teologia para leigos

14 de fevereiro de 2011

DIA DOS NAMORADOS - C. DRUMMOND DE ANDRADE

14 Fev

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança que vive dentro de si e do amado e vai com ela a parques, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou ao meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, sem brincar, quem vive cheio de obrigações, quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de afeto.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

Carlos Drummond de Andrade
[manteve-se a ortografia original]





CONTRA O ESTADO SOCIAL, NARRATIVA NEOLIBERAL

Estar presente

nos serviços públicos:

- protestando

-exigindo

-participando

No período em que agora entramos, vamos ser confrontados com os frutos desta armadilha do «cidadão não participante». Os neoliberais esperam colher agora os resultados do martelamento muito ideológico que têm vindo a fazer, com apoio da generalidade dos meios de comunicação social, sobre a natureza pretensamente ineficiente e insustentável dos serviços públicos, a que se oporiam um mercado naturalmente eficiente e uma iniciativa privada sempre bem sucedida e até mais barata para todos.

O facto de ser hoje claro para muito mais pessoas que esta narrativa é uma ficção, tão perigosa quanto habilmente fabricada, não impede que cada vez que um cidadão a tomou como verdadeira e se retirou dos serviços públicos para os privados se tenha contribuído para fragilizar a sua defesa comum (o mesmo acontecendo, diga-se, cada vez que um cidadão, consciente da dimensão e gravidade do ataque em curso, calou a sua crítica a problemas que observou nesses serviços). Um cidadão praticante ocupa o espaço público, utiliza os serviços públicos; critica para os defender e propõe para exigir mais rigor, qualidade e atenção às finalidades sociais. Um cidadão não participante não está presente nesses espaços; a partir daí os serviços, os seus servidores e seus beneficiários tornam-se esse «outro» que se ignora ou até se hostiliza.

Os que agora atacam o Estado social e os serviços públicos contam com a hipótese de estes frutos tóxicos estarem maduros, mesmo que saibam que não o estarão de forma homogénea em todos os sectores para onde gostariam de deslocar a sua predação (ou aprofundá-la). Na educação, por exemplo, recentemente sofreram até um revés, quando o governo decidiu, e muito bem, pôr um travão nos apoios ao ensino particular, quando este era financiado pelo público através de contratos de associação em locais servidos pela escola pública. Mas no sector da saúde continuam a proliferar modalidades de gestão e prestação de cuidados de saúde que asseguram lucros enormes a grupos privados, sem que eles sejam postos em causa. Seria mais do que tempo para se reflectir, por exemplo, nas vantagens de uma oferta pública de serviços como os meios auxiliares de diagnóstico, por comparação com os gastos que o sector público tem com a sua comparticipação quando são prestados pelo privado. Não se descobriria que, tal como no caso das escolas particulares, é nestas ofertas aos privados que está grande parte do «despesismo» público?

Estes interesses que hoje clamam pelo «emagrecimento» do Estado social têm uma janela estreita para actuar. Com a crise a aprofundar-se, os cidadãos não participantes com cuja cumplicidade eles estão a contar tenderão a reaparecer nos serviços públicos, porque os seus orçamentos deixam de lhes permitir pagar colégios privados, consultórios médicos ou automóvel particular. O mais certo é que se tenha ido a tempo de os hospitais, as escolas e os transportes públicos a que hoje muitos regressam continuarem a oferecer serviços de qualidade. Mas em que patamar estaríamos já como sociedade se uma presença cidadã, exigente e crítica, nunca tivesse deixado de ocupar esses serviços? A crise vai trazer igualmente deslocações de cidadãos que sairão do público, nos serviços já mais pressionados pela liberalização. Os estudantes que agora abandonam o ensino superior público, por falta de apoios sociais ou por incapacidade de pagar as actuais propinas, são uma trágica mas anunciada prova de como foi e é importante defender um ensino superior público universal e gratuito, em vez do que hoje existe e que já perdeu, na década antes da crise, um terço dos seus alunos mais pobres.

A melhor forma de criar músculo cidadão, que é o que pode levar o sangue dos recursos comuns aos sítios onde ele é necessário, é aprofundar a Memória dos direitos que nos melhoraram como civilização, ter hoje uma Prática que defenda os pilares do Estado social e nunca perder de vista os processos democráticos de aferição das finalidades que perseguimos. Isso faz-se nos dias das eleições e nos outros dias todos. Participando. É que, em rigor, o cidadão não participante é uma ilusão. Não existe. Só continuam a chamar-lhe cidadão para ele não descobrir que é um mundo antigo que estão a reconstruir em seu redor. Revoltar-se-ia?

Sandra Monteiro

Le Monde Diplomatique, edição em português, nº 52, Fev. 2011, p.19. [o sub-título original, no jornal citado, é APENAS «Estar presente nos serviços públicos»... - trata-se de um acrescento da responsabilidade do editor do blog]

11 de fevereiro de 2011

«PARAR BOLONHA» - OS ESTUDANTES CONTESTAM

“Education is a right not a privilege”

 

Os jovens europeus, afinal… ainda mexem

E os «portugueses»: comem e calam?

http://www.pararbolonha.blogspot.com/

Segunda-feira, Janeiro 24, 2011

Reunião Internacional de Movimentos e Colectivos Estudantis: em Paris, 11-13 de Fevereiro de 2011

De Londres a Viena, de Roma a Paris, de Atenas a Lisboa, surge uma nova Europa. Os estudantes, os precários, os cidadãos e os imigrantes, as massas lutam pelas suas vidas e seu futuro nas frentes de batalha da crise. Lutam para reconquistarem os seus direitos e a riqueza que produzem juntos todos os dias. Revoltam-se contra as medidas de austeridade que explora o nosso presente e nos rouba o futuro. Expressam a sua fúria contra a arrogância do poder.
Depois do consenso colectivo conseguido nas reunões do “Bologna Burns” em Viena, Londres, Paris e Bologna o ano passado, e este ano no encontro “Commoniversity”, em Barcelona, Edu-Factory e a Rede de Educação Autónoma unem-se para convocar uma reunião europeia de quem participa nesta luta comum, com o propósito de criar uma poderosa rede europeia das lutas dentro e fora das universidades. Um espaço trans-nacional para discutir e desenvolver nossa capacidade política colectiva, para lançar um contra-ataque às políticas que afectam a universidade e o bem-estar social e para construir um futuro para tod@s.

Em conferências e workshops, painéis e assembleias, vamos propor uma discussão em torno das questões-chave da universidade,
produção de conhecimento autónomo, redes de activismo, organização política trans-nacional e o comum.
Agora é o momento para nos levantarmos, juntos, colectivamente e individualmente, para recuperar nossas vidas e construir uma nova Europa, baseada nos direitos e na liberdade.
Chegou o momento para reivindicarmos o que é nosso: tudo.




http://www.pararbolonha.blogspot.com/

Quinta-feira, Fevereiro 10, 2011

Occupation of University building in Utrecht: out of protest to education cuts in the Netherlands

 

In the morning of February 9th students occupied a building of the Utrecht University in the Netherlands out of protest to cuts proposed by the new right-wing government. The government is implementing austerity measures across society, using the financial crisis a pretext to hollow out social spending. Like in other countries around Europe and the world, education is no exception to this rule.The proposed cuts to education include:

  • a 3.000 Euro fine and no right to free public transport for students who have more than one year delay in their Bachelor or Masters programme, regardless of the reason;
  • no more study-financing for Masters students;
  • cuts to higher education institutions resulting in the estimated loss of 4.000 jobs.
The occupiers want to send a clear message to the government and to society in general, “Education is a right not a privilege”, and we will not stand by while our right to education is being hollowed out. We also stand in solidarity with our fellow students and knowledge workers in other countries who are struggling for similar goals.

We're sending delegates to the Paris meeting, so see you there.
Student Action Comittee Utrecht
Nelson Fraga

[ir a: ‘pimenta negra’, blog]

10 de fevereiro de 2011

CIDADANIA, SAÚDE DEMOCRÁTICA E BEM-ESTAR

DO ESTADO SOCIAL

O cidadão não praticante

por Sandra Monteiro

Memória, prática, finalidade. A cidadania faz-se da conjugação destas três dimensões. Nas noites eleitorais e nos dias que se lhes seguem, vai sendo comum que os valores elevados da abstenção suscitem comentários preocupados, senão indignados, com o alheamento demonstrado pelos cidadãos num momento em lhes era pedido que usufruíssem de um direito fundador das democracias, exprimindo através do voto o sentido da sua escolha. As eleições presidenciais de 23 de Janeiro último não foram excepção, tanto mais que a abstenção chegou aos 53,37%, sendo a maior de sempre em eleições presidenciais ou legislativas.
Nesses dias descobre-se, mais uma vez, que um número crescente de cidadãos, se tivesse chegado às urnas, teria votado sozinho; que não se sentiria acompanhado pela memória, ou pela presença física, de todos os homens e mulheres que antes dele deram o melhor de si, e até a vida, para pôr fim a décadas (e séculos) de regimes não democráticos. Mas o que foi feito a seguir para tornar a memória e a história parte fundamental da identidade dos cidadãos?

Nesses dias descobre-se também que o cidadão atomizado, que só se identifica com o seu presente, mais facilmente faltará à chamada… desse mesmo presente. Preguiça e desinteresse são invocados para explicar a inacção de quem não entendeu que, em dia de eleições, o exercício do voto é de facto exercício − do que faz músculo cidadão. Mas o que é feito a seguir para que essa prática faça parte da ginástica quotidiana de que depende a saúde das democracias?

Nesses dias descobre-se, por último, que o cidadão com fraca memória e fraca prática de democracia tem mais tendência para não participar nas escolhas em que se joga o nosso futuro colectivo, como se lhe fosse indiferente que na sociedade vingassem projectos tão distintos quanto, por exemplo, o que defende que o contrato de base da democracia tem como finalidade o bem comum e por isso exige um Estado social assente na prestação de serviços públicos universais e de qualidade e, por outro lado, o que defende um Estado mínimo e assistencialista, por ser o que melhor assegura a interesses privados todas as formas de predação dos recursos públicos. Mas o que é feito a seguir para fortalecer em cada um a impressão de que as suas escolhas importam e têm consequências na definição de finalidades partilhadas, ainda por cima quando, sejam mais ou menos vencedores nas urnas, os projectos e as políticas que se instalam são mais orientados para a criação de clientes, passivos e isolados, do que de cidadãos, sujeitos de acção colectiva?

A abstenção é um sintoma de uma doença que começou muito antes dos dias em que se fala nela, mesmo que por sua vez actue sobre a doença, agravando-a. Quando se repara no problema da abstenção já é tarde e a discussão torna-se bastante estéril. Porque o acto de ficar em casa e não votar é apenas uma pequena parte de um imenso empreendimento, central ao projecto do neoliberalismo, que consiste em construir cidadãos não praticantes. O objectivo deste empreendimento não é sequer, como a abstenção poderia fazer crer, criar um vazio de acção. É retirar a acção da esfera da cidadania e encaminhá-la para campos em que ela vá favorecer os interesses e lucros privados que, por estarem em contradição com a prossecução do bem comum, precisam, em democracia, do consentimento participante de cidadãos não participantes.
Na fase austeritária da democracia em que nos encontramos, isso é visível, por exemplo, nos dispositivos habilmente montados para tornar as famílias dependentes do crédito, mesmo para os bens de consumo mais essenciais. Com isso consegue-se assegurar os tremendos lucros dos bancos, mascarar as responsabilidades políticas pela situação e ainda amortecer na opinião púbica soluções que exigem que se enfrente o sistema financeiro e se abandone essa posição de refém-raptor que tem sido, neste sequestro colectivo que continua impune, a dos governos europeus.
As raízes desta armadilha programada são, contudo, identificáveis muito antes da eclosão desta crise. Dela fazem parte décadas de culto ao individualismo, como racionalidade suprema na gestão da vida, ou de culto à juventude, com a correlativa desvalorização dos mais velhos. As consequências existenciais deste processo podem demorar a sentir-se, mas os seus efeitos na corrosão do princípio da solidariedade intergeracional são já reconhecíveis em muitos discursos, propostas e práticas relacionados com o mundo do trabalho e com a segurança social.

No período em que agora entramos, vamos ser confrontados com os frutos desta armadilha do cidadão não participante. Os neoliberais esperam colher agora os resultados do martelamento muito ideológico que têm vindo a fazer, com apoio da generalidade dos meios de comunicação social, sobre a natureza pretensamente ineficiente e insustentável dos serviços públicos, a que se oporiam um mercado naturalmente eficiente e uma iniciativa privada sempre bem sucedida e até mais barata para todos.

Le Monde Diplomatique, edição em português, nº 52, Fev. 2011, p.19.





THOMAS MERTON - ENTRE A CLAUSURA E O MUNDO 2/2

«É unicamente por isso que desejo a solidão: perder-me para todas as coisas criadas, morrer para elas (…) Quisera viver sozinho e afastado delas. O beata solitudo! Ó bendita solidão!» [Thomas Merton]

então, em que ficamos?


Carta 16

Querido Ernesto:

Foi anunciada, no mosteiro, a morte de Hemingway. Suponho que já o saibas. Caso Pablo Antonio o queira, pode publicar este poema. Ou qualquer outra pessoa tua conhecida. Re-escrevi o texto sobre a bomba atómica. Ficou maior e mais completo e corrigi alguns erros. Enviarei a nova versão quando for impressa.
As notícias políticas da América Latina são más e confusas; melhor: indicam a confusão interna aos próprios Estados Unidos. Esperemos que, todavia, se possa encontrar e que vingue a verdade.
Todas as bênções e votos bons; saudações a todos os meus amigos de aí.
Cordialmente em Xto.,

P. M. Louis[1]


Carta 18

30 Agosto de 1961

Querido Padre Louis:

Grato pela «Elegia a Hemingway» e pelo seu «Cântico»[2] que me enviou. Ambos, muito bons. Traduzi a elegia que foi publicada no suplemento literário de um jornal mexicano, México en la Cultura, que lho remeteu a si. Pablo Antonio publicou-o também no seu jornal na Nicarágua e creio que no El Pez y la Serpiente [«O Peixe e a Serpente»] e também numa antologia de poesia norteamericana que se editará no México. Agradou a muitos. Traduzi também o seu Ox Mountain Parable of Meng Tzu [«Parábola da Montanha do Boi de Meng Tzu»] e mandei-o a uma revista, mas (…).

Envio alguns livros que podem interessar-lhe. Rezando por si, como sempre, seu em Xto.,

Ernesto


Carta 19

11 Setembro de 1961

Querido Ernesto:

Desejo escrever uma longa carta a Pablo Antonio; creio que o farei amanhã: será, não só, uma carta pessoal, mas também uma espécie de tomada de posição  face à situação actual. Poderá usá-la a seu bel-prazer na revista dele. Creio que valerá a pena tentar escrevê-la, pois poderá ser útil. Sinto-me impaciente perante a estupidez e a inexorável confusão em que tudo caiu, especialmente os Estados Unidos, que julgo ser minha obrigação moral dizer algo inteligente já que tenho a possibilidade de o fazer.
O chocante é ver todo o mundo ser arrastado, para um lado e para o outro, por dois poderes enormes que estão praticamente loucos, sendo suas loucuras sobreponíveis entre si, com a mesma obsessão pelo poder paranóico, o mesmo fascínio pela expansão tecnológica, a mesma vulgaridade, a mesma brutal estupidez e insensibilidade face aos valores humanos e espirituais (ainda que os Estados Unidos presumam cinicamente que a religião abençoa todo o seu sistema), a mesma dependência insensível face a super-mitos e a mesma inútil imersão no materialismo. O problema é que, como os Estados Unidos são mais ineptos, mais confusos, dependentes de mitos que são mais vagos e mais patentemente absurdos, todos agora começam a inclinar-se diante do outro paranóico pelo simples facto de ser mais calculador e mais eficiente. Tudo isto só piora as coisas.
(…)
Com saudações cordiais votos em Cristo,

P. Louis



Carta 23

24 de Dezembro de 1961

Querido Ernesto:
Estou profundamente preocupado com a paz, e estou unido a outros cristãos num protesto contra a guerra nuclear; paradoxalmente, é aquilo a que se pode chamar o mais pequeno e descuidado dos «movimentos» em toda a Igreja. Isto é muito mais significativo para mim. Não me queixo, não critico: mas observo com uma espécie de silêncio e aturdimento a inacção, a passividade, a evidente indiferença e incompreensão como a maioria dos católicos, clero e leigos, pelo menos neste país, observam o desenrolar da crescente pressão para que haja uma guerra nuclear. É como se todos se tivessem convertido em comedores de Lotus. Como se estivessem sob o efeito de algum feitiço. Como se, com olhos e ouvidos enfeitiçados, vissem vagamente através de uma cortina comatosa a eminência da sua própria destruição e fossem incapazes, sequer, de levantar um dedo contra isso. É uma sensação espantosa. Espero não estar no mesmo coma. Resisto a este pesadelo com todas as minhas forças e, pelo menos, luto e clamo juntamente com outros que têm a mesma consciência.

Os mil e um paradoxos e contradições inerentes à posição de tantos católicos realmente confundem e acabam por nos paralisar. Porque, enquanto insistem cada vez com o argumento de «a Igreja», ao mesmo tempo enfatizam cada vez mais uma moral que destrói e dissolve a substância da própria vida cristã e da Igreja. À excepção de alguns temas de conveniência que são defendidos com total intransigência, como por exemplo o controlo da natalidade, a moral sexual, etc., tudo tende à aceitação supina dos mais seculares, mais rebaixados, dos mais vazios dos critérios mundanos. É o caso da aceitação da guerra nuclear. E não só: ela é exaltada como sacrifício cristão, como uma cruzada, como a via da obediência. E isto é tão assim que há muitos que insistem que só se é um bom cristão quando se oferece uma obediência cega e sem resistência a todos os desmandos de César. Para mim isto é um pesadelo. E sinto que tenho que ter muito cuidado na forma como protesto, pois, pelo contrário, calam-me. E sem dúvida, mais tarde ou mais cedo, me calarão. É quase impossível que passem, aos censores [da Ordem], artigos sobre a paz.

Pelo contrário, é consolador que exista pelo menos uma minoria que está despertando e a começar a reagir. Preferentemente entre os não católicos, mas também entre alguns poucos católicos privilegiados. Por exemplo, Dorothy Day e o Catholic Worker, a quem todos menosprezam com um encolher de ombros. Mas há também o padre Daniel Berrigan, o poeta jesuíta, e alguns mais. Creio que te disse que estamos fundando um movimento pela paz. Acontece que os organizadores pertencem todos a um restrito círculo. Lax, Rice e eu mesmo, o padre Berrigan, o pessoal do Catholic Worker, alguns sacerdotes, muitos dos quais já eram meus conhecidos. E o resto do clero? Ah!, um grande número deles ou ingressou na John Birch Society ou simpatiza com ela. Já estás a ver onde quero chegar.

Graças a Deus que, no seio do episcopado americano, houve um grupo organizado de bispos que criticou semi-oficialmente este tipo de coisas e declarou que se opunha aos partidários de J. Birch.
(…)

Não deixes de te manter em contacto comigo.
Com as melhores saudações cordiais no amor de Cristo, o Senhor,

P. M. Louis
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 «CORRESPONDÊNCIA entre Thomas Merton e Ernesto Cardenal: 1959-1968», Ed. Trotta, 2003.
1 “P. M. Louis”, era o nome de trapista de Thomas Merton: «Père Marie-Louis».
2 «Elegia a la muerte de Hemingway» e «Cântico para usarse en processión alrededor de un lugar com crematórios», escritos na altura da notícia da morte do escrior.
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 foto de entrada: ANSELM KIEFER, 1945 (Berlim), autor influenciado pelos horrores da II Guerra Mundial.

THOMAS MERTON - ENTRE A CLAUSURA E O MUNDO 1/2



São esse abismo e essa distância, meu Deus, que me matam.
É unicamente por isso que desejo a solidão: perder-me para todas as coisas criadas, morrer para elas e para o seu conhecimento, pois me fazem lembrar a distância que me separa de Ti.
De facto, elas dizem-me algo de Ti: que estás longe delas, mesmo estando nelas.
Tu as criaste, e é a tua presença que sustenta o seu ser, mas elas escondem-te de mim.

Quisera viver sozinho e afastado delas. O beata solitudo! Ó bendita solidão!

Bem sabia eu que, só abandonando-as, podia chegar a Ti: por isso fui tão infeliz quando parecias condenar-me a ficar nelas. Agora a minha amargura desapareceu, e a alegria está a ponto de começar: a alegria que se desfruta nas penas mais profundas.
O certo é que estou a começar a entender.
Tu me ensinaste e me consolaste, e eu comecei de novo a esperar e a aprender.



[Desenho & Texto de Thomas Merton, "Diálogos com o Silêncio", Ed. Franciscana, pp 44.47, respectivamente]