do poder, mas sobretudo do amor de Deus. O puro poder não gera necessariamente esperança, mas optimismo calculado. O amor, sem dúvida, transforma as expectativas em esperança. O Deus crucificado é o que torna credível o Deus que dá vida aos mortos, porque o revela como um Deus de amor e, assim, uma esperança para os crucificados».
[Jon Sobrino, Jesús en América Latina. Su significado para la fe y la cristología, Santander 1982, 242; cf., do mesmo autor, Cristología desde América Latina, San Salvador 21977 e, depois, La fe en Jesucristo: ensayo desde la víctima, Madrid 1999]


E, finalmente, comunica uma esperança que sabe que nada a poderá fazer render-se ou resignar-se, pois à experiência histórica dos pequenos triunfos sobre o mal soma-se a promessa firme da vitória final.




De tal modo que, contra o que muitas vezes se lhe atirou à cara (sem negar que em inúmeras ocasiões foi ela mesma quem lhe deu o flanco), a esperança cristã insufla o alento e a coragem definitivos, pois confere a cada vitória, por pequena que seja, uma importância infinita. Na verdade, as conquistas sobre o mal não acabam com a morte, mas também um copo de água ou uma palavra amável não ficam sem repercussão literalmente eterna: como dizia Teilhard de Chardin, o crente é o único que pode “prolongar até ao infinito” as perspectivas do seu esforço. [El medio divino’, Madrid 1967, 59]




O Vaticano II soube expressá-lo muito bem: “a esperança escatológica não diminui a importância das tarefas temporais, bem pelo contrário proporciona-lhe novos motivos para o seu exercício” [Gaudium et Spes, n.21].

Andrés Torres Queiruga 

As 6 entradas deste blog, para a PÁSCOA_2011, foram traduzidas de:

"Repensar a ressurrección - à diferencia cristiá na continuidade das relixións e da cultura", Andrés Torres Queiruga [pp. 288-304, não contínuas]
Colección O Home e a Sociedade, 2002
Sociedade de Estudios, Publicacións e Traballos (SEPT), ISBN 84-7337-056-2
Apartado 888, 36280 VIGO

e de:

"Al Tercer Día resucitó de entre los muertos", José Ignacio González Faus.
PPC, Editorial y Distribuidora, SA, 2003
c/ Agastia, 80
28043  Madrid
ISBN: 84-288-1669-7

A Conferência Episcopal Espanhola (através da «Congregação para a Doutrina da Fé») "notificou" ('condenou') A. Torres Queiruga acerca de vários 'erros' teológicos graves (na opinião daqueles teólogos) que algumas das suas obras contêm. Ver este link:


[fotos pb: Comunidade Ecuménica de Taizé, 2008]

18 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 5/6


5agora vemos como num espelho fosco…» [1Cor 13:12]


Taizé


 A Radicalidade do apelo ao compromisso

A liberdade e a criatividade têm de prolongar-se hoje na nova realidade político-social histórica, agora que se tornou central a preocupação político-social num mundo unificado até à globalização, ainda que dividido por barreiras inumanas. Sempre a experiência bíblica se preocupou intensamente com esta dimensão, ao ponto de a constituir no eixo da pregação profética. Sabia mesmo do perigo que é deixar-se cegar pelos privilégios da aliança com o poder e com o dinheiro: nessa altura, também havia profetas que «anunciam a paz quando alguém lhes dá de comer. Mas declaram guerra santa àquele que não lhes enche o estômago». [Miqueias 3:5]

Essa preocupação continua em Jesus de Nazaré que a rubricará com o próprio sangue; e os resultados da ‘terceira busca’ mostram até que ponto a sua preocupação e a sua actividade estavam imersas na circunstância económica, social e política do seu tempo.

Não se trata, pois, de algo estranho à mais genuína tradição cristã, mas duma reconfiguração num novo contexto. Felizmente, ainda que com algum atraso histórico, a teologia tomou conta da questão e, nas suas linhas fundamentais, graças sobretudo à teologia política, à teologia da esperança e à teologia da libertação, pode dizer-se que se conseguiu a clarificação fundamental. Não se trata de o repetir aqui, mas apenas de insinuar alguns aspectos em ligação com o exposto. Concretamente, dois aspectos: a radicalidade do apelo ao compromisso histórico e o carácter peculiar da esperança.


A radicalidade do chamamento ou apelo, em primeiro lugar. A emancipação das ciências sociais faz com que os diagnósticos de situação e as medidas técnicas – as mediações – por onde deveriam ir as soluções não sejam competência específica da teologia. Não é aí que reside o contributo da fé, pois esta pode e deve aprender das instâncias especializadas, cada a caso. É no horizonte dum sentido em que há-de enquadrar-se e no compromisso vital que há-de assumir, que se faz sentir o específico cristão. A primazia do pobre como referente, o espírito de serviço como atitude, a fraternidade real como meta surge com toda a evidência na vida de Jesus. A sua disponibilidade até à cruz mostra que o caminho estará sempre em aberto diante de uma generosidade sempre maior (que a maioria de nós nunca alcançará). Porém, isso, pelo menos, marca a direcção, assegurando que os passos dados nesse sentido nunca serão em vão.

Pode parecer idealismo, e de facto demasiadas vezes ficou-se pelo mero espiritualismo. Porém, ainda que reconheçamos todos os fracassos da história, não é possível negar que o apelo de Jesus, incarnado na sua vida concreta, mostrou-se sempre como um fermento inextinguível, que nem as piores épocas puderam encobrir. E a história mostra que muito do que de melhor neste terreno se foi produzindo, e se produz na consciência ocidental, tem nele a sua condição de possibilidade. Infelizmente, muitas vezes o seu influxo teve de realizar-se através do protesto contra o cristianismo. É tempo de o reconhecer com humildade, vendo na própria denúncia uma autêntica «profecia externa». [E. Schillebeeckx, Los hombres, relato de Dios, Salamanca 1994, 341-348] De facto, a renovação aludida não seria explicável sem esta chamada a partir de fora: Jürgen Moltmann nunca ocultou o impacto de E. Bloch sobre a sua teologia, e o impulso do socialismo marxista nunca foi negado pelos teólogos da libertação, apesar das distorcidas interpretações de que foi objecto.

Porque o “externo” do apelo não anula o “profético” dele: se se prestar a devida atenção, longe de afastar da essência cristã, o apelo externo leva o lado profético às suas raízes mais radicais. No plano do vivencial, o contacto com Jesus de Nazaré continua sendo fonte viva de generosidade e de entrega, como, apesar dos seus fracassos, mostra a “história da caridade cristã”, bem elaborada pela “espiritualidade da libertação”. [P. Casaldáliga & J M Vigil, Espiritualidade de la liberación, Santander 1992]

No que diz respeito à prática concreta, num mundo que nem sequer é capaz de cumprir o seu compromisso de entregar 0,7% da sua riqueza aos países pobres, não cansa recordar o contínuo escândalo que consiste o apelo de Jesus a dar «metade dos seus bens». [isto explica que, na mesmíssima praxis política, um cristianismo consequente acaba por ser um fermento crítico que nem sempre é bem aproveitado por um certo progressismo de «esquerda»: cf. as considerações de R. Diaz-Salazar, La izquierda y el cristianismo, Madrid 1998]




A radicalidade do apelo (ou chamamento) não garante assentimento imediato, mas revela-se como «uma força autenticamente crítica e produtiva, uma força libertadora». [E. Schillebeeckx, o.c. 205] De facto, S. Paulo explicitara-o de maneira radical. Para ele, longe de arrancar o crente da história, a fé na ressurreição entrega-o radicalmente a ela, até ao permanente perigo, até mesmo à beira da morte, até ao martírio violento (1 Cor 15:30-32)

E não só como consequência pessoal, testemunhada na sua vida, mas como princípio válido para toda a comunidade. Essa é a conclusão que, no fim de todo o seu raciocínio, retira: “Assim, meus irmãos, mantende-vos firmes e inabaláveis; aplicai-vos, cada vez mais, à obra do Senhor…” (v.58).


Pelo contrário, segundo S. Paulo, é a renúncia a essa fé (na ressurreição) – seja pela simples negação, seja pelo «entusiasmo» de se julgarem já ressuscitados ou através duma interpretação espiritualizante da imortalidade da alma apenas – que paralisa a acção e o compromisso: “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos que amanhã morreremos” (v.32).

Andrés Torres Queiruga

[fotos pb: Comunidade Ecuménica de Taizé, 2008]

15 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 4/6


4agora vemos como num espelho fosco…» [1Cor 13:12]


D. Helder Câmara_Brasil


Apesar da cruz

A ressurreição marca o específico da pisteodicea cristã [‘pistis’, fé]: reconhecendo a inevitabilidade do mal, que na morte culmina, acredita na sua superação definitiva graças ao poder de Deus, que até é capaz de quebrar o poder deste inimigo último ressuscitando os mortos. É o que (pressentido em todas as religiões) a fé cristã leu, de modo especialmente intenso, no destino de Jesus de Nazaré. Poderá aceitar-se ou não esta leitura, mas do que não poderá ser acusada é de contraditória ou incoerente.

Estamos perante algo que é muito importante face às perguntas da razão secularizada, pois permite medir em todo o seu alcance a importância da ressurreição.

Num âmbito mais geral, confere maior coerência e capacidade de convicção a um tema tão vivo e actual como o formulado pelo tema do ‘sentido da história’. Isso fora pressentido no já citado diálogo entre Walter Benjamin e Max Horkheimer e reafirmou-se nas teologias da praxe crítica: a ressurreição parece a única resposta possível ao destino das vítimas, que de outro modo se sumiriam para sempre no absurdo da sua derrota irreparável. Uma vez mais se confirma como a aproximação da experiência cristã à razão crítica, que pode a princípio causar perturbação, acaba por se manifestar como uma saída verdadeiramente fecunda.

Ora, tal facto aparece com mais claridade num plano imanentemente teológico. Antes de mais nada, podemos perceber em toda a sua fundura o «era necessárioedei - que Cristo padecesse» [Lc 24:26]. Sempre a consciência religiosa intuiu aí uma necessidade, algo de inevitável. Ora, num contexto mental em que tudo era atribuído directamente a Deus, tinha que ser interpretado assim julgando-o como inevitável, ou, porque Deus assim dispusera as coisas (podendo dispô-las de outro modo). Mas, um passo mais, e pôde-se descobrir uma necessidade mais íntima: a da contradição provocada na finitude da liberdade humana, pelo choque entre a bondade e os interesses da maldade. É o tema do Justo que sofre, presente já na Mesopotâmia [M. Garcia Cordero, Biblia y legado del Antiguo Oriente, Madrid 1977, 626-631], no próprio Platão [«se o Justo é assim, será fustigado, torturado, amarrado, queimar-lhe-ão os olhos e, logo após ter sofrido todo o tipo de males, será crucificado e, diante dele, perceber-se-á que não convém ser Justo, mas apenas parecê-lo», Politeia, livro II, 361e-362a], o que está vivo no Servo Sofredor [Isaías 42:1-9; 49:1-9a;50:4-11;52:13.53:12], figura aplicada a Cristo no Novo Testamento unida ao tema do profeta perseguido e assassinado [Mt 5:12;23:34].

A mediação «ponerológica» [‘ponerós’, mal] constitui o terceiro passo, aquele que retira as últimas consequências e põe em claro a inevitabilidade objectiva. Desse modo se deixa ver, em toda a sua grandeza, o amor divino. Deus não «planifica» ou «permite» a cruz, apenas a «suporta»: tal como Jesus, o Pai não deseja essa morte, mas «aguenta-a» como algo inevitável, acompanhando-O e apoiando-O com todo o seu amor para que não atraiçoe a sua missão. Deus não precisa da cruz para a salvação, mas quer a salvação apesar da cruz. 




 No que concerne ao problema do ‘mal’, isto é decisivo, porque assim se compreende em toda a sua seriedade que Deus é o Anti-mal: é aquele que está ao nosso lado de frente para o mal; e, por isso, é aquele que nos assegura a vitória definitiva. Sofre com Jesus na cruz, facto que «não pode» evitar, mas anuncia-nos, na ressurreição, a vitória, que, essa sim, Ele pode realizar, inclusivamente para lá dos limites da história.



«O ‘ter que sofrer’ messiânico de Jesus não é um ter-que imposto ‘a partir de Deus’. Através de Jesus, é imposto a Deus pelos homens. Porém, não dá xeque-mate a Deus, nem a Jesus. NÃO. E não em virtude da ressurreição em si, a qual seria nesse caso entendida como uma espécie de compensação para o fracasso histórico da mensagem e da praxis da vida de Jesus, mas porque o ‘ir pela palestina fazendo o bem’ era já o começo do reino de Deus: de um reino em que a morte e a injustiça não têm lugar. Na praxis do reino de Deus em Jesus está já antecipada a ressurreição. A fé pascal afirma que o assassinato – e toda a forma de mal – não têm futuro. É precisamente assim que a morte é vencida. O Crucificado é também o ressuscitado.»

[E. Schillebeeckx, ‘Los hombres, relato de Dios’, Salamanca 1994, 202]


E aqui reaparece a importância da solidariedade total entre o destino de Jesus e o nosso próprio destino, entre a sua ressurreição e a nossa. Se o mal o morde a Ele, morde-nos a nós – o mesmo terá que suceder com a sua vitória. Por outro lado, se a sua ressurreição fosse única – já realizada, ainda que à nossa espera – nunca poderíamos estar verdadeiramente seguros de que o seu afrontamento do mal reflectia, na verdade, o destino comum da humanidade, nem de que a sua vitória na ressurreição representasse idêntica esperança para nós.

Andrés Torres Queiruga

[fotos PB: D. Helder Câmara, Brasil & parede da Igreja da Reconciliação, Taizé]

14 de abril de 2011

O DEUS A QUEM FALO


 
QUEM É O NOSSO DEUS


O nosso Deus é o Deus que salva, não precisa de água benta, nem lamparinas, nem lágrimas de ocasião.


O nosso Deus é o Deus da justiça e da paz sem propaganda; veste-se com roupas simples e está entre os que vivem em dignidade, e não é aceite por muitos.


Não frequenta palácios de mentira nem é um Deus património de uma só nação.


Ele está na água partilhada e no fogo aceso na noite; caminha por qualquer cidade do mundo, nos capitalistas, nas cidades socialistas e comunistas, e é com frequência encontrado na contra-mão.


O nosso Deus é o Deus íntimo que está no coração do universo e de todo ser humano. Ele fala pelos que dizem a verdade e partilha o pão do mundo na mesa dos humildes. 


Seu nome é "Salvador", "Coragem", "Fogo", "Luta", "Intimidade”.


Ele fala pela boca do universo e está na intimidade de tudo o que existe - coração de matéria - e sua mensagem total nos foi dada em Jesus Cristo.


(Extraído do livro Salmos Latino-Americanos)
http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=7&noticiaId=1907


[foto: ti-Daniel, esposa e neta - Cabo de Vila, VILAR DE ARCA, PIÃES, Cinfães]

REUNIÃO DE GRUPO - «COMO OS CRISTÃOS RESPONDEM À POBRESA?»

«agora vemos como num espelho fosco...»


OS CRISTÃOS E A CRISE

que fazer?
 proposta de Encontro Colectivo: «revisão de vida» para uma metanoia


1.«Não queremos governos ricos com povos pobres…». «Guerra sim, mas contra a Pobreza!»


2.Uma olhadela à Pobreza e à Miséria Humana







3.Como responder como Igreja?





4.Partir o pão com todos


13 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 3/6


3.«agora vemos como num espelho fosco…» [1Cor 13:12]





Páscoa 2011 – ‘Creio’ na ressurreição das vítimas


O anúncio cristão não é simplesmente que «alguém» ressuscitou de entre os mortos (isso poderia referir-se apenas a uma vitória sobre a morte), mas que Jesus ressuscitou de entre os mortos. E Jesus é uma vítima: a maior vítima (ou a mais inocente) da história humana. 



Por isso, (contra a linguagem bastante difundida na Igreja «oficial») a teologia insiste hoje, não só que a Ressurreição de Jesus não pode ser separada da sua morte, como também a morte de Jesus não pode ser separada da sua vida: Jesus morreu por viver como viveu, pela conflitualidade que a sua vida de homem justo desencadeou.

E ressuscitou também por ter vivido como viveu e por ter morrido como morreu, ou seja, por causa do modo como foi morto. Sem estas íntimas relações o anúncio da Ressurreição de Jesus falha, já que a justiça e o juízo de Deus consistem em «salvar os humildes da terra». [Isaías 11:4]

Estas correlações permitem aproximar a figura de Jesus de outras duas figuras do Antigo Testamento - uma histórica, outra poética (mas poema que procura condensar toda uma experiência histórica): refiro-me aos Macabeus e ao Servo de Yahvé.


O martírio dos Macabeus

Trata-se do crime típico de todos os imperialismos: arrasam os credos, os costumes e as consciências dos países que invadem, tudo em nome duma suposta «globalização», a qual não é mais do que a mundialização do seu projecto de poder. Tendo como pano de fundo a tortura de seis irmãos na presença da própria mãe (não por terem cometido crime de Estado algum, mas pela sua fidelidade em cultuar ao seu Deus), ela e seus filhos pronunciam uma das primeiras afirmações de fé clara na ressurreição:

«É uma felicidade perecer à mão dos homens, com a esperança de que Deus nos ressuscitará.» [2 Mac 7:13]

«Não sei como aparecestes nas minhas entranhas, porque não fui eu que vos dei a alma nem a vida, nem fui eu que formei os vossos membros. Mas o Criador do mundo, autor do nascimento do homem e origem de todas as coisas, restituir-vos-á, na sua misericórdia, tanto o espírito como a vida, se agora vos sacrificardes a vós mesmos por amor das suas leis.» [2 Mac 7:22-23]

O mérito não é simplesmente «morrer», mas morrer «às mãos de homens», isto é, de morte injusta e não natural. Surge aqui o vislumbre da ressurreição, tal como no drama de Job.




A figura do Servo de Yahvé

Este personagem misterioso, que ocupa todo um capítulo de Isaías [52:13 e 53:1-12], descreve um ser maltratado, reduzido a um aspecto infra-humano, visto como ‘castigado por Deus’ pese embora a sua mansidão não violenta, mas que – tal como revela o poema – na verdade, carrega com os pecados dos que o julgaram. A este personagem, tanto no início como no final do poema, Deus concede exaltação e triunfo após a morte [52:13 - «o meu Servo terá êxito, será muito engrandecido e exaltado»; 53:10b - «terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias»].

Muito se discutiu sobre as identificações históricas deste personagem misterioso (uma delas pode muito bem ser o próprio povo judeu desterrado na Babilónia, humilhado, sofrendo inúmeros castigos por causa da sua fidelidade a Deus). Também é conhecida a rápida identificação que o cristianismo primitivo fez desta figura misteriosa com Jesus de Nazaré, desde os tempos primordiais do Novo Testamento.

A pergunta que levanta a figura do Servo de Yahvé e, com ela, todos os personagens e destinos históricos que podem estar condensados nesta figura, é esta singela pergunta que continua sendo também a grande pergunta que fazemos a nós próprios, ainda que preferíssemos não lhe dar ouvidos: tem sentido um caminho de serviço e de defesa das vítimas contra os seus verdugos? Pergunta-se: tem-no, não em abstracto, mas nesta história humana concreta, cujo prognóstico mais provável será nova vitória para os verdugos e alguma forma de cruz para o servidor?

Jesus de Nazaré respondeu-lhe afirmativamente com toda a sua vida. Respondeu que SIM a partir da sua intimidade única com Deus e a partir da sua proximidade única a Ele. E continuou dizendo que SIM inclusivamente no NÃO total que experimentou (por exemplo na sensação de abandono por parte de Deus), simbolizado na sua condenação pelos representantes de Deus e em nome de Deus. Aquele que crê em Jesus e aquele que segue Jesus também pode responder afirmativamente a essa pergunta: sabendo que esse sentido está em Jesus e na Ressurreição.





Este é o significado primário da Ressurreição de Jesus: nós, cristãos, acreditamos na ressurreição das vítimas, e isso deveria estar claramente expresso no nosso Credo.

Se essa ressurreição nos há-de afectar também a nós, a nós que não somos vítimas (e que até somos cúmplices dos verdugos, pelo menos em parte) é uma questão ulterior. Quiçá não teria sido uma ‘questão ulterior’ aquando da intenção criadora de Deus, mas converteu-se numa questão ulterior à vista deste mundo e desta história tecidos de vítimas inocentes, de injustiças e crueldades sem conta, com apenas alguns fogachos ou vislumbres com que a justiça teima em abrir caminho nesta história - ainda que a história saiba muito bem que sozinha não poderá nunca recuperar as próprias vítimas.



É uma questão ulterior, mas não é uma questão distinta. Está implicada na anterior. Isso significa (tal como insinuam os últimos versos do citado poema do Servo de Yahvé) que é graças às vítimas, através delas ou por intercessão delas (como queiramos formulá-lo) que poderemos esperar a ressurreição em que acreditamos.

J I González Faus

[fotos: 1. Haiti; 4. e 5. Praça de Maio, Argentina]