teologia para leigos

31 de março de 2011

A IGREJA COMO VIZINHANÇA - PADRE TOLENTINO MENDONÇA



«Passemos para a outra margem» [Mc 4:35]


Penso muitas vezes na sugestão que Jesus faz aos discípulos, mais do que uma vez: "Passemos para a outra margem" (Mc 4,35)


Há um sonho do qual não podemos desistir: o sonho de que a Igreja, em cada uma das suas comunidades, se pareça também com uma família alargada em gozo de férias e não apenas a um laborioso centro de prestação de serviços, sobretudo se anónimo ou impessoal.


Nessas férias seria diferente! Saberíamos o nome uns dos outros e mais: daríamos tempo para saborear a história e a presença que cada um é. Não seria o relógio a presidir aos nossos encontros, nem a utilidade imediata a emprestar justificação às nossas procuras. Pelo contrário: estar em comunidade seria como caminhar junto ao mar, sem nenhuma pressão de horários (exteriores e interiores), entregues ao prazer da contemplação e da companhia. Ou como passear pela montanha, entusiasmados por visões alargadas onde a paisagem refulge numa transparência que quase havíamos esquecido.


Nessas férias seria diferente! Aboliríamos o rotineiro fast food religioso, que apenas serve para enganar a fome, deixando que a alma se alimente e revitalize como precisa: no silêncio e na palavra, no encontro e no dom, na escuta e na prece. Buscaríamos juntos, como peregrinos experimentados, a abundância ainda intacta das fontes que nos irrigam, sentindo-nos depois reconciliados e gratos pela fantástica vizinhança delas. E faríamos o mesmo com a beleza dos lírios, da qual Jesus falou, com o dourado apaziguador que podem ter os campos à nossa passagem ou com o canto dos pássaros cada vez mais alto.


Nessas férias seria diferente! A Refeição constituiria o centro, mas como deliberado espaço de multiplicação para a vida: partilhando o pão que expande a graça, bebendo o vinho que amplia a festa.


José Tolentino de Mendonça




MORREU JOSÉ COMBLIN - C. MESTERS TESTEMUNHA

Como o profeta Amós, Padre José Comblin incomodava – por Carlos Mesters
Terça-feira, 29 de março de 2011 - 21h20min

 [José Comblin, em camisa azul, ao lado de D. Helder Câmara] 

Padre José Comblin morreu. Um bispo o criticou, como: "Comblin, homem cansado e pessimista". O pessoal das Comunidades por onde ele andava não o chamava de Comblin, mas sim de "Padre José". Padre Comblin incomodava as pessoas de poder, mas era amado pelos pobres que o acolhiam carinhosamente como Padre José.
Padre José Comblin nasceu na Bélgica nos anos 20 do século passado e nos anos 50 veio trabalhar e anunciar a Boa Nova aqui no Brasil. O profeta Amós era de Judá no Sul e foi trabalhar e anunciar a Boa Nova de Deus em Israel no Norte, no santuário de Betel. Amasias, o sacerdote de Betel, não gostou e denunciou o profeta junto ao rei Jeroboão, dizendo que já não se podia tolerar as palavras de Amós. E mandou dizer ao próprio Amós: "Ó, seu profeta, vá embora daqui. Retire-se para sua terra Judá. Vá ganhar sua vida por lá com suas profecias. Mas não me venha mais fazer suas profecias aqui em Betel, pois isto aqui é o santuário do Rei e o templo do Rei". Amós mandou dizer: "Eu não sou profeta nem filho de profeta. Sou camponês, criador de gado e cultivador de sicômoros. Foi Javé que me tirou de trás do rebanho e me ordenou, ‘Vá profetizar ao meu povo Israel'!" (Amós 7,10-15).
Como o profeta Amós, Padre José Comblin incomodava aos homens do poder no tempo da ditadura e foi expulso várias vezes. Incomodava também aos que exercem o poder na Igreja. Alguns deles chegaram a dizer que já não se podia tolerar as coisas que ele dizia, e eles proibiram a fala dele várias vezes em vários lugares.
Como o profeta Amós, Padre José, ele mesmo, nunca se apresentou como profeta. Ele se apresentava como ser humano cristão e sacerdote, cumpridor fiel do seu dever. Posso testemunhar: convidado para falar nas comunidades e nos grupos do CEBI, Padre José convencia as pessoas pela simplicidade do seu jeito de conversar e dialogar, pelo testemunho da sua sinceridade e profundidade de vida e pela quantidade enorme de informações de que dispunha para confirmar as coisas que dizia e as denúncias que fazia.



Mesmo ausente, ele continua presente. Como o profeta Amós, "seu corpo foi sepultado em paz, mas o seu nome viverá através das gerações" (Eclo 44,14). Eternamente grato.

Carlos Mesters.

Frei Carlos Mesters,
Ordem dos Carmelitas, Convento do Carmo, São Paulo,
28 de março-2011.

Biblista popular, Carlos Mesters é um dos fundadores do CEBI.
É autor de:

30 de março de 2011

O CEGO DE NASCENÇA



Carta ao cego de nascença que passou a ver

           
          Amigo dos olhos abertos!

          Não sei como te chamar porque não nos chegou o teu nome mas o evangelista João deixou-nos um retrato teu que impressiona sempre que o escuto e ficou-me uma vontade de te escrever. Ao contrário de outros cegos dos evangelhos parece que não pediste nenhum milagre a Jesus. Não gritaste nem se ouviu a tua voz. Talvez nem tivesses ouvido falar dele. De facto foi Jesus que te encontrou no caminho e depois de tentar libertar as mentes dos discípulos do preconceito de que a doença e o sofrimento eram castigo dos pecados, pôs-te “na berlinda”. Deves ter ficado surpreendido com aquele lodo feito de saliva e terra que Ele te pôs nos olhos e com a ordem para te ires lavar à piscina de Siloé. E foste, e ainda bem que foste!

Gostava tanto de te ouvir contar como foi o teu abrir de olhos e começares a ver! Sabes, às vezes, andamos com os olhos desfocados ou cheios de escamas que já nem nos maravilhamos com o dom de ver. Como se andássemos doentes dos olhos e só vemos o que é feio, o mal dos outros e do mundo, a escuridão. Imagino o teu olhar como o das crianças, encantado com tudo, maravilhado com o insignificante e com o grandioso, espantado quando viste o teu rosto pela primeira vez e o daqueles que só conhecias pela voz, pelas mãos. Estavas a nascer de novo!

E como isso te transformou. Já não fazia sentido pedir esmola mas era preciso dizer que eras o mesmo e também outro. No meio de acesa polémica foste questionado, levado aos fariseus, quiseram manipular-te, insultaram-te, mas foi crescendo em ti uma voz, uma coragem para até ironizar com os que te julgavam. Não aceitavam que tivesses nascido “inteiramente em pecado” e estivesses a ensiná-los! Continuamos a ter dificuldade em acolher as surpresas de Deus. É tão fácil espalhar o preconceito e viver em condomínios fechados do pensamento. Julgamos ver melhor e talvez estejamos cegos para o essencial. Mas também há modos refinados de prolongar “cegueiras”, de esconder verdades, de manipular pessoas e multidões. Na política, na economia e até na fé há “sábados” intocáveis de inércia e acomodamento, de poderes apetecíveis, de tradições vazias, de injustiças prolongadas. Continua a ser verdade: “o pior cego é aquele que não quer ver”.  

Mas foi o olhar de Jesus que mais te impressionou, não foi? Há uma canção brasileira que diz assim “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem-se encontrar…”. Ver e acreditar foi um enorme passo. Como se transformou o teu caminho? Como se transformam os nossos que também acreditamos em Jesus? Pode ver-se nos nossos olhos a luz que passou a habitar os teus? Obrigado pela tua paciência em me leres.


Um abraço a Jesus e vemo-nos por aí!


À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves, Lisboa

DOMINGO IV DA QUARESMA

“Nunca se ouviu dizer que alguém
tenha aberto os olhos a um cego de nascença.”
Jo 9, 32

25 de março de 2011

PEC'S - 2 VÍDEOS


«O seu ar insolente depõe contra eles…»
[Isaías 3]

1 «Eis que o Senhor Deus do universo
tirará de Jerusalém e de Judá o sustento:
- todo sustento de pão e todo sustento de água,
2 o capitão e o soldado,
o juiz e o profeta,
o adivinho e o ancião,
3 o oficial e o nobre,
o conselheiro e o artesão,
e o entendido em feitiçaria;
4 em vez de príncipes dar-lhes-ei meninos
e serão governados por crianças.
5 Os homens hão-de maltratar-se uns aos outros,
cada um contra o seu próximo;
o jovem insultará o idoso
e o plebeu o nobre.
6 Assim falará um irmão a outro irmão,
na casa paterna:
"Já que tens pelo menos um manto,
serás tu o nosso chefe,
para governares esta ruína!"
7 Quando chegar aquele dia um outro protestará:
"Eu não sou médico,
e na minha casa não há pão nem tenho manto,
não me façais chefe do povo".
8 Porque Jerusalém, com efeito, ameaça ruína
e Judá vai caindo…
9 O seu ar insolente depõe contra eles…» [Isaías 3]

[Em cima da hora… 2 vídeos]




24 de março de 2011

MEDITAR SOBRE A FRAGILIDADE HUMANA - P. MIGUEL LAMET

MEDITAÇÃO SOBRE A FRAGILIDADE HUMANA


Chile 2010

“O coração do Rei é como água nas mãos do Senhor.

Prepara-se o cavalo para o dia da batalha,
mas o Senhor é quem dá a vitória.” 
[Prov 21:1.31]


«Tal facto (o tsunami do japão) desperta uma enorme meditação sobre o homem e sobre a sua vida na terra. Fazemos viagens espaciais e conseguimos jubilar um Discovery, trazemos no bolso maravilhas tecnológicas de comunicação, conseguiremos, sem dúvida, obter novas fontes de energia e lutar contra doenças até agora incuráveis. Mas continuamos sendo um cisco de impotência poisado sobre este mundo quando ele se encabrita sob a forma de um tsunami, uma erupção vulcânica, um tufão, um tornado ou uma tempestade.» (…)
« Há saída?
A única saída é quebrar a cápsula, olhar de frente o olhar, descobrir a dimensão aparente da matéria, desvelar aqui e agora o nosso lado eterno, aprofundar o mistério não conceptualmente mas enternecidamente, graças a uma intuição que contemple o mundo a partir do alto e do profundo, como parte de um todo em transformação e não a partir do meu portfolio ridículo, da minha casa, do meu jardim, do meu escritório ou do meu calendário.
Há um Tsunami diário na fome que leva milhares de crianças no instante dum suspiro. Há um Tsunami de miséria, violência, guerra, exploração que a muitos tornaria a morte apetecível. São Tsunamis habituais que a ninguém ou a poucos desperta interesse, mas que fazem parte deste modo frágil e quebradiço tão próprio da nossa existência.
Um instinto de sobrevivência faz-nos pensar que nunca nos acontecerá a nós. Mas é chegada a hora de sempre permanecermos despertos, de ter a almotolia cheia e a lâmpada acesa caso o noivo surja. Sendo certo que, na verdade, a morte faz parte do filme e o noivo até já chegou.»


Pedro Miguel Lamet, 15-03-2011, blog: «El alegre cansancio»
(amavelmente cedido por Comunidade Cristã da Serra do Pilar)




«a prática da Justiça e da Equidade é mais agradável ao Senhor que a religião»
«os tesouros adquiridos nas jogadas financeiras são vaidade passageira e laço de morte»
[Prov. 21:3.6]


O Medo, sempre o Medo (do «fim do mundo» e outros)

ORAÇÃO DA MANHÃ

Salmo 131 (130)

Senhor, o meu coração não é ambicioso
nem os meus olhos são altivos
não corro atrás de grandezas
ou de coisas superiores a mim.
Pelo contrário, estou sossegado e tranquilo.
Espero no Senhor,
desde agora e para sempre.

O POBRE, SE DESCANSA É UM PERDIDO - Poema do Perú


PRIVILÉGIOS DO POBRE


Se se cala, o pobre é parvo;
um maçador, se é palreiro;
bisbilhoteiro, se sabe;
se afável, é embusteiro;
se é gentil, intrometido,
se não atura, é soberbo;
cobarde, quando é humilde,
se é audaz, não possui tento;
se é valente, é temerário;
presunçoso, se é discreto;
adulador, se obedece,
se algo recusa, é grosseiro;
com pretensões, atrevido;
com méritos, não ganha apreço;
sua nobreza é oculta,
sua veste sem esmero;
se trabalha, é ambicioso,
e, pelo contrário extremo,
um perdido, se descansa...

Vejam bem que privilégio!


Juan Del Valle Y Caviedes [Perú, 1652-1696]
in “Rosa do Mundo, p. 965