teologia para leigos

12 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 2/6


2. «agora vemos como num espelho fosco…» [1Cor 13:12]




Páscoa 2011 - Em busca dum significado para a Ressurreição

«A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, tua vitória? Onde, o teu poder? O poder da morte é a força do mal. Mas Deus, por meio de Jesus Cristo, dá-nos a vitória sobre o mal.» [1 Cor 15:55]

«Bendito seja Deus que, em sua grande misericórdia, mediante a Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos, nos fez renascer de novo para uma esperança viva.» [1 Pe 1:3]


O sentido de um acontecimento não é o mesmo que o seu significado. Com a primeira expressão buscamos uma descrição o mais precisa possível dos factos aos quais tentamos aceder. De alguma forma, o sentido pertence aos factos em si, já que ao nosso conhecimento humano só se dão ‘factos já interpretados’. O significado é algo ulterior: tem o seu quê de ‘consequência’ que aos poucos se destila dos factos. E tratando-se de um acontecimento escatológico como o que acabamos de descrever [a Ressurreição], ao qual só podemos aceder com uma linguagem simbólica (…), o significado dos factos tem que ver com aquela capacidade do «dar que pensar» que P. Ricoeur atribui aos símbolos.




Se nos interrogamos, pois, sobre o que daí advém, ou sobre o que dá que pensar o facto de Jesus ter ressuscitado de entre os mortos, surgem algumas reflexões.

         

Defesa das vítimas – É facto velho, e, contudo, desconhecido de muitos, que o significado mais primigénio da Ressurreição não está naquilo que possa ter de vitória sobre a morte, mas no facto de ser uma vitória sobre a injustiça. Vejamos dois ou três pormenores provenientes da Bíblia que podem ajudar-nos a compreender isto. (a) A morte, na Bíblia, tanto é um facto natural («regressar ao pó donde se saiu», Gn 3:19), como um castigo do pecado («pelo pecado entrou a morte no mundo», Rm 5:12). Esta ambiguidade é devedora da mesma ambiguidade que o facto morte tem. Assim, é um facto natural, mas (ao contrário do animal) o Homem vive-a como anti-natural: porque o Homem não é apenas o animal que morre, mas o que sabe que vai morrer. Vivem-no como profundamente anti-natural quando se trata, não da própria morte, mas da perda de seres queridos:  a morte parece contradizer uma certa pretensão de imortalidade que se esconde nas mais profundas experiências do amor humano. Finalmente, é um facto «natural» em abstracto, mas muitas das mortes concretas que conhecemos são profundamente anti-naturais: morte em plena juventude, após violência ilegítima, etc., ao ponto da frase de Paulo («a morte entrou no mundo pelo pecado») ser interpretada por alguns como referida à morte violenta: porque o pecado, na sua mais funda dimensão, não é mais do que um atentado contra a vida. (b) A vida nesta terra, para os crentes do Antigo Testamento, é o lugar de encontro com Deus. O salmista constata que «os mortos já não louvam o Senhor», nem a bondade do Senhor será exaltada pelos que descem à «mansão dos mortos», «na terra do esquecimento» [Sl 88:11-13]. E quando ao rei Ezequias se lhe anuncia uma grave doença, este lamenta-se: «Não mais verei o Senhor na terra dos vivos». (Is 38:11) Por este valor teologal da vida é que o povo judeu pode acreditar em Deus durante séculos sem esperar, nem conhecer outra vida.
Este valor da vida provém dos primeiros vislumbres bíblicos da ideia de Deus (do Êxodo até aos Salmos e Profetas) que vinculam intimamente Deus com a ideia de Justiça. Precisamente por isso se pressupõe que – como Deus é justo – ao homem que, nesta terra, seja justo e piedoso tudo lhe há-de correr pelo melhor. As calamidades e as desgraças serão «a herança dos malvados», porque quando Deus «se levanta para julgar» isso significa exactamente «para salvar os humildes da terra». (Sl 76:10) O homem bom prospera nos seus negócios, tem uma vida plácida e morre muito velho rodeado de filhos e netos. Vale a pena reproduzir um exemplo entre muitos que é bem significativo, concretamente uma oração que rezaram, ano após ano, muitos judeus piedosos:

«Ditoso o que teme o Senhor e segue os seus caminhos.
Comerás do fruto do teu próprio trabalho:
assim serás feliz e contente.
A tua esposa será como videira fecunda
na intimidade do teu lar,
e os teus filhos serão como rebentos de oliveira ao redor da tua mesa.
Assim vai ser abençoado
O homem que obedece ao Senhor.» [Sl 128]

No entanto, a história da fé bíblica é a história de uma aposta que vai abrindo caminho por entre a constatação repetida de que as coisas não são bem assim: àqueles a quem vai bem a vida são quase sempre os que não temem o Senhor, os que não respeitam o semelhante, os sem escrúpulos. Infinitas vezes, aos honrados as coisas correm mal, infinitas vezes eles são vítimas da opressão que enriquece os malvados. E além do mais, aos que denunciam tal situação e lutam contra ela costumam ser eliminados de forma violenta. A Bíblia está cheia de exemplos desses.

Nestas circunstâncias, como é possível acreditar em Deus? Como pode, a fé nesse Deus justo, manter-se de pé séculos após séculos? (…) O escandaloso é que a morte seja tantas vezes obra, não da natureza, mas da injustiça, que é o que de mais anti-natural existe se admitimos que, no Antigo Testamento, «a natureza» de Deus é precisamente a justiça. (c) É no contexto desta dura experiência que aparece (perto do final do Antigo Testamento) a doutrina da ressurreição final, concebida não como mera escapatória da morte, mas como o triunfo definitivo da Justiça de Deus, a qual justifica esse incontível anseio humano de que os verdugos não acabem por triunfar sobre as vítimas, numa história que, não só está tecida de vitórias de verdugos sobre vítimas, mas que além do mais é escrita pelos próprios verdugos.




Por isso, se insistiu infinitas vezes no facto de que o anúncio cristão não é simplesmente que «alguém» ressuscitou de entre os mortos (isso poderia referir-se apenas a uma vitória sobre a morte), mas que Jesus ressuscitou de entre os mortos.




E Jesus é uma vítima: a maior vítima (ou a mais inocente) da história humana. Por isso, (contra a linguagem bastante difundida na Igreja «oficial») a teologia insiste hoje, não só que a Ressurreição de Jesus não pode ser separada da sua morte, como também


 a morte de Jesus não pode ser separada da sua vida: Jesus morreu por viver como viveu, pela conflitualidade que a sua vida de homem justo desencadeou.


J I González Faus

[fotos: 1. Memorial ao Holocausto, Berlim; 2. e 4. Haiti depois do sismo]

11 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO REPENSADA [FAUS E QUEIRUGA] 1/6


1.«agora vemos como num espelho fosco…» [1Cor 13:12]



Páscoa 2011 - Contexto humano: o princípio esperança


Poucos meses antes de morrer, em 1980, e numa entrevista concedida se não me engano ao diário Le Monde, o filósofo Jean Paul Sartre reconhecia que «diante desta mixórdia miserável que o nosso planeta é, volta a atormentar-me o desespero: a ideia de que tudo terá um fim, de que só existem fins particulares por que lutar. Não existe um só objectivo humano. Nada mais que desordem». O filósofo reconhecia a necessidade de uma ética bem fundada. E confessava: «(diante do desespero) resistirei com a máxima justiça e sei que morrerei na esperança, uma esperança, contudo, que é necessário fundamentar-se».

Não se tratam de especulações filosóficas ininteligíveis, mas de algo que marca profundamente toda a nossa condição humana e que tentamos redizer duma maneira mais universalizável:

·       O triunfo da morteQuanto sofrimento até morrer», dizia o poeta. Ou, com as palavras mais sóbrias de Sartre: «Tudo acabará»).
·       O triunfo do verdugo (ainda por cima, é ele que acaba por escrever a História). Com as palavras de Sartre: o desespero diante da «mixórdia miserável do nosso planeta onde só existem fins particulares e nenhum objectivo humano».
·       O triunfo do fracasso, ou a derrota das utopias, pois que, ao fim e ao cabo, a realidade acaba por se impor («Nada mais que desordem»).

Estas três grandes questões – a morte, a injustiça e a utopia – marcam a vida e a história humanas e clamam por uma razão positiva que nos permita acreditar que a esperança não é mero voluntarismo cego que não pára de semear a vida com vãs promessas. A grandeza das declarações de Sartre provém precisamente da fé em que, resistir a essa dinâmica, é uma questão de «justiça» e que há que «manter a esperança». Pois, render-se de antemão ante a evidência de que essas questões não têm solução, acaba por significar, por um lado, o embrutecimento a que chegaram as pessoas, e, por outro, aceitar que a sociedade humana no seu conjunto se degrade ao nível duma mixórdia mais do que miserável. Ou, por outras palavras: a resistência a essa tríplice lei não prova que ela não seja verdadeira. Mas mostra, isso sim, que é inaceitável.

Será demasiado pessimista esta descrição do nosso contexto humano? Não será possível prescindir dele e viver «relativamente bem»? Permitam-me um par de pinceladas para me explicar melhor.

A morte acaba por ter a última palavra. O decisivo não é morrer, mas saber que se morrerá. O problema não é como é que a morte influirá quando chegar (nessa altura já cá não estarei), mas como influencia agora que sei que virá, sendo certo que o esquecimento disso mesmo é já uma forma de influenciar. Pois que a reacção «se só temos quatro dias para viver, então vivamo-los…» é sem dúvida a que mais convida a fechar os olhos diante do que quer que seja e a abri-los apenas para si próprio.

A História acaba sempre por ser escrita pelos vencedores. Os vencedores dão sempre por assente que a sua causa é a mais justa e que, com eles, a justiça sempre triunfa. Mas acabam sempre por esconder, não só a parcialidade da sua possível justa causa, bem como os meios injustos e cruéis que são imprescindíveis para que qualquer causa triunfe, o que acaba por desautorizá-la. A patética imagem do presidente Aznar, defendendo quase aos gritos a sua colaboração na barbárie da NATO no Kosovo, já que «havia sido um êxito» (enquanto o criminoso Milosevic permanecia no seu posto, o país que não era culpado de nada ficava destruído e os ódios alcançavam níveis quase incuráveis) parece-me uma imagem da humanidade universal e não apenas o ridículo dum personagem particular.

A realidade impõe-se. Lembremos a trajectória de tantos amores eternos que acabam sendo bons guiões para filmes como American Beauty. Lembremos a decepção de tantas ilusões profissionais juvenis. Recordemos aquele ministro que exortava os jovens a não cometerem os erros que ele cometeu, ele que tinha sido comunista na juventude, até que conseguiu descobrir o verdadeiro progresso… Recordemos também a frase de T. Adorno – que mais tarde retomaremos – sobre a necessidade de olhar as coisas «a partir da utopia», caso queiramos pensar correctamente. A utopia, essa impossível ânsia humana de plenitude. Quando se põe de parte esse ponto de vista, toda a crítica se torna impossível (salvo a que serve para insultar o adversário e engordar à custa dele). Cai-se na canonização de todas as coisas.

Está na moda dizer mal das utopias. Mas quando morrem as utopias nascem as idolatrias ou pequenas causas legítimas convertidas em absoluto, às quais acabamos por oferendar sacrifícios humanos. A própria defesa absoluta da vida é já uma utopia, a única que parece sobejar nos tempos que correm. Mas pensemos no que aconteceria se, reconhecendo-a como tal (como utopia), deixássemos de olhar as coisas a partir do valor absoluto da vida.

Morte, injustiça, frustração. Se quisermos, acrescentemos a estes três aspectos do nosso viver, a aparente irreversibilidade da vida. Jaime (30 anos, vítima da heroína e da SIDA) dizia-me poucos dias antes de morrer: «Não sou uma pessoa religiosa, mas a vida é mesmo canalha: erras uma vez e já não tens remédio. Foi o que me aconteceu a mim». Procurei garantir-lhe que, não a dimensão religiosa, mas a dimensão crente da pessoa humana implica a confiança de que sempre ‘haverá um jeito’ para o que quer que tenha sido a sua vida. E que foi isso mesmo que muitos reconheceram em Jesus de Nazaré. (…)

Basta a evocação destes problemas.
Fiquemos, por agora, apenas com esta conclusão: é enormemente humana a pergunta se em algum lugar alguma vez aconteceu uma vitória ou uma palavra que proclamasse decisivamente a desautorização da morte esmagando-lhe todo o poder, se aconteceu a desautorização dos vencedores reabilitando as suas vítimas e a desautorização da realidade que sempre acaba por vingar. Esta é uma pergunta profundamente humana, mesmo que não lhe saibamos dar uma resposta. Porque, só à custa do rebaixamento do seu nível e da sua qualidade de vida, é que o ser humano poderia iludir esta questão.

José Ignacio González Faus, sj, responsável pelo Centro de Estudos ‘Cristianisme i Justícia’ [Barcelona]


VÍDEO: o Mundo como um atoleiro, a Humanidade como gado


[foto pb: mural em Checkpoint Charlie, Berlim]

10 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO DE LÁZARO, ACTUALIZADA


Lázaro, sai fora dessa «vida» e vai, vai…




Há momentos na vida em que não há mais nada a fazer: diante do peso da inevitabilidade (por ex.: uma doença muito grave de alguém muito próximo de nós), pouco nos sobra a não ser «chorar com os que choram». Raniero Cantalamessa diria: «partilhar o pão das lágrimas». Sem dúvida: estar lado a lado. Jorge Mayer diria: «apenas, abraçar quem sofre».
Sem dúvida – diante das situações NATURAIS, nada mais há que importe. Deus não faria mais, nem melhor! Sem dúvida.

Mas diante do «mal voluntário», do mal premeditado, do mal inventado pela mente humana, diante da maldade como «quebra da eticidade», como «responsabilidade assumida pela desintegração do humano» [Marciano Vidal], diante do mal como expressão da liberdade (humana)… nesse caso, Deus faria mais e melhor. Deus denunciaria! Deus apontaria o dedo, Deus não deixaria que os culpados se escondessem por trás de um qualquer discurso político justificativo, por trás de uma qualquer catequese ou qualquer discurso teológico anódino, por trás de uma qualquer desculpa pessoal, à defesa, comodista. Mais: Deus daria a própria vida!

E foi o que fez!

O relato da Ressurreição de Lázaro [Jo 11:1-57] contém essas duas situações: a força do mal-natural e a força do mal-intencional. Diante da primeira, Jesus não se perturba, não 'perde o pé', não descompensa (v.6 – depois de saber que Lázaro estava gravemente doente, «Jesus ainda se demorou dois dias»). Depois, chora (v.33 - «Jesus comoveu-se profundamente»). Diante da segunda, Jesus não fica paralisado, nem muito menos resignado (v.7b - «Vamos outra vez à Judeia»). E, no entanto, sabia do perigo de vida que corria… Sabia-o, mas seria cínico se não subisse a enfrentar o perigo não-natural que a situação política adensava à sua volta [Jo 10:39 - «Por isso procuravam de novo prendê-lo»].

Com o seu grito «Lázaro, vem cá para fora!», ou seja, «Lázaro, rompe com as lianas da morte e volta à Vida que vale!», Jesus queria deixar claro a todo o auditório (que era grande – v.33 e 45 – e estava suspenso da Sua coragem): rompam com a resignação diante do mal perpetrado, rompam com as leis da opressão que nos atam por dentro e por fora, rompam com a injustiça neo-liberal, rompam com a cobardia do fatalismo, rompam… quebrem todas as cadeias, incluindo as cadeias das 'falinhas mansas' e das suporíferas 'escapadinhas'! 




Rompam as cadeias políticas, as económicas, as religiosas, as da convivialidade social sem tempo-livre esganado pelas preocupações do trabalho ou baseadas em padrões burgueses ao estilo «condomínio fechado» (‘etiqueta e boas maneiras’). NADA A TEMER, diz Jesus. Rompam com o «nasce, trabalha, compra, morre»! Jesus diz: «Desligai-o e ele que vá. Que suba para o Alto!» [Jo 11:44], para a Vida Plena! ROMPAM (velhas) LIANAS E CRIEM (novos) LAÇOS! Dirigindo-se, assim, aos que estavam ali a assistir ('Desligai-o vós'), Jesus mete-os também em sarilhos, força-os a deixar de ser neutrais, obriga-os a entrar na cadeia da solidariedade para com o outro, obriga-os a comprometerem-se, a meter as mãos na massa, a dizer claramente de que lado estão: se do lado da morte (político-religiosa) ou se do lado da vida (plena: ética, social, económica, política, cordial). Quem se abeire de Jesus está tramado: jamais sairá como entrou… Foi o que aconteceu a Lázaro!


Ao lado de Jesus, a Comunidade Primitiva (representada aqui por Lázaro, Marta, Maria e pelos chamados 'tementes a Deus'; Betânia=«BETH-ANAWIN»: 'CASA DE POBRES') aprendeu o que é passar da morte à vida-plena. E aprendeu-o AQUI E AGORA (Jo 12:1) no seu caminhar nesta terra, e muito mais neste tempo histórico de perseguição (v.54 - 'tempo de fuga a resistir no deserto') e não depois deste mundo (v.24 – ou, como à época se dizia , «na ressurreição do último dia», no fim dos tempos, no fim da História da Humanidade, numa Escatologia solteira). Todo o auditório da Comunidade Primitiva aprendeu (auditório AINDA  dividido  e de Fé frágil), todo o auditório o percebeu. Todo, não: muitos!, mas não todos (v.45), pois alguns (v.46) revelaram-se delatores, porque 'Jesus divide os auditórios', mesmo os auditórios da Igreja Católica. Para Jesus, para o Evangelho, a solução nunca foi a fuga aos problemas políticos e sociais... e a busca de refúgio no «túmulo de betão» de uma pseudo-vida religiosa qualquer (aqui representada pelas 'ligaduras' e 'sudário'). Para Jesus a solução passa sempre por três caminhos, que são, entre si, massa e argamassa: a compaixão solidária («comoveu-se profundamente»), a busca de mudanças esperançosas nesta vida («desatai vós») e a alimentação contínua da Esperança na Oração Comunitária, Comunicante e Colectiva («erguendo os olhos ao céu», v.41).

As catástrofes naturais (a morte por doença natural, por ex., a de Lázaro) são a única inevitabilidade que conheço. A austeridade que ‘todos’ nos apregoam na TV (e com que outros consentem calando) não é nenhuma inevitabilidade - é «manha humana» sobreponível à manha dos sumo-sacerdotes e fariseus. Impõe que tomemos partido também, e procuremos ‘saídas para a crise’. Impõe que sejamos determinados como Marta foi determinada diante da 'sua crise'; que NÓS sejamos também determinados em procurar 'saídas para a nossa actual crise' (v.21)!

«Que os educadores eduquem TODOS para a paz e o respeito digno, que os políticos governem TODOS para a justiça, que os trabalhadores trabalhem para o bem de TODOS… que TODOS possamos viver para a concórdia, condenando a violência de maneira radical, total…» [X. Pikaza]


«Para viver à custa da morte dos outros, há que matar os que choram com os que choram e promovem a vida plena.» (Jo 11:57) [X. Pikaza] Por isso, alguns dum certo 'Portugal dos Pequeninos' diziam/dizem que as medidas do PEC-4 «pecam por defeito…», querem mais sangue, exigem mais mortos! Há quem, em Portugal, precise de viver à custa da morte de outros (para que a conta dos banqueiros engorde), tal como os fariseus e sumos-sacerdotes no tempo de Jesus (para que a conta do Templo engordasse).

«A palavra de Jesus: ¡«Lázaro, sai fora!», é um princípio de esperança, mas também de compromisso com a justiça neste mundo.» [X. Pikaza] 


pb\
[foto pb: «nasce, trabalha, compra, morre», mensagem mural na Travessa da Fontinha, Santo Ildefonso, Porto]

9 de abril de 2011

CONTESTAÇÃO AO «ARCO DA GOVERNAÇÃO»


POLÍTICAS DE DESIGUALDADE GERAM DESESPERO
O DESESPERO É MAU CONSELHEIRO
«NOSSA FORMA DE POLÍTICA É A ACÇÃO DIRECTA»


 O arco da austeridade
por Sandra Monteiro

Na sequência da reprovação pelas oposições parlamentares do quarto programa de estabilidade e crescimento (PEC IV), o governo demitiu-se e estão agora marcadas eleições legislativas para o dia 5 de Junho. Com a dissolução da Assembleia, depressa os meios de comunicação social foram inundados por considerações sobre a responsabilidade, ou falta dela, de se juntar uma crise política às outras crises que já afectam o país. Mas será possível enveredar pelo austeritarismo, que está hoje no centro das recomposições que a crise impôs nas clivagens políticas, e escapar a alguma das dimensões da crise que esse programa aprofunda, quando ainda por cima as diversas dimensões da crise actuam umas sobre as outras?
No fogo cruzado das acusações sobre a dissolução do Parlamento, marcadas por uma fulanização que prenuncia já a ligeireza política do debate que aí vem, tiveram de passar vários dias até que os media recentrassem a informação em matéria relevante para compreender o que se passava. Quando Pedro Passos Coelho publicou um artigo no The Wall Street Journal [1], destinado a tranquilizar os «mercados internacionais» quanto ao sentido da votação do seu partido, lá se disse aos portugueses que o Partido Social Democrata (PSD) se recusou a viabilizar o mais recente PEC por entender que as propostas de austeridade do governo «não iam suficientemente longe».
O «arco austeritário», de que fazem hoje parte o Partido Socialista (PS) e as formações à sua direita, mantinha-se portanto intacto. De facto, para se observar as fendas que abrem por toda a parte, o sítio para onde se deve olhar é para a vida concreta das pessoas que são atingidas pelas políticas de austeridade.
É aí que o desemprego e a precariedade, os baixos salários e a degradação dos serviços públicos e do Estado social, já em curso ou em projecto, revelam o verdadeiro rosto da tão falada «oportunidade» que a crise representa: para o neoliberalismo, a resposta austeritária é um salto de gigante no sentido da regressão social e da exploração laboral.
Este programa, que constrói sociedades cada vez mais marcadas por desigualdades socioeconómicas, como acontece em Portugal, é indissociável de um processo de financeirização das economias no âmbito do qual os Estados desistiram do controlo político dos mercados e aceitaram ser seus dependentes. É também indissociável, no caso dos países europeus, e sobretudo das economias periféricas, da aceitação de uma integração desastrosa na União Europeia que hoje constrange enormemente quaisquer possibilidades de recuperação.
Mas este programa seria também incompreensível sem a capacidade que os meios de comunicação social têm hoje de delimitar o campo do possível, afunilando o pluralismo de perspectivas e generalizando, no caso vertente, a ideia de que não há resposta viável à crise que não seja a austeridade. Não o fazem discutindo as vantagens e as desvantagens dessa resposta, convocando para o debate os seus defensores e os seus opositores. Fazem-no pressupondo que o austeritarismo é um campo consensual (mesmo que desagradável...) e, mais ainda, que é o único quadro possível e realista para a governação do país.





É isso que explica, por exemplo, que as referências na comunicação social ao que podia ser chamado um «arco da austeridade» surjam sempre na forma de «arco da governação». Mais do que exprimir a vontade de quem se opõe à austeridade de participar ou não na governação, este discurso sinaliza que esse arco não admite os anti-austeritários. É aliás curioso o modo como, recentemente, até se tem generalizado mais a expressão «arco da governabilidade». Já não se trata apenas de identificar os que terão direito a aceder à governação, mas de definir quem é que, uma vez lá chegado (e, em rigor, nunca se sabe que surpresas as eleições reservam), poderá ter condições de assegurar a «governabilidade», isto é, garantir alguma estabilidade nacional e internacional na condução das políticas.





Não deixa de ser paradoxal para a democracia que seja justamente quando a crise chega à política e quando a instabilidade, estrutural ao funcionamento do neoliberalismo, ameaça traduzir-se também em processos eleitorais mais frequentes, que os cidadãos estejam a ser chamados para eleger representantes que, a menos que contestem os caminhos da integração nacional na União Europeia, e a relação desta com instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), terão uma fraquíssima autonomia de decisão política.
Por outro lado, cada vez que o espaço mediático é ocupado, sem contraditório, por quem recorre a todos os dispositivos retóricos para encobrir os (evitáveis) efeitos corrosivos da austeridade e para insistir nas vantagens de ter no poder o «arco da governabilidade», é caso para pensar nas consequências que poderá ter para a estabilidade de todo este edifício comunicacional um escrutínio cidadão continuado das respectivas práticas jornalísticas e representações da sociedade.

É caso também para pensar na importância que os movimentos populares e toda a luta no terreno social poderão ter, neste contexto político-económico,





para impedir que em breve sejamos todos confrontados com uma outra dimensão da crise, tão anunciada quanto a social e a política, que é a da corrosão dos laços de confiança e de solidariedade que tende a desintegrar as comunidades
onde se permite o aprofundamento imoral das desigualdades, num fosso que de um lado acumula arrogância e do outro sofrimento. Que neste mês de Abril, 37 anos depois de a democracia ter saído à rua, os portugueses saibam recuperar, na contestação ao «arco da austeridade», o que essa contestação representa de mais nobre:

a defesa do «espírito da igualdade».
 
Sandra Monteiro,7 de Abril de 2011

Notas: [1] «Our Plan to Fix Portugal», The Wall Street Journal, Nova Iorque, 30 de Março de 2011

in, Le Monde Diplomatique, Abril 2011. Edição em português.

 [foto PB: Cartaz-Convocatória na Rua Gonçalo Cristóvão, Porto]

CARACTERIZAÇÃO DAS DESIGUALDADES [RENATO M. DO CARMO]


Como podemos sair daqui?
[lembrando a Fara Diva, a Carla Marques e todos os outros «jovens atraiçoados» pelos responsáveis políticos das duas gerações anteriores; estudam e trabalham e não ganham mais de 300 euros por um horário semanal de 35h]



«Sair da precariedade para o futuro»


ANTENA-1: a entrevista-audio dura 10m 43s e já é de 25:XI:2010 (ouça-a aqui):



«(…) Na verdade, como tem sido analisado pela equipa do Observatório das Desigualdades [http://observatorio-das-desigualdades.cies.iscte.pt], o volume do trabalho considerado temporário (que engloba fundamentalmente os vínculos de contrato a termo e outras situações, como os recibos verdes) tem vindo a ganhar um peso considerável no conjunto da população trabalhadora.

«Segundo os dados do Eurostat, no terceiro trimestre de 2010, cerca de 23% dos trabalhadores por conta de outrem encontram-se nesta situação (só a Espanha e a Polónia nos ultrapassam). Tendo por base esta fonte, o número de pessoas afectadas pela precariedade afectará, aproximadamente, 850 mil a 900 mil trabalhadores. [valor que peca por defeito, como se justifica neste artigo] (…)

«Tendo em conta a diversidade de modalidades de contratação, que se torna ainda mais nebulosa com a ambiguidade inerente à contratação por recibos verdes, não será muito arriscado considerar que cerca de um quarto [25%] da população trabalhadora por conta de outrem se encontra numa situação de precariedade laboral. (…)

«Além da questão contratual, convém abordar também uma das outras dimensões da precariedade a que se tem aludido: o problema dos baixos salários. Este dado é um dos traços mais marcantes da nossa economia e que tradicionalmente atingia, como continua a atingir, os trabalhadores menos qualificados. Em 2009, a remuneração base média dos trabalhadores jovens (até aos 24 anos) do sector privado cifrava-se nos 912 euros para licenciados e nos 537 euros para os não-licenciados. É claro que estamos a falar de valores médios que são relativamente baixos para ambos os casos, mas a diferença não deixa de ser considerável.

«Muitos dos testemunhos recolhidos» [no âmbito dum estudo do ‘O.D.’ orientado por NUNO ALVES, com base em 80 entrevistas a jovens precários]  referem que «a precariedade é, acima de tudo, um modo de vida que interfere nos diversos sectores do quotidiano, mas também na maneira como se percepciona o futuro. (…) O futuro surge como algo fechado e muito imprevisível. (…)


[o articulista passa a laborar perspectivas de mudança e de evolução a partir da ideia de que o nível de escolarização da população portuguesa é o elemento decisivo para a mudança]


«Quer isto dizer que se errou no alvo, que toda essa política [de escolarização] foi em vão? A resposta só pode ser negativa. Do meu ponto de vista, em termos gerais, este era e foi o caminho adequado. O problema é que, em si, a densificação do capital humano é uma condição necessária mas não suficiente para que o desenvolvimento de concretize de forma sustentável e estruturante. Na verdade, era preciso algo mais ter acontecido … E aí todos os governos falharam. Em meu entender, teria sido fundamental que o incremento em capital humano tivesse sido acompanhado por uma efectiva política redistributiva. Nada justifica o facto de Portugal continuar a ser um dos países mais desiguais da Europa, detendo níveis de disparidade salarial e de rendimento verdadeiramente escandalosos. Numa sociedade estruturalmente desigual como a nossa, os trajectos de mobilidade social continuam a ser fortemente determinados pelo peso da herança social e cultural e não pela capacidade e pelo mérito individuais.

«É extraordinário observar como muitos dos nossos mais conhecidos comentadores, arautos da meritocracia, olvidam constantemente o problema das desigualdades sociais. Como se este fosse um mal menor. Não, meus senhores, é precisamente o contrário do que pensam: as desigualdades são um mal maior e são elas que explicam, em grande parte, o estado a que chegamos. (…)

«O nível de escolarização da população empregada ainda é muito baixo: mais de dois terços não ultrapassa o 9º ano de escolaridade. Nesse sentido, é importante intensificar a aposta na aprendizagem ao longo da vida, procurando que muitas pessoas em idade activa regressem à escola. Também é fundamental diversificar os alvos da formação profissional e, a título de exemplo, pensar num programa específico para os nossos empresários que mantêm graus de escolarização muito baixos. Simultaneamente, é urgente promover políticas de carácter redistributivo.




Enquanto o problema das desigualdades persistir dificilmente teremos condições para nos tornarmos uma economia competitiva e sustentável (para utilizar alguns dos jargões do mainstream económico).

«(…) Um outro caminho relaciona-se com uma política que incida no apoio a pequenos e médios projectos e que tenha o mérito de ir ao encontro das potencialidades sociais, culturais e económicas que caracterizam muitos estratos da população portuguesa, nomeadamente, os mais jovens.» [nomeadamente, no âmbito das iniciativas comunitárias como a EQUAL e o programa LEADER]

Renato Miguel do Carmo
Investigador auxiliar do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa e membro da equipa coordenadora do Observatório das Desigualdades.
in, Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Abril 2011, p. 24

[fotos pb: (1) Largo Moinho de Vento - PORTO; (2) «Sonja», por Christian Schad (1894-1982), 'Neues Museum', Bodestrasse, Berlim; (3) «casco histórico» - interior de moradia muito degradada, em S. Nicolau, Porto]






6 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO DE LÁZARO


Tirar as pedras
 

           
          Depois de um incêndio numa floresta a morte ganha uma expressão visual tremenda. A aflição do fogo devorador dá lugar ao silêncio e ao coração apertado. Lembro-me de ter andado, há anos, pelo meio de cinzas e arbustos carbonizados depois um incêndio na serra da Arrábida. O céu azul e o sol pareciam envergonhados perante aquela desolação. Mas, de repente, por entre o negro e a cinza, junto a um tronco queimado, um rebento verde ousava desafiar aquele espectáculo de morte. Frágil, aparentemente impotente, era um grito de vida espantoso. Como me lembro tanto do poema do Sebastião da Gama que começa assim: Que a Morte, quando vier, / não venha matar um morto”!   

          Há mortes e mortes, e cada uma é única, e todas nos incomodam. Não temos palavras para esses momentos. O abraço, as lágrimas, as mãos apertadas trocam-se em silêncio. Não é a presença a melhor palavra de amor e comunhão? Verdadeiramente não nos habituaremos à morte (e ainda bem, porque ela não é o nosso fim) mas como abraçamos a vida? Como juntamos forças para retirar as pedras que fazem sepulcros antes de tempo? O que fazemos para vencer o desânimo que deixa cair os braços ou fecha cada um no seu casulo? Que ressurreições estão ao nosso alcance?

          Por entre a burocracia em que se transformou, por exemplo, muito do esforço de educar, há testemunhos de quem não se acomoda à exigência dos números ou dos papéis. Procuram “tirar as pedras” que encerram capacidades, energias, confiança, sonhos, valor próprio, de tantas crianças e jovens. Um de cada vez, à maneira de madre Teresa de Calcutá e de Jesus (que ligava pouco a números, excepto na compaixão por todos), aproximando-se com a delicadeza que a “raposa” ensinou ao “Principezinho”, talvez até sentando-se no chão em companhia inesperada, agem para evitar a ”morte anunciada” de meninos e meninas pouco amados. Não pedem nada em troca, dói-lhes apenas a “funcionalização” do educar, como se fosse mais uma pequena “morte”. Ressuscitar é acção de Deus, mas reanimar, restaurar a confiança, levantar quem caiu, promover quem é excluído, recriar a dignidade e o valor que cada pessoa tem, procurar em comum razões de esperança e de vida, tudo isto é tarefa nossa!

          Gosto deste pedido de Jesus: “Tirai a pedra”! Ainda que “já cheire mal(quando tudo já parece perdido), é preciso “ser vivo” até ao fim. Pedras de indiferença e exclusão, de egoísmo e auto-suficiência. Pedras de dentro e de fora. Ressuscitar não é uma tarefa solitária: precisamos de Deus e também Ele precisa de nós!
           

À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO V DA QUARESMA

“Disse Jesus: ‘Tirai a pedra”.” [Jo 11, 39]

[foto pb: Basílica de S. Pedro - Império da Fé, 2009]

5 de abril de 2011

DESIGUALDADES SOCIAIS E FELICIDADE - TONY JUDT


CAPÍTULO V
«Que fazer?»



Tony Judt, em UM TRATADO SOBRE OS NOSSOS ACTUAIS DESCONTENTAMENTOS [Ed. 70, Grupo Almedina, 32 euros, ISBN 978-972-44-1632-8] nas cerca de 25 das 219 páginas do seu livro, tenta explicar o que se está a passar para poder propor sugestões que ajudem a encontrar uma saída consistente para a situação política e económica do capitalismo ocidental.
1.Começa por reconhecer, nestas últimas décadas,  o desaparecimento da actividade intelectual autónoma. «Infelizmente, os intelectuais contemporâneos têm revelado uma surpreendente falta de interesse informado na essência da política pública» (…) «Isso relegou para os especialistas políticos e os think tanks – junto dos quais raramente tem lugar a opinião não convencional – os debates sobre o modo como nos devemos governar.» «Até os intelectuais se curvaram à guerra do Iraque.» Ficamos, portanto, diante de questões que «são assuntos para especialistas» a ser abordados com uma «linguagem cada vez mais obscura». «A liturgia deve ser entoada numa língua misteriosa, só acessível aos iniciados. Para todos os demais, basta a fé.»

2.Donde a tentação da via do «apolítico» - «a ideia de que já que a política está tão degradada na nossa época, devíamos desistir dela.» (…) «O impulso moral é inatacável. Mas as repúblicas e as democracias existem em virtude do empenho dos seus cidadãos na gestão dos assuntos públicos. Se os cidadãos activos ou preocupados abdicarem da política, estarão assim a abandonar a sua sociedade aos seus funcionários públicos mais medíocres e venais.» (…) «Quando na Alemanha Ocidental dos anos 60 os jovens radicais perderam todo o respeito pela República Federal e pelo Bundestag (parlamento), formaram «grupos de acção extraparlamentar»: precursores do terrorismo desorientado do Bando de Baader-Meinhoff.»

3.Tony Judt constata a supressão do debate de ideias [indispensável ler os 4 Artigos do dossiê  «QUE SE APRENDE NAS UNIVERSIDADES?», Courrier International, Set 2010, edição em português, nº175, 3,5 euros; onde se mostra como a Educação e o Ensino Universitário (nos USA, na Europa e até na índia) foram forçados a estar ao serviço do «crescimento económico» e como se estupidificaram, quer alunos, quer investigadores universitários, que passaram a ‘seres humanos de espinha partida’ muito próximos dos autómatos, nos quais deixou de existir o «espaço potencial», aquela zona intermédia entre a pessoa e o exterior, precisamente aí onde a criança e o adulto experimentam a noção de diversidade, de curiosidade e de inventividade imprescindíveis para «a originalidade, a produtividade e o crescimento económico»]. Impressiona a arrepiante anomia dos pensadores-intelectuais e dos professores universitários diante de duas questões: (a) a de que “não há almoços grátis” (vide João César das Neves, Universidade Católica Portuguesa), de que tudo tem um ‘valor de mercado’, de que tudo foi subjugado à contabilidade e, pour cause, todos os seres humanos foram humilhados a ser apenas parte da matemática neo-liberal reinante. (b) a de que os Serviços Públicos também têm que ‘dar lucro’ (não podem dar prejuízo contabilístico, não podem ser despesa do Estado). O pensamento intelectual forjou um discurso acrítico assente nessa lógica económica que nos traz ao colo desde os anos 60 e em quem nós fomos entregando o voto ano após ano sem nos darmos conta de que ele se consolidava à custa da expansão e massificação dos media fortemente alicerçados na ‘imagem’ e no ‘show’; show do entretenimento televisivo desprovido de verdadeira ‘comunicação’ e da miserável passividade intelectual que agora nos está a custar caríssimo. [um padre meu amigo dizia-me há tempos: «se já há quem pense, para quê pensar?»]

4.Tony Judt apela a «uma nova narrativa moral?». Diz ele: «Portanto, o que fazer? Que espécie de enquadramento político ou moral pode a esquerda propor para explicar e justificar os seus objectivos? Já não existe espaço para a narrativa de base ao estilo antigo: a teoria abrangente de tudo. Nem nos podemos refugiar na religião. (…) Se uma política pública estivesse a ser justificada com base teológica» (…) «muita gente no Ocidente ficaria perplexa». Mas «para convencer outros de que algo é correcto ou errado, precisamos de uma linguagem de fins, e não de meios. Não temos de acreditar que os nossos objectivos estão prestes a ter sucesso. Mas precisamos de poder acreditar neles. O cepticismo político é a fonte de tantos dos nossos dilemas.» Perdemos, diz Tony Judt, as noções de «justo», de «razoável», de «aceitável», «a noção de prudência», de compromisso moral, que nos permita afirmar com convicção que «é preciso algum tipo de restrição mútua» se queremos levar a sério todos os nossos desejos. É que «os fins colectivos podem conter objectivos concorrentes».

5.No último parágrafo do capítulo V, Tony Judt afirma: «De todos os objectivos concorrentes e só em parte conciliáveis que possamos procurar, a redução da desigualdade deve ter prioridade. Em condições de desigualdade endémica, todos os outros objectivos desejáveis tornam-se difíceis de obter.» (…) «Neste sentido, o acesso desigual a recursos de toda a espécie – dos direitos à água  – é o ponto de partida de qualquer crítica verdadeiramente progressista do mundo. Mas a desigualdade não é só um problema técnico. Ela ilustra e exacerba a perda de coesão social – a sensação de viver numa série de comunidades vedadas cujo objectivo principal é manter os outros (menos afortunados que nós) do lado de fora e limitar as nossas vantagens a nós e às nossas famílias: uma doença da época e a maior ameaça à saúde de qualquer democracia.» [ver: “Um só mundo – a ética da globalização”, Peter Singer, Gradiva]

«Se continuarmos grotescamente desiguais, perderemos toda a noção de fraternidade: e a fraternidade, apesar de toda a sua tolice como objectivo político, revela-se a condição necessária da própria política. Há muito que o inculcamento de um objectivo de vida comum e dependência mútua é considerado a cavilha de segurança de qualquer comunidade. Agir juntos com um propósito comum é origem de enorme satisfação em tudo, dos desportos amadores aos exércitos profissionais. Nesse aspecto, sempre soubemos que a desigualdade não é só moralmente inquietante: é ineficaz. (…)

«Uma população menos estratificada é também uma população mais bem instruída: melhorar as oportunidades dos que estão em baixo não reduz em nada as perspectivas dos que estão bem de vida. E populações mais bem instruídas não só levam vidas melhores, como se adaptam melhor e com menos custos a mudanças técnicas perturbadoras. Existem muitas indicações de que mesmo os que prosperam em sociedades desiguais seriam mais felizes se o fosso que os separa da maioria dos seus concidadãos se reduzisse de maneira significativa. Decerto viveriam mais seguros. Mas isso envolve mais do que o mero interesse próprio: viver na proximidade de pessoas cuja situação constitui uma censura ética permanente é fonte de desconforto até para os ricos.»

«As consequências corrosivas da inveja e do ressentimento…».

«O egoísmo é incómodo até para os egoístas.»

«Chegou a altura de inverter esta tendência.»

[pp. 152-177]