teologia para leigos

14 de abril de 2011

O DEUS A QUEM FALO


 
QUEM É O NOSSO DEUS


O nosso Deus é o Deus que salva, não precisa de água benta, nem lamparinas, nem lágrimas de ocasião.


O nosso Deus é o Deus da justiça e da paz sem propaganda; veste-se com roupas simples e está entre os que vivem em dignidade, e não é aceite por muitos.


Não frequenta palácios de mentira nem é um Deus património de uma só nação.


Ele está na água partilhada e no fogo aceso na noite; caminha por qualquer cidade do mundo, nos capitalistas, nas cidades socialistas e comunistas, e é com frequência encontrado na contra-mão.


O nosso Deus é o Deus íntimo que está no coração do universo e de todo ser humano. Ele fala pelos que dizem a verdade e partilha o pão do mundo na mesa dos humildes. 


Seu nome é "Salvador", "Coragem", "Fogo", "Luta", "Intimidade”.


Ele fala pela boca do universo e está na intimidade de tudo o que existe - coração de matéria - e sua mensagem total nos foi dada em Jesus Cristo.


(Extraído do livro Salmos Latino-Americanos)
http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=7&noticiaId=1907


[foto: ti-Daniel, esposa e neta - Cabo de Vila, VILAR DE ARCA, PIÃES, Cinfães]

REUNIÃO DE GRUPO - «COMO OS CRISTÃOS RESPONDEM À POBRESA?»

«agora vemos como num espelho fosco...»


OS CRISTÃOS E A CRISE

que fazer?
 proposta de Encontro Colectivo: «revisão de vida» para uma metanoia


1.«Não queremos governos ricos com povos pobres…». «Guerra sim, mas contra a Pobreza!»


2.Uma olhadela à Pobreza e à Miséria Humana







3.Como responder como Igreja?





4.Partir o pão com todos


13 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 3/6


3.«agora vemos como num espelho fosco…» [1Cor 13:12]





Páscoa 2011 – ‘Creio’ na ressurreição das vítimas


O anúncio cristão não é simplesmente que «alguém» ressuscitou de entre os mortos (isso poderia referir-se apenas a uma vitória sobre a morte), mas que Jesus ressuscitou de entre os mortos. E Jesus é uma vítima: a maior vítima (ou a mais inocente) da história humana. 



Por isso, (contra a linguagem bastante difundida na Igreja «oficial») a teologia insiste hoje, não só que a Ressurreição de Jesus não pode ser separada da sua morte, como também a morte de Jesus não pode ser separada da sua vida: Jesus morreu por viver como viveu, pela conflitualidade que a sua vida de homem justo desencadeou.

E ressuscitou também por ter vivido como viveu e por ter morrido como morreu, ou seja, por causa do modo como foi morto. Sem estas íntimas relações o anúncio da Ressurreição de Jesus falha, já que a justiça e o juízo de Deus consistem em «salvar os humildes da terra». [Isaías 11:4]

Estas correlações permitem aproximar a figura de Jesus de outras duas figuras do Antigo Testamento - uma histórica, outra poética (mas poema que procura condensar toda uma experiência histórica): refiro-me aos Macabeus e ao Servo de Yahvé.


O martírio dos Macabeus

Trata-se do crime típico de todos os imperialismos: arrasam os credos, os costumes e as consciências dos países que invadem, tudo em nome duma suposta «globalização», a qual não é mais do que a mundialização do seu projecto de poder. Tendo como pano de fundo a tortura de seis irmãos na presença da própria mãe (não por terem cometido crime de Estado algum, mas pela sua fidelidade em cultuar ao seu Deus), ela e seus filhos pronunciam uma das primeiras afirmações de fé clara na ressurreição:

«É uma felicidade perecer à mão dos homens, com a esperança de que Deus nos ressuscitará.» [2 Mac 7:13]

«Não sei como aparecestes nas minhas entranhas, porque não fui eu que vos dei a alma nem a vida, nem fui eu que formei os vossos membros. Mas o Criador do mundo, autor do nascimento do homem e origem de todas as coisas, restituir-vos-á, na sua misericórdia, tanto o espírito como a vida, se agora vos sacrificardes a vós mesmos por amor das suas leis.» [2 Mac 7:22-23]

O mérito não é simplesmente «morrer», mas morrer «às mãos de homens», isto é, de morte injusta e não natural. Surge aqui o vislumbre da ressurreição, tal como no drama de Job.




A figura do Servo de Yahvé

Este personagem misterioso, que ocupa todo um capítulo de Isaías [52:13 e 53:1-12], descreve um ser maltratado, reduzido a um aspecto infra-humano, visto como ‘castigado por Deus’ pese embora a sua mansidão não violenta, mas que – tal como revela o poema – na verdade, carrega com os pecados dos que o julgaram. A este personagem, tanto no início como no final do poema, Deus concede exaltação e triunfo após a morte [52:13 - «o meu Servo terá êxito, será muito engrandecido e exaltado»; 53:10b - «terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias»].

Muito se discutiu sobre as identificações históricas deste personagem misterioso (uma delas pode muito bem ser o próprio povo judeu desterrado na Babilónia, humilhado, sofrendo inúmeros castigos por causa da sua fidelidade a Deus). Também é conhecida a rápida identificação que o cristianismo primitivo fez desta figura misteriosa com Jesus de Nazaré, desde os tempos primordiais do Novo Testamento.

A pergunta que levanta a figura do Servo de Yahvé e, com ela, todos os personagens e destinos históricos que podem estar condensados nesta figura, é esta singela pergunta que continua sendo também a grande pergunta que fazemos a nós próprios, ainda que preferíssemos não lhe dar ouvidos: tem sentido um caminho de serviço e de defesa das vítimas contra os seus verdugos? Pergunta-se: tem-no, não em abstracto, mas nesta história humana concreta, cujo prognóstico mais provável será nova vitória para os verdugos e alguma forma de cruz para o servidor?

Jesus de Nazaré respondeu-lhe afirmativamente com toda a sua vida. Respondeu que SIM a partir da sua intimidade única com Deus e a partir da sua proximidade única a Ele. E continuou dizendo que SIM inclusivamente no NÃO total que experimentou (por exemplo na sensação de abandono por parte de Deus), simbolizado na sua condenação pelos representantes de Deus e em nome de Deus. Aquele que crê em Jesus e aquele que segue Jesus também pode responder afirmativamente a essa pergunta: sabendo que esse sentido está em Jesus e na Ressurreição.





Este é o significado primário da Ressurreição de Jesus: nós, cristãos, acreditamos na ressurreição das vítimas, e isso deveria estar claramente expresso no nosso Credo.

Se essa ressurreição nos há-de afectar também a nós, a nós que não somos vítimas (e que até somos cúmplices dos verdugos, pelo menos em parte) é uma questão ulterior. Quiçá não teria sido uma ‘questão ulterior’ aquando da intenção criadora de Deus, mas converteu-se numa questão ulterior à vista deste mundo e desta história tecidos de vítimas inocentes, de injustiças e crueldades sem conta, com apenas alguns fogachos ou vislumbres com que a justiça teima em abrir caminho nesta história - ainda que a história saiba muito bem que sozinha não poderá nunca recuperar as próprias vítimas.



É uma questão ulterior, mas não é uma questão distinta. Está implicada na anterior. Isso significa (tal como insinuam os últimos versos do citado poema do Servo de Yahvé) que é graças às vítimas, através delas ou por intercessão delas (como queiramos formulá-lo) que poderemos esperar a ressurreição em que acreditamos.

J I González Faus

[fotos: 1. Haiti; 4. e 5. Praça de Maio, Argentina]

12 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 2/6


2. «agora vemos como num espelho fosco…» [1Cor 13:12]




Páscoa 2011 - Em busca dum significado para a Ressurreição

«A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, tua vitória? Onde, o teu poder? O poder da morte é a força do mal. Mas Deus, por meio de Jesus Cristo, dá-nos a vitória sobre o mal.» [1 Cor 15:55]

«Bendito seja Deus que, em sua grande misericórdia, mediante a Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos, nos fez renascer de novo para uma esperança viva.» [1 Pe 1:3]


O sentido de um acontecimento não é o mesmo que o seu significado. Com a primeira expressão buscamos uma descrição o mais precisa possível dos factos aos quais tentamos aceder. De alguma forma, o sentido pertence aos factos em si, já que ao nosso conhecimento humano só se dão ‘factos já interpretados’. O significado é algo ulterior: tem o seu quê de ‘consequência’ que aos poucos se destila dos factos. E tratando-se de um acontecimento escatológico como o que acabamos de descrever [a Ressurreição], ao qual só podemos aceder com uma linguagem simbólica (…), o significado dos factos tem que ver com aquela capacidade do «dar que pensar» que P. Ricoeur atribui aos símbolos.




Se nos interrogamos, pois, sobre o que daí advém, ou sobre o que dá que pensar o facto de Jesus ter ressuscitado de entre os mortos, surgem algumas reflexões.

         

Defesa das vítimas – É facto velho, e, contudo, desconhecido de muitos, que o significado mais primigénio da Ressurreição não está naquilo que possa ter de vitória sobre a morte, mas no facto de ser uma vitória sobre a injustiça. Vejamos dois ou três pormenores provenientes da Bíblia que podem ajudar-nos a compreender isto. (a) A morte, na Bíblia, tanto é um facto natural («regressar ao pó donde se saiu», Gn 3:19), como um castigo do pecado («pelo pecado entrou a morte no mundo», Rm 5:12). Esta ambiguidade é devedora da mesma ambiguidade que o facto morte tem. Assim, é um facto natural, mas (ao contrário do animal) o Homem vive-a como anti-natural: porque o Homem não é apenas o animal que morre, mas o que sabe que vai morrer. Vivem-no como profundamente anti-natural quando se trata, não da própria morte, mas da perda de seres queridos:  a morte parece contradizer uma certa pretensão de imortalidade que se esconde nas mais profundas experiências do amor humano. Finalmente, é um facto «natural» em abstracto, mas muitas das mortes concretas que conhecemos são profundamente anti-naturais: morte em plena juventude, após violência ilegítima, etc., ao ponto da frase de Paulo («a morte entrou no mundo pelo pecado») ser interpretada por alguns como referida à morte violenta: porque o pecado, na sua mais funda dimensão, não é mais do que um atentado contra a vida. (b) A vida nesta terra, para os crentes do Antigo Testamento, é o lugar de encontro com Deus. O salmista constata que «os mortos já não louvam o Senhor», nem a bondade do Senhor será exaltada pelos que descem à «mansão dos mortos», «na terra do esquecimento» [Sl 88:11-13]. E quando ao rei Ezequias se lhe anuncia uma grave doença, este lamenta-se: «Não mais verei o Senhor na terra dos vivos». (Is 38:11) Por este valor teologal da vida é que o povo judeu pode acreditar em Deus durante séculos sem esperar, nem conhecer outra vida.
Este valor da vida provém dos primeiros vislumbres bíblicos da ideia de Deus (do Êxodo até aos Salmos e Profetas) que vinculam intimamente Deus com a ideia de Justiça. Precisamente por isso se pressupõe que – como Deus é justo – ao homem que, nesta terra, seja justo e piedoso tudo lhe há-de correr pelo melhor. As calamidades e as desgraças serão «a herança dos malvados», porque quando Deus «se levanta para julgar» isso significa exactamente «para salvar os humildes da terra». (Sl 76:10) O homem bom prospera nos seus negócios, tem uma vida plácida e morre muito velho rodeado de filhos e netos. Vale a pena reproduzir um exemplo entre muitos que é bem significativo, concretamente uma oração que rezaram, ano após ano, muitos judeus piedosos:

«Ditoso o que teme o Senhor e segue os seus caminhos.
Comerás do fruto do teu próprio trabalho:
assim serás feliz e contente.
A tua esposa será como videira fecunda
na intimidade do teu lar,
e os teus filhos serão como rebentos de oliveira ao redor da tua mesa.
Assim vai ser abençoado
O homem que obedece ao Senhor.» [Sl 128]

No entanto, a história da fé bíblica é a história de uma aposta que vai abrindo caminho por entre a constatação repetida de que as coisas não são bem assim: àqueles a quem vai bem a vida são quase sempre os que não temem o Senhor, os que não respeitam o semelhante, os sem escrúpulos. Infinitas vezes, aos honrados as coisas correm mal, infinitas vezes eles são vítimas da opressão que enriquece os malvados. E além do mais, aos que denunciam tal situação e lutam contra ela costumam ser eliminados de forma violenta. A Bíblia está cheia de exemplos desses.

Nestas circunstâncias, como é possível acreditar em Deus? Como pode, a fé nesse Deus justo, manter-se de pé séculos após séculos? (…) O escandaloso é que a morte seja tantas vezes obra, não da natureza, mas da injustiça, que é o que de mais anti-natural existe se admitimos que, no Antigo Testamento, «a natureza» de Deus é precisamente a justiça. (c) É no contexto desta dura experiência que aparece (perto do final do Antigo Testamento) a doutrina da ressurreição final, concebida não como mera escapatória da morte, mas como o triunfo definitivo da Justiça de Deus, a qual justifica esse incontível anseio humano de que os verdugos não acabem por triunfar sobre as vítimas, numa história que, não só está tecida de vitórias de verdugos sobre vítimas, mas que além do mais é escrita pelos próprios verdugos.




Por isso, se insistiu infinitas vezes no facto de que o anúncio cristão não é simplesmente que «alguém» ressuscitou de entre os mortos (isso poderia referir-se apenas a uma vitória sobre a morte), mas que Jesus ressuscitou de entre os mortos.




E Jesus é uma vítima: a maior vítima (ou a mais inocente) da história humana. Por isso, (contra a linguagem bastante difundida na Igreja «oficial») a teologia insiste hoje, não só que a Ressurreição de Jesus não pode ser separada da sua morte, como também


 a morte de Jesus não pode ser separada da sua vida: Jesus morreu por viver como viveu, pela conflitualidade que a sua vida de homem justo desencadeou.


J I González Faus

[fotos: 1. Memorial ao Holocausto, Berlim; 2. e 4. Haiti depois do sismo]

11 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 1/6


1.«agora vemos como num espelho fosco…» [1Cor 13:12]



Páscoa 2011 - Contexto humano: o princípio esperança


Poucos meses antes de morrer, em 1980, e numa entrevista concedida se não me engano ao diário Le Monde, o filósofo Jean Paul Sartre reconhecia que «diante desta mixórdia miserável que o nosso planeta é, volta a atormentar-me o desespero: a ideia de que tudo terá um fim, de que só existem fins particulares por que lutar. Não existe um só objectivo humano. Nada mais que desordem». O filósofo reconhecia a necessidade de uma ética bem fundada. E confessava: «(diante do desespero) resistirei com a máxima justiça e sei que morrerei na esperança, uma esperança, contudo, que é necessário fundamentar-se».

Não se tratam de especulações filosóficas ininteligíveis, mas de algo que marca profundamente toda a nossa condição humana e que tentamos redizer duma maneira mais universalizável:

·       O triunfo da morteQuanto sofrimento até morrer», dizia o poeta. Ou, com as palavras mais sóbrias de Sartre: «Tudo acabará»).
·       O triunfo do verdugo (ainda por cima, é ele que acaba por escrever a História). Com as palavras de Sartre: o desespero diante da «mixórdia miserável do nosso planeta onde só existem fins particulares e nenhum objectivo humano».
·       O triunfo do fracasso, ou a derrota das utopias, pois que, ao fim e ao cabo, a realidade acaba por se impor («Nada mais que desordem»).

Estas três grandes questões – a morte, a injustiça e a utopia – marcam a vida e a história humanas e clamam por uma razão positiva que nos permita acreditar que a esperança não é mero voluntarismo cego que não pára de semear a vida com vãs promessas. A grandeza das declarações de Sartre provém precisamente da fé em que, resistir a essa dinâmica, é uma questão de «justiça» e que há que «manter a esperança». Pois, render-se de antemão ante a evidência de que essas questões não têm solução, acaba por significar, por um lado, o embrutecimento a que chegaram as pessoas, e, por outro, aceitar que a sociedade humana no seu conjunto se degrade ao nível duma mixórdia mais do que miserável. Ou, por outras palavras: a resistência a essa tríplice lei não prova que ela não seja verdadeira. Mas mostra, isso sim, que é inaceitável.

Será demasiado pessimista esta descrição do nosso contexto humano? Não será possível prescindir dele e viver «relativamente bem»? Permitam-me um par de pinceladas para me explicar melhor.

A morte acaba por ter a última palavra. O decisivo não é morrer, mas saber que se morrerá. O problema não é como é que a morte influirá quando chegar (nessa altura já cá não estarei), mas como influencia agora que sei que virá, sendo certo que o esquecimento disso mesmo é já uma forma de influenciar. Pois que a reacção «se só temos quatro dias para viver, então vivamo-los…» é sem dúvida a que mais convida a fechar os olhos diante do que quer que seja e a abri-los apenas para si próprio.

A História acaba sempre por ser escrita pelos vencedores. Os vencedores dão sempre por assente que a sua causa é a mais justa e que, com eles, a justiça sempre triunfa. Mas acabam sempre por esconder, não só a parcialidade da sua possível justa causa, bem como os meios injustos e cruéis que são imprescindíveis para que qualquer causa triunfe, o que acaba por desautorizá-la. A patética imagem do presidente Aznar, defendendo quase aos gritos a sua colaboração na barbárie da NATO no Kosovo, já que «havia sido um êxito» (enquanto o criminoso Milosevic permanecia no seu posto, o país que não era culpado de nada ficava destruído e os ódios alcançavam níveis quase incuráveis) parece-me uma imagem da humanidade universal e não apenas o ridículo dum personagem particular.

A realidade impõe-se. Lembremos a trajectória de tantos amores eternos que acabam sendo bons guiões para filmes como American Beauty. Lembremos a decepção de tantas ilusões profissionais juvenis. Recordemos aquele ministro que exortava os jovens a não cometerem os erros que ele cometeu, ele que tinha sido comunista na juventude, até que conseguiu descobrir o verdadeiro progresso… Recordemos também a frase de T. Adorno – que mais tarde retomaremos – sobre a necessidade de olhar as coisas «a partir da utopia», caso queiramos pensar correctamente. A utopia, essa impossível ânsia humana de plenitude. Quando se põe de parte esse ponto de vista, toda a crítica se torna impossível (salvo a que serve para insultar o adversário e engordar à custa dele). Cai-se na canonização de todas as coisas.

Está na moda dizer mal das utopias. Mas quando morrem as utopias nascem as idolatrias ou pequenas causas legítimas convertidas em absoluto, às quais acabamos por oferendar sacrifícios humanos. A própria defesa absoluta da vida é já uma utopia, a única que parece sobejar nos tempos que correm. Mas pensemos no que aconteceria se, reconhecendo-a como tal (como utopia), deixássemos de olhar as coisas a partir do valor absoluto da vida.

Morte, injustiça, frustração. Se quisermos, acrescentemos a estes três aspectos do nosso viver, a aparente irreversibilidade da vida. Jaime (30 anos, vítima da heroína e da SIDA) dizia-me poucos dias antes de morrer: «Não sou uma pessoa religiosa, mas a vida é mesmo canalha: erras uma vez e já não tens remédio. Foi o que me aconteceu a mim». Procurei garantir-lhe que, não a dimensão religiosa, mas a dimensão crente da pessoa humana implica a confiança de que sempre ‘haverá um jeito’ para o que quer que tenha sido a sua vida. E que foi isso mesmo que muitos reconheceram em Jesus de Nazaré. (…)

Basta a evocação destes problemas.
Fiquemos, por agora, apenas com esta conclusão: é enormemente humana a pergunta se em algum lugar alguma vez aconteceu uma vitória ou uma palavra que proclamasse decisivamente a desautorização da morte esmagando-lhe todo o poder, se aconteceu a desautorização dos vencedores reabilitando as suas vítimas e a desautorização da realidade que sempre acaba por vingar. Esta é uma pergunta profundamente humana, mesmo que não lhe saibamos dar uma resposta. Porque, só à custa do rebaixamento do seu nível e da sua qualidade de vida, é que o ser humano poderia iludir esta questão.

José Ignacio González Faus, sj, responsável pelo Centro de Estudos ‘Cristianisme i Justícia’ [Barcelona]


VÍDEO: o Mundo como um atoleiro, a Humanidade como gado


[foto pb: mural em Checkpoint Charlie, Berlim]

10 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO DE LÁZARO, ACTUALIZADA


Lázaro, sai fora dessa «vida» e vai, vai…




Há momentos na vida em que não há mais nada a fazer: diante do peso da inevitabilidade (por ex.: uma doença muito grave de alguém muito próximo de nós), pouco nos sobra a não ser «chorar com os que choram». Raniero Cantalamessa diria: «partilhar o pão das lágrimas». Sem dúvida: estar lado a lado. Jorge Mayer diria: «apenas, abraçar quem sofre».
Sem dúvida – diante das situações NATURAIS, nada mais há que importe. Deus não faria mais, nem melhor! Sem dúvida.

Mas diante do «mal voluntário», do mal premeditado, do mal inventado pela mente humana, diante da maldade como «quebra da eticidade», como «responsabilidade assumida pela desintegração do humano» [Marciano Vidal], diante do mal como expressão da liberdade (humana)… nesse caso, Deus faria mais e melhor. Deus denunciaria! Deus apontaria o dedo, Deus não deixaria que os culpados se escondessem por trás de um qualquer discurso político justificativo, por trás de uma qualquer catequese ou qualquer discurso teológico anódino, por trás de uma qualquer desculpa pessoal, à defesa, comodista. Mais: Deus daria a própria vida!

E foi o que fez!

O relato da Ressurreição de Lázaro [Jo 11:1-57] contém essas duas situações: a força do mal-natural e a força do mal-intencional. Diante da primeira, Jesus não se perturba, não 'perde o pé', não descompensa (v.6 – depois de saber que Lázaro estava gravemente doente, «Jesus ainda se demorou dois dias»). Depois, chora (v.33 - «Jesus comoveu-se profundamente»). Diante da segunda, Jesus não fica paralisado, nem muito menos resignado (v.7b - «Vamos outra vez à Judeia»). E, no entanto, sabia do perigo de vida que corria… Sabia-o, mas seria cínico se não subisse a enfrentar o perigo não-natural que a situação política adensava à sua volta [Jo 10:39 - «Por isso procuravam de novo prendê-lo»].

Com o seu grito «Lázaro, vem cá para fora!», ou seja, «Lázaro, rompe com as lianas da morte e volta à Vida que vale!», Jesus queria deixar claro a todo o auditório (que era grande – v.33 e 45 – e estava suspenso da Sua coragem): rompam com a resignação diante do mal perpetrado, rompam com as leis da opressão que nos atam por dentro e por fora, rompam com a injustiça neo-liberal, rompam com a cobardia do fatalismo, rompam… quebrem todas as cadeias, incluindo as cadeias das 'falinhas mansas' e das suporíferas 'escapadinhas'! 




Rompam as cadeias políticas, as económicas, as religiosas, as da convivialidade social sem tempo-livre esganado pelas preocupações do trabalho ou baseadas em padrões burgueses ao estilo «condomínio fechado» (‘etiqueta e boas maneiras’). NADA A TEMER, diz Jesus. Rompam com o «nasce, trabalha, compra, morre»! Jesus diz: «Desligai-o e ele que vá. Que suba para o Alto!» [Jo 11:44], para a Vida Plena! ROMPAM (velhas) LIANAS E CRIEM (novos) LAÇOS! Dirigindo-se, assim, aos que estavam ali a assistir ('Desligai-o vós'), Jesus mete-os também em sarilhos, força-os a deixar de ser neutrais, obriga-os a entrar na cadeia da solidariedade para com o outro, obriga-os a comprometerem-se, a meter as mãos na massa, a dizer claramente de que lado estão: se do lado da morte (político-religiosa) ou se do lado da vida (plena: ética, social, económica, política, cordial). Quem se abeire de Jesus está tramado: jamais sairá como entrou… Foi o que aconteceu a Lázaro!


Ao lado de Jesus, a Comunidade Primitiva (representada aqui por Lázaro, Marta, Maria e pelos chamados 'tementes a Deus'; Betânia=«BETH-ANAWIN»: 'CASA DE POBRES') aprendeu o que é passar da morte à vida-plena. E aprendeu-o AQUI E AGORA (Jo 12:1) no seu caminhar nesta terra, e muito mais neste tempo histórico de perseguição (v.54 - 'tempo de fuga a resistir no deserto') e não depois deste mundo (v.24 – ou, como à época se dizia , «na ressurreição do último dia», no fim dos tempos, no fim da História da Humanidade, numa Escatologia solteira). Todo o auditório da Comunidade Primitiva aprendeu (auditório AINDA  dividido  e de Fé frágil), todo o auditório o percebeu. Todo, não: muitos!, mas não todos (v.45), pois alguns (v.46) revelaram-se delatores, porque 'Jesus divide os auditórios', mesmo os auditórios da Igreja Católica. Para Jesus, para o Evangelho, a solução nunca foi a fuga aos problemas políticos e sociais... e a busca de refúgio no «túmulo de betão» de uma pseudo-vida religiosa qualquer (aqui representada pelas 'ligaduras' e 'sudário'). Para Jesus a solução passa sempre por três caminhos, que são, entre si, massa e argamassa: a compaixão solidária («comoveu-se profundamente»), a busca de mudanças esperançosas nesta vida («desatai vós») e a alimentação contínua da Esperança na Oração Comunitária, Comunicante e Colectiva («erguendo os olhos ao céu», v.41).

As catástrofes naturais (a morte por doença natural, por ex., a de Lázaro) são a única inevitabilidade que conheço. A austeridade que ‘todos’ nos apregoam na TV (e com que outros consentem calando) não é nenhuma inevitabilidade - é «manha humana» sobreponível à manha dos sumo-sacerdotes e fariseus. Impõe que tomemos partido também, e procuremos ‘saídas para a crise’. Impõe que sejamos determinados como Marta foi determinada diante da 'sua crise'; que NÓS sejamos também determinados em procurar 'saídas para a nossa actual crise' (v.21)!

«Que os educadores eduquem TODOS para a paz e o respeito digno, que os políticos governem TODOS para a justiça, que os trabalhadores trabalhem para o bem de TODOS… que TODOS possamos viver para a concórdia, condenando a violência de maneira radical, total…» [X. Pikaza]


«Para viver à custa da morte dos outros, há que matar os que choram com os que choram e promovem a vida plena.» (Jo 11:57) [X. Pikaza] Por isso, alguns dum certo 'Portugal dos Pequeninos' diziam/dizem que as medidas do PEC-4 «pecam por defeito…», querem mais sangue, exigem mais mortos! Há quem, em Portugal, precise de viver à custa da morte de outros (para que a conta dos banqueiros engorde), tal como os fariseus e sumos-sacerdotes no tempo de Jesus (para que a conta do Templo engordasse).

«A palavra de Jesus: ¡«Lázaro, sai fora!», é um princípio de esperança, mas também de compromisso com a justiça neste mundo.» [X. Pikaza] 


pb\
[foto pb: «nasce, trabalha, compra, morre», mensagem mural na Travessa da Fontinha, Santo Ildefonso, Porto]

9 de abril de 2011

CONTESTAÇÃO AO «ARCO DA GOVERNAÇÃO»


POLÍTICAS DE DESIGUALDADE GERAM DESESPERO
O DESESPERO É MAU CONSELHEIRO
«NOSSA FORMA DE POLÍTICA É A ACÇÃO DIRECTA»


 O arco da austeridade
por Sandra Monteiro

Na sequência da reprovação pelas oposições parlamentares do quarto programa de estabilidade e crescimento (PEC IV), o governo demitiu-se e estão agora marcadas eleições legislativas para o dia 5 de Junho. Com a dissolução da Assembleia, depressa os meios de comunicação social foram inundados por considerações sobre a responsabilidade, ou falta dela, de se juntar uma crise política às outras crises que já afectam o país. Mas será possível enveredar pelo austeritarismo, que está hoje no centro das recomposições que a crise impôs nas clivagens políticas, e escapar a alguma das dimensões da crise que esse programa aprofunda, quando ainda por cima as diversas dimensões da crise actuam umas sobre as outras?
No fogo cruzado das acusações sobre a dissolução do Parlamento, marcadas por uma fulanização que prenuncia já a ligeireza política do debate que aí vem, tiveram de passar vários dias até que os media recentrassem a informação em matéria relevante para compreender o que se passava. Quando Pedro Passos Coelho publicou um artigo no The Wall Street Journal [1], destinado a tranquilizar os «mercados internacionais» quanto ao sentido da votação do seu partido, lá se disse aos portugueses que o Partido Social Democrata (PSD) se recusou a viabilizar o mais recente PEC por entender que as propostas de austeridade do governo «não iam suficientemente longe».
O «arco austeritário», de que fazem hoje parte o Partido Socialista (PS) e as formações à sua direita, mantinha-se portanto intacto. De facto, para se observar as fendas que abrem por toda a parte, o sítio para onde se deve olhar é para a vida concreta das pessoas que são atingidas pelas políticas de austeridade.
É aí que o desemprego e a precariedade, os baixos salários e a degradação dos serviços públicos e do Estado social, já em curso ou em projecto, revelam o verdadeiro rosto da tão falada «oportunidade» que a crise representa: para o neoliberalismo, a resposta austeritária é um salto de gigante no sentido da regressão social e da exploração laboral.
Este programa, que constrói sociedades cada vez mais marcadas por desigualdades socioeconómicas, como acontece em Portugal, é indissociável de um processo de financeirização das economias no âmbito do qual os Estados desistiram do controlo político dos mercados e aceitaram ser seus dependentes. É também indissociável, no caso dos países europeus, e sobretudo das economias periféricas, da aceitação de uma integração desastrosa na União Europeia que hoje constrange enormemente quaisquer possibilidades de recuperação.
Mas este programa seria também incompreensível sem a capacidade que os meios de comunicação social têm hoje de delimitar o campo do possível, afunilando o pluralismo de perspectivas e generalizando, no caso vertente, a ideia de que não há resposta viável à crise que não seja a austeridade. Não o fazem discutindo as vantagens e as desvantagens dessa resposta, convocando para o debate os seus defensores e os seus opositores. Fazem-no pressupondo que o austeritarismo é um campo consensual (mesmo que desagradável...) e, mais ainda, que é o único quadro possível e realista para a governação do país.





É isso que explica, por exemplo, que as referências na comunicação social ao que podia ser chamado um «arco da austeridade» surjam sempre na forma de «arco da governação». Mais do que exprimir a vontade de quem se opõe à austeridade de participar ou não na governação, este discurso sinaliza que esse arco não admite os anti-austeritários. É aliás curioso o modo como, recentemente, até se tem generalizado mais a expressão «arco da governabilidade». Já não se trata apenas de identificar os que terão direito a aceder à governação, mas de definir quem é que, uma vez lá chegado (e, em rigor, nunca se sabe que surpresas as eleições reservam), poderá ter condições de assegurar a «governabilidade», isto é, garantir alguma estabilidade nacional e internacional na condução das políticas.





Não deixa de ser paradoxal para a democracia que seja justamente quando a crise chega à política e quando a instabilidade, estrutural ao funcionamento do neoliberalismo, ameaça traduzir-se também em processos eleitorais mais frequentes, que os cidadãos estejam a ser chamados para eleger representantes que, a menos que contestem os caminhos da integração nacional na União Europeia, e a relação desta com instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), terão uma fraquíssima autonomia de decisão política.
Por outro lado, cada vez que o espaço mediático é ocupado, sem contraditório, por quem recorre a todos os dispositivos retóricos para encobrir os (evitáveis) efeitos corrosivos da austeridade e para insistir nas vantagens de ter no poder o «arco da governabilidade», é caso para pensar nas consequências que poderá ter para a estabilidade de todo este edifício comunicacional um escrutínio cidadão continuado das respectivas práticas jornalísticas e representações da sociedade.

É caso também para pensar na importância que os movimentos populares e toda a luta no terreno social poderão ter, neste contexto político-económico,





para impedir que em breve sejamos todos confrontados com uma outra dimensão da crise, tão anunciada quanto a social e a política, que é a da corrosão dos laços de confiança e de solidariedade que tende a desintegrar as comunidades
onde se permite o aprofundamento imoral das desigualdades, num fosso que de um lado acumula arrogância e do outro sofrimento. Que neste mês de Abril, 37 anos depois de a democracia ter saído à rua, os portugueses saibam recuperar, na contestação ao «arco da austeridade», o que essa contestação representa de mais nobre:

a defesa do «espírito da igualdade».
 
Sandra Monteiro,7 de Abril de 2011

Notas: [1] «Our Plan to Fix Portugal», The Wall Street Journal, Nova Iorque, 30 de Março de 2011

in, Le Monde Diplomatique, Abril 2011. Edição em português.

 [foto PB: Cartaz-Convocatória na Rua Gonçalo Cristóvão, Porto]