teologia para leigos

9 de abril de 2011

CARACTERIZAÇÃO DAS DESIGUALDADES [RENATO M. DO CARMO]


Como podemos sair daqui?
[lembrando a Fara Diva, a Carla Marques e todos os outros «jovens atraiçoados» pelos responsáveis políticos das duas gerações anteriores; estudam e trabalham e não ganham mais de 300 euros por um horário semanal de 35h]



«Sair da precariedade para o futuro»


ANTENA-1: a entrevista-audio dura 10m 43s e já é de 25:XI:2010 (ouça-a aqui):



«(…) Na verdade, como tem sido analisado pela equipa do Observatório das Desigualdades [http://observatorio-das-desigualdades.cies.iscte.pt], o volume do trabalho considerado temporário (que engloba fundamentalmente os vínculos de contrato a termo e outras situações, como os recibos verdes) tem vindo a ganhar um peso considerável no conjunto da população trabalhadora.

«Segundo os dados do Eurostat, no terceiro trimestre de 2010, cerca de 23% dos trabalhadores por conta de outrem encontram-se nesta situação (só a Espanha e a Polónia nos ultrapassam). Tendo por base esta fonte, o número de pessoas afectadas pela precariedade afectará, aproximadamente, 850 mil a 900 mil trabalhadores. [valor que peca por defeito, como se justifica neste artigo] (…)

«Tendo em conta a diversidade de modalidades de contratação, que se torna ainda mais nebulosa com a ambiguidade inerente à contratação por recibos verdes, não será muito arriscado considerar que cerca de um quarto [25%] da população trabalhadora por conta de outrem se encontra numa situação de precariedade laboral. (…)

«Além da questão contratual, convém abordar também uma das outras dimensões da precariedade a que se tem aludido: o problema dos baixos salários. Este dado é um dos traços mais marcantes da nossa economia e que tradicionalmente atingia, como continua a atingir, os trabalhadores menos qualificados. Em 2009, a remuneração base média dos trabalhadores jovens (até aos 24 anos) do sector privado cifrava-se nos 912 euros para licenciados e nos 537 euros para os não-licenciados. É claro que estamos a falar de valores médios que são relativamente baixos para ambos os casos, mas a diferença não deixa de ser considerável.

«Muitos dos testemunhos recolhidos» [no âmbito dum estudo do ‘O.D.’ orientado por NUNO ALVES, com base em 80 entrevistas a jovens precários]  referem que «a precariedade é, acima de tudo, um modo de vida que interfere nos diversos sectores do quotidiano, mas também na maneira como se percepciona o futuro. (…) O futuro surge como algo fechado e muito imprevisível. (…)


[o articulista passa a laborar perspectivas de mudança e de evolução a partir da ideia de que o nível de escolarização da população portuguesa é o elemento decisivo para a mudança]


«Quer isto dizer que se errou no alvo, que toda essa política [de escolarização] foi em vão? A resposta só pode ser negativa. Do meu ponto de vista, em termos gerais, este era e foi o caminho adequado. O problema é que, em si, a densificação do capital humano é uma condição necessária mas não suficiente para que o desenvolvimento de concretize de forma sustentável e estruturante. Na verdade, era preciso algo mais ter acontecido … E aí todos os governos falharam. Em meu entender, teria sido fundamental que o incremento em capital humano tivesse sido acompanhado por uma efectiva política redistributiva. Nada justifica o facto de Portugal continuar a ser um dos países mais desiguais da Europa, detendo níveis de disparidade salarial e de rendimento verdadeiramente escandalosos. Numa sociedade estruturalmente desigual como a nossa, os trajectos de mobilidade social continuam a ser fortemente determinados pelo peso da herança social e cultural e não pela capacidade e pelo mérito individuais.

«É extraordinário observar como muitos dos nossos mais conhecidos comentadores, arautos da meritocracia, olvidam constantemente o problema das desigualdades sociais. Como se este fosse um mal menor. Não, meus senhores, é precisamente o contrário do que pensam: as desigualdades são um mal maior e são elas que explicam, em grande parte, o estado a que chegamos. (…)

«O nível de escolarização da população empregada ainda é muito baixo: mais de dois terços não ultrapassa o 9º ano de escolaridade. Nesse sentido, é importante intensificar a aposta na aprendizagem ao longo da vida, procurando que muitas pessoas em idade activa regressem à escola. Também é fundamental diversificar os alvos da formação profissional e, a título de exemplo, pensar num programa específico para os nossos empresários que mantêm graus de escolarização muito baixos. Simultaneamente, é urgente promover políticas de carácter redistributivo.




Enquanto o problema das desigualdades persistir dificilmente teremos condições para nos tornarmos uma economia competitiva e sustentável (para utilizar alguns dos jargões do mainstream económico).

«(…) Um outro caminho relaciona-se com uma política que incida no apoio a pequenos e médios projectos e que tenha o mérito de ir ao encontro das potencialidades sociais, culturais e económicas que caracterizam muitos estratos da população portuguesa, nomeadamente, os mais jovens.» [nomeadamente, no âmbito das iniciativas comunitárias como a EQUAL e o programa LEADER]

Renato Miguel do Carmo
Investigador auxiliar do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa e membro da equipa coordenadora do Observatório das Desigualdades.
in, Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Abril 2011, p. 24

[fotos pb: (1) Largo Moinho de Vento - PORTO; (2) «Sonja», por Christian Schad (1894-1982), 'Neues Museum', Bodestrasse, Berlim; (3) «casco histórico» - interior de moradia muito degradada, em S. Nicolau, Porto]






6 de abril de 2011

RESSURREIÇÃO DE LÁZARO


Tirar as pedras
 

           
          Depois de um incêndio numa floresta a morte ganha uma expressão visual tremenda. A aflição do fogo devorador dá lugar ao silêncio e ao coração apertado. Lembro-me de ter andado, há anos, pelo meio de cinzas e arbustos carbonizados depois um incêndio na serra da Arrábida. O céu azul e o sol pareciam envergonhados perante aquela desolação. Mas, de repente, por entre o negro e a cinza, junto a um tronco queimado, um rebento verde ousava desafiar aquele espectáculo de morte. Frágil, aparentemente impotente, era um grito de vida espantoso. Como me lembro tanto do poema do Sebastião da Gama que começa assim: Que a Morte, quando vier, / não venha matar um morto”!   

          Há mortes e mortes, e cada uma é única, e todas nos incomodam. Não temos palavras para esses momentos. O abraço, as lágrimas, as mãos apertadas trocam-se em silêncio. Não é a presença a melhor palavra de amor e comunhão? Verdadeiramente não nos habituaremos à morte (e ainda bem, porque ela não é o nosso fim) mas como abraçamos a vida? Como juntamos forças para retirar as pedras que fazem sepulcros antes de tempo? O que fazemos para vencer o desânimo que deixa cair os braços ou fecha cada um no seu casulo? Que ressurreições estão ao nosso alcance?

          Por entre a burocracia em que se transformou, por exemplo, muito do esforço de educar, há testemunhos de quem não se acomoda à exigência dos números ou dos papéis. Procuram “tirar as pedras” que encerram capacidades, energias, confiança, sonhos, valor próprio, de tantas crianças e jovens. Um de cada vez, à maneira de madre Teresa de Calcutá e de Jesus (que ligava pouco a números, excepto na compaixão por todos), aproximando-se com a delicadeza que a “raposa” ensinou ao “Principezinho”, talvez até sentando-se no chão em companhia inesperada, agem para evitar a ”morte anunciada” de meninos e meninas pouco amados. Não pedem nada em troca, dói-lhes apenas a “funcionalização” do educar, como se fosse mais uma pequena “morte”. Ressuscitar é acção de Deus, mas reanimar, restaurar a confiança, levantar quem caiu, promover quem é excluído, recriar a dignidade e o valor que cada pessoa tem, procurar em comum razões de esperança e de vida, tudo isto é tarefa nossa!

          Gosto deste pedido de Jesus: “Tirai a pedra”! Ainda que “já cheire mal(quando tudo já parece perdido), é preciso “ser vivo” até ao fim. Pedras de indiferença e exclusão, de egoísmo e auto-suficiência. Pedras de dentro e de fora. Ressuscitar não é uma tarefa solitária: precisamos de Deus e também Ele precisa de nós!
           

À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO V DA QUARESMA

“Disse Jesus: ‘Tirai a pedra”.” [Jo 11, 39]

[foto pb: Basílica de S. Pedro - Império da Fé, 2009]

5 de abril de 2011

DESIGUALDADES SOCIAIS E FELICIDADE - TONY JUDT


CAPÍTULO V
«Que fazer?»



Tony Judt, em UM TRATADO SOBRE OS NOSSOS ACTUAIS DESCONTENTAMENTOS [Ed. 70, Grupo Almedina, 32 euros, ISBN 978-972-44-1632-8] nas cerca de 25 das 219 páginas do seu livro, tenta explicar o que se está a passar para poder propor sugestões que ajudem a encontrar uma saída consistente para a situação política e económica do capitalismo ocidental.
1.Começa por reconhecer, nestas últimas décadas,  o desaparecimento da actividade intelectual autónoma. «Infelizmente, os intelectuais contemporâneos têm revelado uma surpreendente falta de interesse informado na essência da política pública» (…) «Isso relegou para os especialistas políticos e os think tanks – junto dos quais raramente tem lugar a opinião não convencional – os debates sobre o modo como nos devemos governar.» «Até os intelectuais se curvaram à guerra do Iraque.» Ficamos, portanto, diante de questões que «são assuntos para especialistas» a ser abordados com uma «linguagem cada vez mais obscura». «A liturgia deve ser entoada numa língua misteriosa, só acessível aos iniciados. Para todos os demais, basta a fé.»

2.Donde a tentação da via do «apolítico» - «a ideia de que já que a política está tão degradada na nossa época, devíamos desistir dela.» (…) «O impulso moral é inatacável. Mas as repúblicas e as democracias existem em virtude do empenho dos seus cidadãos na gestão dos assuntos públicos. Se os cidadãos activos ou preocupados abdicarem da política, estarão assim a abandonar a sua sociedade aos seus funcionários públicos mais medíocres e venais.» (…) «Quando na Alemanha Ocidental dos anos 60 os jovens radicais perderam todo o respeito pela República Federal e pelo Bundestag (parlamento), formaram «grupos de acção extraparlamentar»: precursores do terrorismo desorientado do Bando de Baader-Meinhoff.»

3.Tony Judt constata a supressão do debate de ideias [indispensável ler os 4 Artigos do dossiê  «QUE SE APRENDE NAS UNIVERSIDADES?», Courrier International, Set 2010, edição em português, nº175, 3,5 euros; onde se mostra como a Educação e o Ensino Universitário (nos USA, na Europa e até na índia) foram forçados a estar ao serviço do «crescimento económico» e como se estupidificaram, quer alunos, quer investigadores universitários, que passaram a ‘seres humanos de espinha partida’ muito próximos dos autómatos, nos quais deixou de existir o «espaço potencial», aquela zona intermédia entre a pessoa e o exterior, precisamente aí onde a criança e o adulto experimentam a noção de diversidade, de curiosidade e de inventividade imprescindíveis para «a originalidade, a produtividade e o crescimento económico»]. Impressiona a arrepiante anomia dos pensadores-intelectuais e dos professores universitários diante de duas questões: (a) a de que “não há almoços grátis” (vide João César das Neves, Universidade Católica Portuguesa), de que tudo tem um ‘valor de mercado’, de que tudo foi subjugado à contabilidade e, pour cause, todos os seres humanos foram humilhados a ser apenas parte da matemática neo-liberal reinante. (b) a de que os Serviços Públicos também têm que ‘dar lucro’ (não podem dar prejuízo contabilístico, não podem ser despesa do Estado). O pensamento intelectual forjou um discurso acrítico assente nessa lógica económica que nos traz ao colo desde os anos 60 e em quem nós fomos entregando o voto ano após ano sem nos darmos conta de que ele se consolidava à custa da expansão e massificação dos media fortemente alicerçados na ‘imagem’ e no ‘show’; show do entretenimento televisivo desprovido de verdadeira ‘comunicação’ e da miserável passividade intelectual que agora nos está a custar caríssimo. [um padre meu amigo dizia-me há tempos: «se já há quem pense, para quê pensar?»]

4.Tony Judt apela a «uma nova narrativa moral?». Diz ele: «Portanto, o que fazer? Que espécie de enquadramento político ou moral pode a esquerda propor para explicar e justificar os seus objectivos? Já não existe espaço para a narrativa de base ao estilo antigo: a teoria abrangente de tudo. Nem nos podemos refugiar na religião. (…) Se uma política pública estivesse a ser justificada com base teológica» (…) «muita gente no Ocidente ficaria perplexa». Mas «para convencer outros de que algo é correcto ou errado, precisamos de uma linguagem de fins, e não de meios. Não temos de acreditar que os nossos objectivos estão prestes a ter sucesso. Mas precisamos de poder acreditar neles. O cepticismo político é a fonte de tantos dos nossos dilemas.» Perdemos, diz Tony Judt, as noções de «justo», de «razoável», de «aceitável», «a noção de prudência», de compromisso moral, que nos permita afirmar com convicção que «é preciso algum tipo de restrição mútua» se queremos levar a sério todos os nossos desejos. É que «os fins colectivos podem conter objectivos concorrentes».

5.No último parágrafo do capítulo V, Tony Judt afirma: «De todos os objectivos concorrentes e só em parte conciliáveis que possamos procurar, a redução da desigualdade deve ter prioridade. Em condições de desigualdade endémica, todos os outros objectivos desejáveis tornam-se difíceis de obter.» (…) «Neste sentido, o acesso desigual a recursos de toda a espécie – dos direitos à água  – é o ponto de partida de qualquer crítica verdadeiramente progressista do mundo. Mas a desigualdade não é só um problema técnico. Ela ilustra e exacerba a perda de coesão social – a sensação de viver numa série de comunidades vedadas cujo objectivo principal é manter os outros (menos afortunados que nós) do lado de fora e limitar as nossas vantagens a nós e às nossas famílias: uma doença da época e a maior ameaça à saúde de qualquer democracia.» [ver: “Um só mundo – a ética da globalização”, Peter Singer, Gradiva]

«Se continuarmos grotescamente desiguais, perderemos toda a noção de fraternidade: e a fraternidade, apesar de toda a sua tolice como objectivo político, revela-se a condição necessária da própria política. Há muito que o inculcamento de um objectivo de vida comum e dependência mútua é considerado a cavilha de segurança de qualquer comunidade. Agir juntos com um propósito comum é origem de enorme satisfação em tudo, dos desportos amadores aos exércitos profissionais. Nesse aspecto, sempre soubemos que a desigualdade não é só moralmente inquietante: é ineficaz. (…)

«Uma população menos estratificada é também uma população mais bem instruída: melhorar as oportunidades dos que estão em baixo não reduz em nada as perspectivas dos que estão bem de vida. E populações mais bem instruídas não só levam vidas melhores, como se adaptam melhor e com menos custos a mudanças técnicas perturbadoras. Existem muitas indicações de que mesmo os que prosperam em sociedades desiguais seriam mais felizes se o fosso que os separa da maioria dos seus concidadãos se reduzisse de maneira significativa. Decerto viveriam mais seguros. Mas isso envolve mais do que o mero interesse próprio: viver na proximidade de pessoas cuja situação constitui uma censura ética permanente é fonte de desconforto até para os ricos.»

«As consequências corrosivas da inveja e do ressentimento…».

«O egoísmo é incómodo até para os egoístas.»

«Chegou a altura de inverter esta tendência.»

[pp. 152-177]

PARA SAIR DA CRISE - PROPOSTAS CONCRETAS; O EX. DA ISLÂNDIA



A única escolha realista para a recuperação
Jorge Bateira


«Todos sabemos que por omissão também se fazem escolhas importantes, escolhas que afectam profundamente as nossas vidas. Assim, se ficarmos em casa nas próximas eleições, ou depositarmos um voto branco ou nulo na urna, estaremos a escolher por omissão a via do aprofundamento da austeridade.




«A austeridade não oferece qualquer saída para a crise da dívida pela muito simples razão de que as políticas de austeridade produzem recessão, o que inviabiliza a possibilidade de o Estado gerar um saldo orçamental positivo (recessão implica mais despesa social e menos receita fiscal). Para os que entendem que a situação a que chegámos foi apenas uma "derrapagem despesista" (o argumento já foi bem rebatido pelo Nuno Teles), trata-se de reduzir os encargos com o serviço da dívida (juros mais amortizações) e, aprendida a lição, de passarmos a viver em permanente austeridade
(…)
 


«Do meu ponto de vista, não temos o direito de destruir as vidas de milhares de pessoas apenas para continuar a alimentar a ilusão do "Portugal no pelotão da frente".

 
Para Portugal, e para o resto da periferia da zona euro, "permanecer na mesma zona monetária da Alemanha significa condenar esses países a anos de deflação, alto desemprego, e à convulsão política. Uma saída da eurozona pode ser neste momento a única escolha realista para a recuperação." Dani Rodrik dixit, e eu concordo.


Por isso, tomei uma decisão. Vou trabalhar no sentido de que no dia 5 de Junho os eleitores possam fazer uma escolha entre duas vias europeístas, a da austeridade depressiva ou a do desenvolvimento sustentável

Jorge Bateira

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2011/04/unica-escolha-realista-para-recuperacao.html



Crise financeira mundial – as 3 lições da democracia


Islândia. O povo é quem mais ordena. E já tirou o país da recessão

Jornal i, por Joana Azevedo Viana, Publicado em 26 de Março de 2011   




[Extractos]
Lição democrática n.º 1: Pacificamente, os islandeses começaram a concentrar-se, todos os dias,(…)

Lição democrática n.º 2: Os clientes dos bancos privados islandeses eram sobretudo estrangeiros(…) Com o colapso do Landsbanki, os governos britânico e holandês entraram em acção, indemnizando os seus cidadãos com 5 mil milhões de dólares [cerca de 3,5 mil milhões de euros] e planeando a cobrança desses(…)

Lição democrática n.º 3: (…) Para as mudanças constitucionais, outra vitória popular: a coligação aceitou criar uma assembleia de 25 islandeses sem filiação partidária, eleitos entre 500 advogados, estudantes, jornalistas, agricultores, representantes sindicais, etc. A nova Constituição será inspirada na da Dinamarca e, entre outras coisas, incluirá um novo projecto de lei, o Initiative Media(…)

4 de abril de 2011

MARTIN LUTHER KING - VÍDEO


 
Tenho pena, mas «os meus bens
de que poderias beneficiar
são sagrados.» [Mt 15:5]



Mas Jesus subiu ao monte e sentou-se. [a ensinar]



«…e as multidões ficaram maravilhadas


ao ver os mudos a falar
os aleijados escorreitos
os coxos a andar
e os cegos a ver.
«E davam glória…»
[Mateus 15:31]



VEJA VÍDEO:

VÍDEO - PARLAMENTO EUROPEU E BENESSES


DAR O EXEMPLO

13 milhões e quatrocentos mil euros
4 milhões e meio de euros
8 milhões de euros
16 milhões de euros
32 milhões de euros
[«dotações fora de impostos»]

«De todos os objectivos,
a redução da desigualdade
deve ter prioridade.» Tony Judt

(ver vídeo)


«Jesus respondeu:
‘Não são os que têm saúde que precisam de médico,
mas sim os doentes’.» [Mt 9:12]


«Quantos pães tendes?, disse Jesus»
«-Sete…»
«Todos comeram e ficaram saciados e, com os bocados que sobejaram, encheram sete cestos» [Mateus 15:37]


«Felizes os que têm fome e sede de justiça
porque serão saciados.» [Mt 5:6]

O sonho de Jesus de Nazaré é
que o mundo inteiro sete») tenha de comer
e não viva eternamente aflito
com o que há-de comer. e fique saciado»)


«O meu objectivo na vida
é torná-la mais agradável para esta grande maioria;

não me importa que pelo caminho
ela se torne menos agradável
para a minoria abastada.»

Joseph Chamberlain


Joseph Chamberlain From Wikipedia, the free encyclopedia.
«Joseph Chamberlain (July 8, 1836 - July 3, 1914) was a British politician. In his early years he was a Liberal and a campaigner for educational reform, and became President of the Board of Trade. Later he re-emerged in alliance with the Conservatives, as an imperialist and protectionist, serving as Colonial Secretary. He was the father of Austen Chamberlain and Neville Chamberlain.
Joseph Chamberlain was born in London to a successful shoemaker. At the age of 16 he was apprenticed to the shoemaking business, and at 18 was sent to Birmingham to join his uncle's screwmaking business, Nettlefolds (later part of Guest, Keen and Nettlefolds), in which his father had invested. 
There were strong radical and liberal traditions among shoemakers, in his adopted home city of Birmingham, while the Unitarian church of which he was a member had a tradition of social action. It was not surprising that he became involved in Liberal politics. In 1867 he founded the Birmingham Education League (later the National Education League) and campaigned for free public education independent of the Church of England. He also turned the Birmingham Liberal Federation into an election-winning caucus.
In 1873 he became mayor of Birmingham, in which capacity he promoted many civic improvements, leaving the city "parked, paved, assized, marketed, gas & watered and improved". He was elected as one of the city's MPs in 1876, and swiftly rose through the parliamentary ranks, becoming President of the Board of Trade in the government of William Ewart Gladstone in 1880.»

3 de abril de 2011

BENTO XVI - O LEGALISMO ACIMA DE TUDO: Fraternidade Pio X, Pátio dos Gentios, etc.


«rezai, por mim, para que não fuja, por medo, diante dos lobos» - homilia de Bento XVI aquando da sua sagração



A Igreja e o Evangelho – que fazer dele?

«A intenção do papa Bento XVI em atrair à comunhão eclesial os membros do grupo integrista cismático surgido à volta do bispo francês Marcel Lefebvre provocou um mal estar generalizado no mundo católico. Com o desejo de alcançar o seu objectivo, o pontífice levantou as excomunhões que pesavam sobre os quatro bispos cismáticos sem que, até ao momento, se tenha operado nenhuma reacção positiva da parte de nenhum deles. (…) 

 [o decreto de levantamento é de 21 de Janeiro de 2009, mas fora entregue, na Fraternidade S. Pio X, oficialmente a 20 de Janeiroa «novela das datas», em concreto destas datas, é um dos ‘acontecimentos ‘ mais ridículos que consta da polémica entrevista de Bento XVI a Peter Seewald, «Luz do Mundo», Lucerna,  2010, pp.123, na nota de roda-pé 7] 

 No entanto, foi igualmente claro ao indicar que os cismáticos não podem ser admitidos à comunhão eclesial sem que aceitem a integridade dos documentos conciliares [do Vaticano II]

 (in, Juan María Laboa Gallego, «HISTÓRIA DOS PAPAS – entre O Reino de Deus e as paixões terrenas», A Esfera dos Livros, Abril 2010, p. 461, ISBN 978-989-626-213-6)



Face à pergunta de Peter Seewald «O levantamento da excomunhão foi um erro?», o papa responde: «(…) foram na verdade divulgados imensos disparates (…) não é verdade que esses quatro bispos tenham sido excomungados por causa da sua postura negativa em relação ao Concílio Vaticano II. Na verdade eles foram excomungados por terem aceitado a sagração episcopal sem incumbência papal. Agiu-se nesta matéria de acordo com o cânone aplicável, o que já fazia parte do antigo Direito Canónico. (…) quando um bispo desses reconhece tanto o primado geral como o do Papa em funções em particular é levantada a sua excomunhão, porque ela perde o seu fundamento. Esse é o procedimento que temos seguido na China (…)»

 [Bento XVI, uma conversa com Peter Seewald: “Luz do Mundo – o Papa a Igreja e os Sinais dos Tempos”, Lucerna, Nov 2010, pp. 32, ISBN 978-972-8835-75-0]






Com esta resposta, o Papa contorna a questão mais importante: a Fraternidade afastou-se da «comunhão» por discordar da postura doutrinal maoritária no Concílio. A sagração episcopal é consequência prática da rejeição dos documentos conciliares. Ambas são graves, mas pergunta-se: o que é mais grave, uma sagração cismática, nas 'costas' ou de costas para a «comunhão» ou a não aceitação doutrinária decorrente do Concílio? Para mim, são as duas faces da mesma moeda: uma decorre da outra e não é legítimo - sob pena de hipocrisia - querer separá-las.


E face a uma outra pergunta: «Se soubesse que entre os bispos se encontrava alguém que nega a existência das câmaras de gás dos nazis, teria levantado a excomunhão?» Luz do Mundo”, p.122], o papa responde: «Não. Aí, ter-se-ia, então, primeiro de pôr o caso Williamson à parte. Mas, infelizmente, nenhum de nós pesquisou na Internet e percebeu quem tínhamos ali. (…) Certo é que Williamson é uma figura particular, na medida em que nunca foi católico no verdadeiro sentido. Ele era anglicano e transitou directamente dos Anglicanos para Lefebvre. Ou seja, nunca viveu no seio da Igreja global, nunca viveu em comunhão com o Papa. As nossas instâncias competentes na matéria declararam que os quatro estavam absolutamente decididos a reconhecer o primado. [ibdem, p.122]». No entanto, o papa sentiu a necessidade de imediatamente acrescentar o seguinte dado: «(…)Ao nível do grande mundo do judaísmo, houve no entanto  muitas pessoas que de imediato confirmaram que eu jamais faria de um negador do Holocausto uma pessoa socialmente aceitável.» [ibidem, p.124]



 

É evidente que, para Bento XVI, o mais importante é a submissão à autoridade Papal na forma de uma palavra, mesmo que o comportamento do dia-a-dia (ou seja, a Pastoral, a Teologia, a Espiritualidade, etc.) esteja em contradição com a palavra. Importa o continente, pouco importa o conteúdo...

Enquanto o espectáculo deste Papa prossegue, surge a iniciativa do Pátio dos Gentios. O «diálogo com o mundo» é a prioridade, pertence à chamada Nova Evangelização da Europa e também à «pastoral da cultura». O actual momento do pontificado parece ter entrado num verdadeiro zigue-zague próprio de quem já não sabe que fazer, ou de que deitar mão, para evitar um acidente rodoviário de assinaláveis proporções. Parece (a quem de longe e de fora vê o Vaticano) que a estratégia do actual papa (ele que se auto-definiu como ‘platónico’, «Personalmente soy un poco más platónico»,  in Sal de la tierra, Madrid, Palabra, 1997, p.45) é elevar-se ao mundo das ideias até uma estratosfera mais segura, porque mais longe do mundo dos compromissos, a fim de poder «falar» mais a vontade sem o desconforto do contraditório. O discurso (oficial) é cada vez mais um discurso que se refugia no discurso… O «medo dos lobos» é uma falácia (às vezes tais confissões são típicas de tímidos e nos tímidos é conveniente não confiar: regra geral, são falsos...). Este papa não desiste de pisar no acelerador... nem desiste da pretensão (muito teutónica) de cutucar a onça (como se diz no Brasil).




Ora, acontece que Jesus nunca recusou o contraditório, bem pelo contrário enfrentou-o olhos-nos-olhos, tal como mais tarde Paulo o faria diante da «hipocrisia» de Pedro (diante da questão-conflito: prioridade ao ‘rito religioso’ vs anúncio da Fé libertadora no Ressuscitado).

Por outro lado, Jesus nunca se preocupou com o «diálogo com o mundo» (rematou com o «Dai a César o que é de César»), mas empenhou-se totalmente na construção do Reino de Deus (Jesus recusou, aliás, esse tipo de diálogo como o atesta o  jogo da pergunta «Que é a Verdade?», Jo 18:38, que Jesus rejeitou). Jesus recusou a «pastoral das multidões» [uma d’ As Tentações de Mateus 4:1-11,] e as respectivas perguntas que enxameiam os «pátios» das multidões curiosas. Preferiu começar «de baixo», privilegiando uma «Comunidade Com Escala Humana», os Doze. O mesmo haveria mais tarde de se tornar numa dura lição para Paulo. Em Actos dos Apóstolos 17:16-34 (discurso de Paulo no Areópago de Atenas, duma certa forma também no «átrio» ou no ‘Pátio dos Gentios’ da diáspora grega) aconteceu aquilo que mais tarde será considerado motivo de arrependimento, ou até um erro, por parte de Paulo, quando se dirigiu aos Coríntios (1 Cor 2:1-16). Ou seja, uma pastoral baseada no «prestígio da linguagem ou da sabedoria», numa discussão «argumentativa e persuasiva», em suma, intelectual [v.1-5] (como parece ser a prioridade do actual papa e do nosso bispo D. Manuel Clemente) será votada ao fracasso, será pura perda de energias se não assentar no «testemunho de vida», numa exigente coerência entre as sublimes palavras dos oradores cristãos (do papa, dos cardeais, dos bispos, dos presbíteros, dos leigos) e o seu estilo de vida; isto aplica-se à posse dos bens, à administração do poder e ao uso do dinheiro. 




 Os versículos 10 até ao 16 desta Carta de Paulo são uma tentativa primeira de perceber o que à partida não era evidente, mas que se havia passado em Atenas: de facto, o fracasso da missão acontece sempre que se secundariza o «exemplo de Jesus de Nazaré», ou seja «sempre que se apaga o Espírito» de Jesus de Nazaré (1Ts 5:19) e sempre que se despreza o Seu «espírito de profecia» (Lucas 4:17-24; 1Ts 5:20). No Espírito de Jesus só há uma Humanidade (e não duas: a dos crentes e a ‘dos outros’) e, nele, tanto é pecado sub-valorizar os métodos pastorais como querer pré-julgar as pessoas segundo um apriori mental «não poroso» [Jordi Cussó Porredón, in ‘A Transversalidade dos Valores’, Paróquia de Matosinhos, Centro Comunhão e Cultura, 02:Março:2011]. Paulo cuidou perceber que Evangelizar é, antes, «dar testemunho» duma vida anónima convertida à simplicidade e à pobreza (1Cor 2:3 - «estive no meio de vós cheio de fraqueza») e não enveredar pela ilusão de que o Abba, o «Pai muito querido», o Deus de Jesus possa ser ou vir a ser uma «questão» (a «questão Deus», como diz Ratzinger), questão teórica a discutir na arena (ou no «pátio») da luta filosófica, questão a ser colocada no centro da vida da Europa como «Luz do Mundo». Uma «questão» filosófica (as «chamadas questões capitais», por G. Ravasi: «As perguntas sobre o sentido da existência, sobre o além-vida, sobre a morte. E ainda a questão sobre a categoria de verdade.» «-Encontro muitos cientistas abertos para reflectir sobre as categorias filosóficas da existência». «O poder do mal. Como diz Goethe no Fausto: esquecemo-nos do Grande Maligno, ficaram os Pequenos Sem-Vergonhas.») nunca será a Luz Pascal, mas questão que arrastará mil outras questões, como aliás é próprio e legítimo da filosofia. Eis o que separa o Discurso de Paulo no Areópago do Discurso de Pedro ao Povo junto ao pórtico de Salomão (Actos 3:12-26). Ao primeiro, segue-se o ridículo (Act 17:16 - «que quererá este papagaio? Parece um pregoeiro…»). Ao segundo, segue-se a Partilha dos bens (Act 4:32), a construção da Comunidade, o fortalecimento da Igreja, uma certa forma de antecipação do Reino. Eis o que separa Paulo, e seu ridículo discurso, do Testemunho de Vida e de Fé de Estêvão (Act 7), ao qual se segue inevitavelmente o Martírio, a morte por apedrejamento (Act 7:54-60; de nada adiantou a Paulo presenciar o apedrejamento - Act 8:1 – porque aquilo que, como fariseu, ainda habitava a mente de Paulo era «Deus como questão», Deus como questão ideológico-teológica; ora, é precisamente isso que AQUI E AGORA ainda habita a mente de Bento XVI e a dos seus escolhidos).





Mas, voltando ainda atrás, que fez Paulo? Tentou «filosofar» para entender o porquê do seu fracasso em Atenas («Quem de entre os homens conhece o que há no homem se não o espírito do homem que nele habita? Assim também as coisas que são de Deus, ninguém as conhece a não ser o Espírito de Deus»). Infelizmente, acabou por se enredar num outro labirinto, o das distinções filosóficas, o da iluminação a partir dos conceitos (o «novelo das distinções») tão ao gosto dos que não conheceram Jesus de Nazaré ao vivo (como foi o caso de Paulo) ou dos que temem em se comprometer com a radical simplicidade do Evangelho de Jesus (como é o caso da nossa Igreja Oficial). Ora, acontece que Jesus nunca «fez escola», nem organizou «átrios» ou «pátios» de filosofia tão ao gosto do helenismo do seu tempo e também do actual papa ou de uns tímidos e hesitantes seguidores da Igreja oficial portuguesa, hoje…

Será, de facto, por aí a via, o Caminho?




Consultando o site «Religionline» damo-nos já conta do que será o mais do que provável fracasso evangelizador da iniciativa «Pátio dos Gentios» liderada, a pedido do papa, por Gianfranco Ravasi, em Paris (como se os sofás fossem «lugares de conversão» por excelência…). A carta (extracto) do filósofo italiano Paolo Flores d’Arcais a Gianfranco Ravasi, diz tudo sobre a envolvente da iniciativa:
«Trata-se, além disso, de temas previstos no confronto com o cardeal Ratzinger, que não foi possível enfrentar por falta de tempo (havia também aquele sobre o Jesus histórico, que certamente interessará ao senhor, biblista de fama). Convido-o, portanto, às "Jornadas da Laicidade", que ocorrerão em Reggio Emilia entre os dias 15 e 17 de abril, às quais se recusaram a participar os 15 cardeais que convidamos e nas quais o senhor poderá discutir com ateus não "patos mancos" como Savater, Hack, Odifreddi, Giorello, Pievani, Luzzatto e, por último, este que se subscreve.
Se, depois, a sua agenda não lhe permitir acolher este convite, proponho-lhe organizar juntos, o senhor e eu, uma série de confrontos nos tempos e lugares que o senhor julgar oportunos. Devo, porém, dizer-lhe, com toda a franqueza, que não consigo libertar-me da sensação – nos últimos anos empiricamente consolidada – de que o "diálogo" que o senhor teoriza quer, ao contrário, evitar o próprio confronto com o ateísmo italiano mais consequente. Paolo Flores d’Arcais, filósofo.»





A Igreja Oficial (e a grande maioria das Igrejas Locais e Paroquiais) continua sem saber o que fazer da «castanha quente» que Jesus lhes deixou nas mãos… Concretamente, como «fazer o Reino», como «fazer» o Evangelho - sonho que Jesus quis de Felicidade para toda a Humanidade. O caso da Fraternidade Pio X (dentro deste, o caso Williamson) e agora a iniciativa do «Pátio dos Gentios» provam bem como a Igreja Oficial (também) anda «à rasca»... Estigmatizando o mundo ocidental com a expressão «lugar das questões penúltimas», quer dar de si a imagem de «perita em questões últimas» tacteando às escuras nas circunvoluções cerebrais. Esquecendo-se do prévio a tudo isso, esquece-se do essencial: de se propor como «modelo fraterno e cordial de vida humana», asa-com-asa, anónima e frágil, com os desvalidos, condição primordial para ser digno convidado do Grande Banquete [Mt 22:7-14].


 
E tudo porque, simplesmente, lhe custa aceitar que ‘o Reino de Deus é como um Grão de Mostarda…’

pb\

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 [fotos PB: as 3 primeiras foram feitas em Roma, no Vaticano; as 6 seguintes foram feitas por mim na Comunidade Ecuménica de Taizé]