teologia para leigos

4 de março de 2011

KEVIN CARTER - ALGUMA COISA GRITA DENTRO DE MIM


33, a idade de Cristo
«alguma coisa grita dentro de mim…»

 
[quando a vida se torna num funil de solidão…]
Sudão, Março de 1993. Uma criança sem identidade, do sexo masculino, arrasta-se em direcção a um campo de alimentação montado pelas Nações Unidas. Um abutre espera pacientemente que a Mãe Natureza lhe sirva o almoço.
O fotógrafo sul-africano Kevin Carter também está à espera. O que seria apenas mais uma entre as muitas dezenas de fotos que já tirara naquele dia, transforma-se numa imagem memorável quando o animal surge e ocupa o mesmo enquadramento. «Se ao menos o abutre abrisse as asas…» – pensou.
Vinte minutos passam e o abutre não colabora. O fotógrafo acaba por desistir e tira várias fotos do menino e do animal, uma das quais ficará imortalizada na capa de 26 de Março do New York Times como «o símbolo da fome e do horror em África».
Depois de tirar as fotografias, Carter afasta o abutre e senta-se à sombra de uma árvore a fumar um cigarro, enquanto a criança, esgotada e faminta, retoma a sua lenta e penosa marcha pela sobrevivência.


 
14 meses depois, a 23 de Maio de 1994, Kevin Carter recebe o Prémio Pulitzer por causa desta foto – às aclamações iniciais, porém, sucedem-se as críticas. Alguns jornalistas questionam a autenticidade da foto, sugerindo que esta fora «encenada». Outros colocam em causa a ética do fotógrafo: «Um homem ajustando as lentes até conseguir o quadro perfeito do sofrimento da criança bem pode ser visto como um predador, outro abutre em cena», escreve o St. Petersburg Florida Times.
A 27 de Julho desse ano, dois meses depois de ganhar o Pulitzer e ser transformado numa das «sensações do momento» em Nova Iorque, Kevin Carter estaciona a sua Nissan «pickup» vermelha à beira do rio Braamfonteinspruit, um pequeno curso de água nos arredores de Johannesburg onde costumava brincar em criança. Liga uma mangueira de jardim ao tubo de escape, fecha-se no carro, escreve um bilhete, coloca os «phones» nos ouvidos, liga o motor e morre por inalação de monóxido de carbono. Tinha 33 anos.

 
O suicídio de Kevin Carter é contado entre os fotojornalistas como um «aviso» aos novatos, servindo como exemplo dos perigos de se fotografar demasiado perto as misérias humanas. Dan Krauss, realizador de um documentário da HBO sobre o fotógrafo, «The Death of Kevin Carter: Casualty of the Bang Bang Club», vê nessa foto o momento em que Kevin incorporou, na criança moribunda, «o sofrimento de África» e, no abutre, «o seu próprio rosto».
Carter sempre viveu o seu percurso profissional vivendo o típico dilema dos fotojornalistas: testemunhar ou ajudar. Na maior parte das vezes, diz o próprio Carter, «estou a fazer um zoom sobre um tipo morto com uma piscina de sangue à volta a misturar-se na areia. O rosto está ligeiramente cinzento. E tenho de pensar visualmente. Alguma coisa grita dentro de mim ‘Meu Deus!’, mas estou a trabalhar. Lido com o resto depois.»
A carreira é feita à sombra da violência na África do Sul, na luta dos negros (e alguns brancos) contra o Apartheid, nas represálias de polícias e bandidos, gangs e justiceiros, na guerra entre zulus e o ANC, nas atrocidades cometidas por todos. Por ter passado tanto tempo a documentar os horrores sul-africanos, o grupo de fotógrafos em que estava incluído Kevin Carter e o seu amigo de infância, Ken Oosterbrock, passou a ser conhecido como «Bang Bang Club».
Quando Carter parte para o sul do Sudão, em 1993, tenciona fazer uma foto-reportagem com as tropas rebeldes. Em vez disso, mal o avião aterra e ele desembarca, depara-se com centenas de homens, mulheres e crianças famintos a dirigir-se em direcção a um campo de alimentação da ONU.
Depois de tirar dezenas de fotografias, afasta-se alguns metros em direcção ao mato para «fugir à visão de todas aquelas pessoas a morrer de fome», segundo recorda o fotógrafo sul-africano de ascendência portuguesa João Silva, que faz parte do «Bang Bang Club» dos tempos da África do Sul e acompanhou Carter no Sudão.
É Silva quem posteriormente contará o que se passou com Carter quando se sentou à sombra da árvore depois de tirar a foto da criança: «Acendeu um cigarro, falou com Deus, chorou. Depois disso ficou deprimido, dizia que só queria abraçar a filha».
O impacto da foto foi tremendo. O New York Times recebeu tantas cartas de leitores a querer saber o que tinha acontecido à criança que se viu forçado a publicar uma nota onde informava «desconhecer o seu destino». (afinal, sobreviveria e até fora identificado muito recentemente com o nome de Kong Nyong; morreu muito jovem de outra causa)
The Show Must Go On. O prémio aumenta a auto-confiança de Carter: editores de revistas em Nova Iorque querem conhecê-lo, as miúdas começam a interessar-se por aquele tipo sempre vestido de calças de ganga preta e t-shirt branca, as portas da fama abrem-se de par em par e ele acaba por ser contratado pela prestigiada agência Sygma.
«A pressão de estar sempre onde está a acção, o medo de que as suas fotografias não fossem suficientemente boas, a lucidez existencial ganha por sobreviver a tanta violência e as drogas que usava para minar essa lucidez», segundo a interpretação do jornalista Scott MacLeod, do Times, estão na base da «meteórica ascensão e queda» de Kevin Carter, «a prova de que nem todas as tragédias possuem uma dimensão heróica.»
Dois serviços falhados arrastam-no novamente para a depressão. Na cobertura da visita de Mitterrand à África do Sul, atrasou-se a enviar as fotos; quando finalmente chegaram, a Sygma não as publicou por considerar que não tinham a «qualidade desejável». À segunda oportunidade, um serviço em Moçambique não deu em nada porque, depois de passar seis dias no país, Carter perdeu os rolos no Aeroporto e nunca mais os encontrou. Recordam os amigos que foi na sequência destes dois falhanços – e dos problemas de dinheiro – que Carter começou a falar abertamente em suicídio. Muitos colegas aconselharam-no a marcar consulta no Psicólogo.
A morte em serviço do seu melhor amigo, Ken Oosterbrock, arrasou-o por completo. Oosterbrock, grande fotógrafo, vencedor como ele de um Pulitzer, era o seu oposto: «Ken era aquele tipo bem casado e com a vida organizada, mas Carter era caótico, sempre a trocar de mulher e, pelo meio, pai de uma criança que não planeara», de acordo com um dos seus colegas dos tempos do «Bang Bang Club».
O bilhete que escreveu antes de morrer: «Estou deprimido, sem telefone, sem dinheiro para pagar a renda, sem dinheiro para ajudar ao sustento da minha criança, sem dinheiro para pagar as dívidas, sem dinheiro! Sou assombrado pelas vívidas memórias de mortes e cadáveres e raiva e dor, de crianças feridas e esfomeadas, de loucos que assassinam alegremente, alguns deles polícias (…). A dor de viver ultrapassa a alegria ao ponto em que esta deixa de existir.»
E depois, recordando o amigo falecido: «Vou partir para me juntar ao Ken – se eu tiver essa sorte.»
A filha de Carter, Megan, tem uma visão muito diferente da fotografia premiada: «Eu vejo a criança em sofrimento como o meu pai. E o resto do mundo é o abutre.»

CORTARAM-NOS AS ASAS PARA QUE FOSSEMOS OBEDIENTES

«cortaram as asas ao rouxinol,
rouxinol sem asas não pode voar…»
[Adriano Correia de Oliveira]





a sublevação dos pássaros



Lição das Asas

Nós nascemos para ter asas, meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.

No entanto, em épocas remotas,
vieram com dedos pesados de ferrugem
para gastar as nossas asas
como se fossem tostões.

Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas
operários obedientes, estudantes atenciosos,
leitores ingénuos de notícias sensacionais,
gente pouca, pouca e seca.

Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris
e de coisas transparentes,
afirmam que as asas dos homens
crescem mesmo depois de cortadas,
e, novamente cortadas, de novo voltam a ser.

Aceitamos esta hipótese,
apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.

Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.

(José Fanha)

[post by cm]

1 de março de 2011

PORTUGAL SOB PRESSÃO, MERKEL NÃO AFROUXA

[e agora, meu povo... rezar o Terço ao deitar?!!!]

Medida não deverá passar nas cimeiras de Março

Coligação de Merkel recusa compra de dívida pelo fundo europeu

in Jornal «PÚBLICO», 22.02.2011 - 16:20 Por Ana Rita Faria

Os partidos políticos que formam Governo com Angela Merkel estão a fechar o caminho a uma flexibilização do fundo de resgate do euro.




De acordo com a agência Bloomberg, a coligação da chanceler alemã rejeita a ideia de comprar de títulos de dívida soberana pelo futuro mecanismo de apoio europeu, a partir de 2013, inibindo a possibilidade de a Alemanha aprovar esta medida nas cimeiras que vão decorrer em Março.

A agência noticiosa revela que os partidos da coligação que suporta o Governo alemão, liderado por Angela Merkel, aprovaram uma resolução que estipula que o Parlamento deve
“rejeitar financiar ou garantir programas de compra de obrigações”, devido a questões de ordem constitucional, legal e económica. A versão final desta resolução deve ser hoje votada em Berlim.

Com esta resolução, os partidos da coligação de Merkel
tentam bloquear ao máximo a possibilidade de a chanceler alemã ceder às pretensões dos países periféricos nas cimeiras da zona euro e da União Europeia, que vão decorrer no próximo mês e de onde irão sair as soluções para resolver a crise da dívida na zona euro. Uma dos pontos em que se espera que os líderes europeus cheguem a acordo é a flexibilização do mecanismo de ajuda europeu, que, a partir de 2013, substituirá o actual Fundo Europeu de Estabilização Financeira, ao qual recorreram a Grécia e a Irlanda.

Mas a coligação de Merkel não é a única a dar sinais de oposição dentro da Alemanha à compra de dívida pública dos países periféricos do euro.

Hoje,
Axel Weber, presidente do banco central alemão, o Bundesbank, escrevia hoje no Financial Times que o mecanismo europeu não deveria comprar títulos de dívida.
Weber, que era até há pouco tempo considerado o candidato preferencial à presidência do Banco Central Europeu (BCE), considera que a compra de obrigações pelo mecanismo europeu seria ineficiente para reduzir o peso da dívida, pois exigiria um grande volume de compras para conseguir um resultado eficaz.
Wall Street diz que resgate a Portugal não passa de Abril

A notícia de que a Alemanha poderá vir a recusar a compra de dívida pelo mecanismo de ajuda europeu surge n
a pior altura possível para Portugal. Os juros da dívida portuguesa continuam acima de sete por cento no mercado secundário e há cada vez mais rumores de que o país venha a pedir ajuda até Abril.
Depois de agência Reuters ter avançado, na semana passada, que Bruxelas espera um pedido de ajuda por parte de Portugal até Abril, hoje foi a vez do Wall Street Journal avançar com a mesma ideia.

Citando uma fonte europeia, o jornal diz que o sentimento dominante em Bruxelas é o de que
Portugal terá de seguir em breve os passos da Grécia e da Irlanda, recorrendo à ajuda externa.

“O feeling é que [o resgate] não vai passar de Março ou de Abril no máximo e que Portugal já está sob pressão de países como a Alemanha para pedir ajuda”, escreve o Wall Street Journal. O jornal adianta mesmo que
algumas autoridades portuguesas estão já a considerar esta hipótese.
Com taxas de juro cada vez mais elevadas nos mercados, o receio é de que
Portugal não consiga financiar-se para pagar as elevadas amortizações de dívida que se seguem.

Até ao momento, o Estado já foi buscar 4,75 mil milhões de euros através de leilões de obrigações, mas
enfrenta, já no próximo mês, a amortização de 3,848 mil milhões de euros em bilhetes do Tesouro. A isso juntam-se, em Abril e Junho, os reembolsos de duas linhas de obrigações, uma de 4,3 mil milhões e outra de 4,9 mil milhões.

28 de fevereiro de 2011

ADIVINHAR O FUTURO POLÍTICO É FÁCIL - J. BATEIRA


 
 Tudo depende de nós

O Governo corre contra o tempo. Procura desesperadamente obter financiamento fora do “mercado”. Mas a autonomia financeira para alguns meses de pouco servirá. O BCE tem nas mãos o financiamento dos bancos portugueses e, por conseguinte, tem o poder de precipitar a qualquer momento o telefonema que o Primeiro-Ministro fará a pedir ajuda a Bruxelas.
Uma vez que
Angela Merkel não tem margem de manobra para aceitar um acordo sobre o Fundo de Estabilização que abra a porta à mutualização da dívida dos Estados-Membros, começa a ficar claro que não só vamos ter de aceitar um empréstimo em condições gravosas (taxa de juro incomportável, austeridade selvagem, degradação adicional do Estado social), como nem sequer serão tomadas decisões que acabem com a especulação contra o euro. Arrumado Portugal, segue-se a Espanha.

Tudo indica que a Eurozona está presa do discurso populista contra os “países despesistas” da periferia da União, um discurso com grande aceitação junto das classes populares dos países ricos do centro que há muito estão sujeitas à política de “moderação salarial”, com deslocalizações da indústria e cortes no Estado social, para responder à pressão competitiva da globalização sem freio. De pouco importa que o problema da dívida soberana seja sobretudo o resultado da especulação financeira desenfreada e dos inevitáveis desequilíbrios macroeconómicos entre países de muito desigual nível de desenvolvimento integrados numa zona monetária sem integração política. O que importa é que a narrativa neoliberal é hegemónica nos meios de comunicação social.
Muito provavelmente pela mão do PSD, os Portugueses terão de suportar uma deflação (austeridade selvagem no Estado, privatização de sectores do Estado social, redução dos salários também no sector privado) imposta por Bruxelas e mais que desejada pelos "falcões" do PSD. É uma fatalidade? Não, não é. Está nas mãos dos cidadãos portugueses dizer NÃO por (pelo menos) três grandes razões:
1) Com uma deflação não conseguiremos pagar as dívidas, como os exemplos da Grécia e Irlanda sugerem; 2) Os bancos alemães, franceses e outros tinham obrigação de avaliar melhor a sustentabilidade do crédito que concederam anos a fio, sabendo muito bem que o país não tinha capacidade competitiva para crescer e permanecer solvente; 3) Quem deve pagar a crise deve ser quem mais beneficiou das suas causas, as classes de mais elevados rendimentos e a finança.
E então?
Se nos mobilizarmos como os cidadãos do outro lado do Mediterrâneo, podemos eleger um governo que atenda a estas razões, um governo que reestruture a dívida pública e promova uma política de crescimento apoiada por uma fiscalidade corajosamente progressista. Ao fim de um ano teríamos um crescimento que nos daria força negocial para negociar a reestruturação da dívida para um montante e calendário suportáveis. E teríamos posto Bruxelas no seu lugar. Mais importante, teríamos evitado um desastre social e estaríamos em melhores condições para exigir algumas derrogações aos Tratados que possibilitem políticas de desenvolvimento industrial (política orçamental activa, política industrial, discriminação fiscal para a produção de bens transaccionáveis).
Tudo depende de nós.





Bruxelas em estado de choque

É preciso ler um jornal irlandês para ficarmos a saber como reagiu a liderança neoliberal europeia ao programa e à campanha eleitoral do principal partido da oposição na Irlanda, o Fine Gael. Se passar a chefiar o governo como indicam as sondagens, o Fine Gael (centro-direita) quer que Bruxelas reduza substancialmente a taxa de juro da "ajuda" que recebeu do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (em média 5,8%) e, se tal não for concedido a curto prazo, decidirá unilateralmente uma reestruturação da dívida de dois bancos que foram nacionalizados e afundaram as finanças públicas da Irlanda. Tal "corte" atingiria em cheio bancos ingleses e alemães. Chocante!

É uma forma de lidar com a austeridade selvagem imposta por Angela Merkel que devia fazer reflectir os restantes países da periferia da UE. Mas parece que por cá se prefere a diplomacia do "bom aluno" para ir à boleia do que se vier a decidir sobre o Fundo e as condições impostas à desesperada Irlanda. Em vez da acção concertada da periferia, temos o "cada um por si". O pior dos cenários.

[post by Jorge Bateira in  



26 de fevereiro de 2011

VINÍCIUS DE MORAES - PARA ISSO FOMOS FEITOS


para isso fomos feitos:
para lembrar e sermos lembrados
para chorar e fazer chorar
para enterrar os nossos mortos
por isso temos braços longos para os adeuses
mãos para colher o que foi dado
dedos para cavar a terra

assim será nossa vida:
uma tarde sempre a esquecer
uma estrela a se apagar na treva
um caminho entre dois túmulos
por isso precisamos velar
falar baixo, pisar leve,
ver a noite dormir em silêncio

não há muito o que dizer:
uma canção sobre um berço
um verso, talvez de amor
uma prece por quem se vai
mas que essa hora não esqueça
e por ela nossos corações se deixem
graves e simples

pois para isso fomos feitos:
para a esperança no milagre
para a participação da poesia
para ver a face da morte

de repente nunca mais esperaremos...

hoje a noite é jovem
da morte apenas nascemos
imensamente

[Vinícius de Moraes]

[post by jb]

ISLÃO - SEXO E DEMOCRACIA - 5 VÍDEOS

IRÃO
a Grande Pérsia hoje… COMO É?

 [AS MULHERES ENCABEÇAM A REVOLUÇÃO NO IRÃO]

[Iranianos em Bruxelas diante da sua Embaixada, 20 Junho 2009]

[Em Teerão, Manifestação Pacífica, 16 Junho 2009]

[Em Teerão, manifestação contra a farsa eleitoral, 13 Junho 2009]

[A maior festa gay antes de Ahmadinajed]

http://www.youtube.com/watch?v=LN9xscD5-wM&feature=related

[Festa hetero, hoje]